O silêncio da partida e a reconstrução do eu

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Viver 26 anos ao lado de alguém é tecer uma tapeçaria onde os fios de duas vidas se tornam indistinguíveis. No nosso caso, essa trama foi, nos últimos anos, atravessada pelos tons cinzentos da doença. Conviver com diagnósticos cardíacos e pulmonares crônicos me colocou em um estado que a psicologia define como luto antecipatório. Eu já me despedia dele em cada falta de ar, em cada internação, em cada crise. O cuidado tornou-se nossa principal forma de amar; eu era o suporte, ele era a luta.

O capítulo final trouxe uma complexidade avassaladora. Ver o quadro evoluir para falências hepática e renal foi como ver as margens de um rio se estreitarem. A indicação da hemodiálise surgiu como uma última boia de salvação, mas o corpo dele, já exausto de tantas batalhas, não encontrou a estabilidade necessária para o procedimento.

Nesse cenário, a UTI de um hospital se torna um ambiente de suspensão. Entre bipes de monitores e sedativos, a comunicação verbal foi
substituída pelo toque e pelo olhar. Sob a perspectiva psicológica, vivemos ali uma crise de impotência profunda: o desejo de sustentar a vida versus a realidade biológica da falência múltipla de órgãos.

O que mais dói, e o que mais gera eco nesse vazio imenso, é a ausência da despedida verbal. Ele partiu entubado. O tubo, que tentava dar o sopro de vida, também selou os lábios que poderiam ter dito um último “eu te amo” ou um “está tudo bem”.

Na psicologia, a falta desse ritual de despedida pode configurar o que chamamos de pendência simbólica. Sinto que uma ponte foi cortada antes que eu terminasse de atravessar. O vazio que sinto hoje não é apenas a ausência física, mas o silêncio de todas as palavras que ficaram represadas na garganta. É o luto de um encerramento que não teve o ponto final, apenas um sinal de reticências.

Hoje, o vazio é imenso porque o espaço que ele ocupava era proporcional ao tempo que passamos juntos. São 26 anos de referências partilhadas. A psicologia ensina que o luto não é um processo de “esquecer”, mas de acomodar. Estou aprendendo a transformar a dor da ausência na memória da presença.

Embora não tenha havido a despedida de voz, busco agora a despedida do coração. Entender que o amor de duas décadas e meia não se
resume ao último suspiro em uma UTI, mas à totalidade de uma vida construída. O desafio atual é o de me redescobrir: quem sou eu agora, sem o papel de cuidadora, sem o meu companheiro de jornada?

O caminho é lento, e o vazio, por enquanto, é minha companhia. Mas entendo que esse vazio é o testemunho da grandeza do que vivemos.

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