Por que é comum a mulher levar a culpa pelo fracasso da relação?

Eu começo este post pedindo desculpa a mim mesma e a todas as mulheres que já julguei e culpei pelo fracasso de uma relação hétero amorosa. Nesta semana a cantora Luísa Sonza e o humorista Whindersson Nunes se separaram. Os 2 fizeram um texto anunciando o término e postaram em suas redes sociais. No mesmo momento um amontoado de pessoas foram até a conta de Luísa responsabiliza-la pelo termino e a acusaram de nunca ter amado o humorista. Da mesma forma, foram na conta do Whindersson, mas desta vez para falar que ele teve foi um livramento. Isto nos mostra que em uma sociedade com práticas machista, a mulher ainda leva a culpa pelo fracasso de uma relação.

Mesmo quando o homem age de má fé e não respeita a parceira com quem está, a mulher é responsabilizada (não estou falando do humorista). Quem nunca ouviu os  seguintes julgamentos: ¨ela não se dedicava tanto ao marido¨; ¨trabalha fora e esqueceu de cuidar da casa¨; ¨ele traiu porque ela não dava a merecida atenção¨; ¨ela se casou só por causa do dinheiro¨; ¨ela era dramática demais¨; ¨também, ninguém aguenta aquela mulher histérica¨; etc. Toda está dinâmica coloca o homem num lugar de vítima e responsabiliza apenas uma parte, sendo que a relação é construída por 2. Ninguém constrói uma relação sozinho.

Numa relação os 2 erram e os acertam. Não existe apenas um culpado. Porém, as mulheres ainda são atreladas a um estereótipo imaginário de maternidade, afeto, carinho, feminilidade, delicadeza, ou seja, a famosa ¨ bela, recatada e do lar¨. Se a mulher desvia deste padrão, é comum ser taxada como rebelde. Como consequência, é comum que a mulher feminista esteja sempre experimentando a solidão e/ou tendo casos curtos, e nem sempre isto é uma escolha. Muitos homens não estão preparados para ir contra algo que lhes favorece e ir para um local que considerado como frágil (para muitos). Desta forma é mais confortável colocar toda a culpa de seu despreparo na mulher feminista que busca independência do patriarcado. E infelizmente ainda me deparo com estereótipos do tipo: mulher para casar e mulher para ficar. Em qual estereótipo você acha que a mulher feminista se encaixa?

No patriarcado o homem é o provedor, e muitos estranham quando uma mulher ganha mais ou não precisa mais ser sustentada pelo homem, obtendo sucesso profissional. Haters julgaram Luísa de usar o humorista apenas para crescer profissionalmente. Estas pessoas não conseguem enxergar que ambos cresceram de forma profissional e pessoal quando estavam juntos. E assim acontece em muitas relações, onde a mulher é taxada como interesseira/aproveitadora, mas a relação amorosa é uma troca, de afeto, de tempo, de cuidado, de experiências e de aprendizados.

Outro ponto que me chamou a atenção foi o fato de internautas procurarem postagens em que Luísa declarava amor eterno, para dilacerar ódio e mensurar o amor da cantora. As pessoas precisam entender que toda separação tem suas dores e que não é nada comum alguém casar já pensando na separação e é natural quando se está tendo uma boa troca amorosa com alguém, desejar esta boa sensação para sempre. Afinal, na vida queremos o que nos faz bem, mas o mundo muda, as relações mudam e nós mudamos juntos. O que nos fez feliz ano passado, este ano pode deixar de fazer sentido e isto não invalida a veracidade do que foi sentido ano passado.

Assim como o amor é construído, a falta de amor também é uma construção. Algumas vezes ambos perdem o interesse, outras vezes acontece de forma unilateral. Assim como quem descobre que não é mais amado, quem deixou de amar também sofre. Quem deixou de amar também perdeu um amor. E se Luísa, Ana, Rosa ou Maria amou e deixou de amar, quem somos nós para mensurar e duvidar do amor de alguém?

Devido este contexto, depois do termino de uma relação, muitas mulheres aprendem a conviver com a culpa. E esta culpa carrega toda uma história que nos acompanha de maneira consciente e inconsciente. É comum ver a representação submissa da mulher em romances, lendas, mitologias, poemas, fatos históricos, filmes e textos bíblicos. Ir contra tudo isto, ter e exigir o poder de escolha se torna um grande peso. No entanto, aos poucos vamos nos fortalecendo. Seja uma mulher que fortalece a outra. Nós não somos as únicas culpadas quando algo dá errado em nossos relacionamentos, cada um tem sua parcela de culpa.

Não se responsabilize e carregue sozinha o peso de uma culpa que não é só sua. Perdoe o outro e se perdoe também!

Obs: Foi realmente triste ver que grande parte das críticas que Luísa recebeu foram feitas por mulheres. Não é só o homem que tem práticas machistas, a mulher também tem. A desconstrução do machismo precisa ser abraçada por ambos os sexos. Todo dia é um novo aprendizado e uma nova tomada de consciência.

Prints feitos no perfil do Instagram de Luísa 

 

Prints feitos no perfil do Instagram de Whindersson

Fernanda Karoline Bonfim
Psicóloga egressa do Ceulp/Ulbra. Pós-graduanda em Terapia de casal: abordagem psicanalítica (Unyleya). Colaboradora do Portal (En)cena.