Como o uso da Dialética Junguiana, Dialética Comportamental e Mindfulness podem construir sentido existencial para idosos?

Desde o final do século XX e principalmente no decorrer do século XXI o fenômeno do envelhecimento populacional vem ganhando força no Brasil e no mundo. Em razão disso, se fez necessária a atenção, investigação e investimento em estudos sobre essa etapa do desenvolvimento humano. A velhice por muitas vezes é uma fase composta por diversas variáveis, em que o luto, o desamparo e a solidão estão presentes, além de todo o processo biológico que envolve constantes mudanças. Por isso, é de suma importância compreender os aspectos biopsicossociais do envelhecer.

A concepção de velhice

É importante ressaltar que a velhice não tem uma data exata definida. Não se tem um parâmetro que  possa ser considerado inarredável. Existem pessoas que podem ser consideradas velhas aos 40 anos e, ao mesmo tempo, temos pessoas consideravelmente jovens aos 75 anos.  De acordo com o que regulamenta o Estatuto do Idoso (Ministério da Saúde, 2013a), entende-se como  idoso todo o indivíduo com idade igual ou superior a 60 anos.

Importante mensurar que  Beauvoir apud Coura e Montijo (2014), colaciona as diferenças de conceitos entre idade biológica, social e psicológica. A idade biológica refere-se ao envelhecimento orgânico do organismo, levando em consideração o envelhecimento dos órgãos e a capacidade de autorregulação que também se torna menos eficaz. A idade social é seriamente determinada pela cultura e tem como referência o papel que o indivíduo ocupa na sociedade, e o quanto está ou não socialmente ativo.

A idade psicológica refere-se à capacidade dos aspectos de inteligência, memória e motivação. Não se pode deixar de considerar que definir a velhice apenas em termos cronológicos pode ser um erro comum, pois depende do contexto em que o indivíduo está inserido, das oportunidades e experiências que se teve ou tem acesso, segundo Garcia (2014).  Ademais, existe um enorme preconceito em relação à velhice, que são expressos por reações de desgosto, ridicularização, negação e afastamento. Neri e Freire (2000) aduzem que há uma forte associação entre a velhice com a doença, a dependência e até com a morte.

Fonte: encurtador.com.br/lFHM7

Dinâmica de grupo

Quando se desprende o conceito de grupos, necessário se faz assimilar que são condições do ser humano ter desejos, identificações, mecanismos de defesa e, em especial, necessidades básicas como a dependência e o desejo de ser reconhecido pelo outro. “Assim como o mundo interior e o exterior são a continuidade um do outro, da mesma forma o individual e o social não existem separadamente, pelo contrário, eles se diluem, interpenetram, complementam e confundem entre si”. (ZIMERMAN, OSORIO et al, 2007, p. 27).

A modalidade privilegia a aprendizagem e o treino de várias competências e contribui para que o indivíduo obtenha e partilhe informações sobre mudanças e transições características dessa fase. A psicoterapia em grupo na velhice pode proporcionar melhora nos sintomas psicológicos e físicos, bem como na qualidade de vida (Rebelo, 2007).

Neto (2004) refere que quando as pessoas percebem que estão sós, enfraquecem e apenas conseguem ver um cenário deprimente e de desesperança do que é a sua vida. Assim os os laços que se criam dão suporte social, cognitivo e emocional, auxiliando o idoso na manutenção da auto-estima e do desenvolvimento pessoal, uma vez que resulta numa melhoria da saúde mental, maior autodomínio e maior satisfação na qualidade de vida, pois reduz os efeitos negativos do stress e melhora as respostas imunitárias e de humor (Andrews, 2001; Hansen-Kyle, 2005).

A dinâmica em grupo terapêutico é um recurso necessário quando pensamos na criação de novas relações pessoais e promoção de qualidade de vida na terceira idade, é um momento de troca de vivências e experiências adquiridas ao longo da vida.

Fonte: encurtador.com.br/EFLX2

Mindfulness

Mindfulness é uma palavra de origem inglesa que conceitualmente tem sua origem a partir do termo Sati que vem do dialeto indiano pali, que por sua vez, significa “lembrança” ou “lembrar”, assim como também pode ser traduzido por “estar atento” (Grossman e Van Dam, 2011). Nessa perspectiva, Sati é entendido como recordar para reorientar a atenção e estar alerta para experiência do momento presente de maneira receptiva e incondicional (Germer, 2016b). Dentro do contexto budista, o conceito de Sati aparece no seu sermão Satipatthana Sutta (Os Quatro Elementos da Atenção) e é considerado o coração das meditações budistas (Thera, 1962).

No caso do Brasil, ainda existe a dificuldade de interpretação do inglês para o português, pois a tradução literal da palavra “mindfulness’’ pode ser variada entre “atenção plena”, “consciência plena”, “mente alerta”, “observação vigilante”, entre outras. No meio científico, o termo mais utilizado para traduzi-la é Atenção Plena, mas ainda existem críticas que apontam que esta não seja a tradução mais literal.

Uma definição operacional de mindfulness dentro do contexto ocidental é feita por Kabat-Zinn (2003), que define o termo como a consciência que emerge ao prestar atenção no momento presente e sem julgamento momento a momento. Alguns autores, por sua vez, conceituam mindfulness como um estado ou traço que se refere à capacidade de estar atento ao que acontece no momento presente intencionalmente e sem julgamento.

Diante de todo exposto, importa salientar que o Mindfulness não é apenas uma técnica, mas um estilo de vida, uma forma de ver o mundo de uma perspectiva mais saudável e sem julgamentos, percebendo os fenômenos tais quais eles se apresentam e adquirindo uma perspectiva de aceitação e neutralidade em relação a eles.

A busca pelo sentido da vida pode causar tensão interior em vez de equilíbrio interior. Entretanto, essa tensão é um pré-requisito necessário para a saúde mental. O que o sujeito necessita não é um estado livre de tensões, mas antes a busca e a luta por um objetivo que valha a pena, uma tarefa escolhida livremente (Frankl, 1946/2011).

Fonte: encurtador.com.br/iCUVZ

Dialética – Terapia Comportamental

A Terapia Comportamental Dialética foi desenvolvida a partir da década de 1970 pela psicóloga, professora e escritora norte-americana Marsha Linehan. Apesar de ter sido projetada inicialmente para tratar TPB, sabe-se que é bastante útil para qualquer pessoa com problemas de desregulação emocional, mesmo que a causa não esteja relacionada a um transtorno mental. Na Dialética o terapeuta pode escolher quais peças da terapia serão efetivas para clientes diferentes. Em resumo, quando não está sendo usada  para tratar (Boderlaine), o modelo é muito flexível e pode ser usado para qualquer transtorno (Van Dijk, 2013).

A dialética fundamental neste modelo de terapia se concentra na validação e aceitação do paciente em sua inteira totalidade. Sobre a “dialética”, vale ressaltar que, ao criar seu modelo de tratamento, Linehan foi fortemente influenciada pela teoria da dialética. Van Dijk (2013) explica que pensar dialeticamente significa olhar para ambas as perspectivas em uma situação e, em seguida, trabalhar para sintetizar essas perspectivas possivelmente opostas.  Terapia através do método dialética, é uma modalidade de psicoterapia que combina propostas da ciência comportamental, da filosofia dialética e da prática zen.

Dialética Junguiana

Segundo Jung (2009b), a psicoterapia trata-se de um tipo de procedimento dialético, que ocorre a partir da interação entre dois sistemas psíquicos, o do paciente e o do psicoterapeuta, em uma relação de troca e influência mútua. Essa concepção distanciou-se bastante da inicial, que  considerava  a  psicoterapia  como  um  “método  aplicável  de  maneira  estereotipada  por qualquer pessoa, para obter um efeito desejado” (JUNG, 2009b, p.1). Sendo  assim,  no  método dialético  proposto por  Jung, o  psicoterapeuta  deve abdicar  de  sua autoridade  diante  do  paciente,  impondo-se  um  espírito  crítico  que  não  se  deixa  levar  pela pretensão de saber e julgar sobre a individualidade e totalidade da personalidade do paciente.

Dessa forma conclui-se que, o foco  através da terapia possibilita a promoção de saúde e auxilia os idosos a encarar esse período da vida de forma o mais produtiva possível e passível de ser vivida com bem-estar e qualidade, visando melhor adaptar os idosos às demandas e mudanças que são características do processo de envelhecimento.  Oferece um espaço de escuta e fala, que através da Terapia Dialética e Mindfulness buscam criar um ambiente controlado que permita aos idosos estabelecerem regulação emocional, gerenciamento comportamental, práticas contemplativas que favoreçam a melhora das demandas relativas ao quadro específico que possuem.

Referências

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ZIMERMAN, D.E. Fundamentos básicos das grupoterapias. Porto Alegre: Artes Médicas Sul: 2010.

Autores:

Ana Carla Olímpio Soares

Adhemar Chúfalo Filho

Auridéia Loiola Dallacqua

Eduardo Barros Carneiro

Maria Laura Maximo Martins

Maria Luiza Pinto Araújo Fernandes Sá

Tatiane Gomes de Moraes Silva.