A experiência de viver com transtorno obsessivo-compulsivo

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Vivemos em um mundo que normaliza muito os sintomas ansiosos, que trata, às vezes, algumas situações com humor, mas que, para algumas pessoas, trazem grande sofrimento. Muitas pessoas não sabem, mas viver com transtorno obsessivo-compulsivo é mais doloroso do que parece, pois é um sofrimento interno, que perpassa a dor psíquica que ninguém vê. Para algumas pessoas, o TOC é o motivo de acordar todos os dias com medo dos próprios pensamentos. O medo de perder o controle, de algo ruim acontecer, de não conseguir “desligar a mente”. O TOC não é apenas “gostar das coisas organizadas” ou “ser perfeccionista demais”, é viver com uma mente que insiste em criar cenários aterrorizantes e obriga a pessoa a realizar rituais mentais ou comportamentais para tentar aliviar a angústia.

Por trás de cada pensamento intrusivo, há uma luta silenciosa e exaustiva em busca de paz. É importante que falemos sobre isso com empatia, sem julgamentos e sem reduzir o sofrimento do outro a “mania”. O tratamento psicológico pode ajudar a pessoa a compreender e enfrentar seus medos com mais leveza e autonomia.

O filme “TOC TOC” ilustra de forma leve e bem-humorada alguns desses desafios. Cada personagem carrega um tipo de obsessão e compulsão, mostrando como o transtorno pode se manifestar de formas diferentes, desde a necessidade de repetição e simetria até o medo constante de contaminação. Apesar do tom cômico, o filme também revela um olhar empático sobre o sofrimento de quem convive com o TOC, e reforça, mesmo que de modo simbólico, o valor do acolhimento, na medida em que, mediante à exposição aos próprios medos, promove-se a transformação.

Podemos refletir, a partir dos estudos sobre o TOC, o quanto a nossa mente pode ser poderosa e vulnerável ao mesmo tempo. Na tentativa de buscar segurança em um mundo imprevisível, o cérebro cria padrões de controle que acabam se tornando prisões invisíveis. A Terapia Cognitivo-Comportamental entra justamente nesse ponto: ela ensina que o controle não está em eliminar o pensamento, mas em mudar a forma como reagimos a ele. Em vez de lutar contra as obsessões, o paciente aprende a observá-las sem julgamentos, a permitir que a ansiedade exista sem se deixar dominar por ela.

A mente não dá trégua: pensamentos indesejados surgem de forma invasiva, repetitiva e angustiante, como se algo terrível pudesse acontecer a qualquer momento se a pessoa não fizer algo para evitar. É olhar para o fogão e sentir a necessidade de verificar dez vezes se ele realmente está desligado. É lavar as mãos até a pele machucar porque a sensação de “não estar limpo o suficiente” não passa. É pensar em algo horrível, sem querer, e ser tomado por uma culpa esmagadora, como se o simples pensamento fosse capaz de causar o mal.

Esses rituais e pensamentos, vistos de fora, podem parecer exagerados, mas, por dentro, há um sofrimento silencioso e exaustivo. A pessoa com TOC sabe que seus medos não são racionais, mas não consegue simplesmente “parar”. O cérebro cria um ciclo de urgência e alívio momentâneo, e cada tentativa de controlar o medo acaba reforçando o transtorno. É como estar em uma prisão com as chaves nas mãos, mas sem conseguir usá-las. Por isso, o acolhimento e o tratamento adequado são tão essenciais: porque não é só sobre vencer o TOC, mas de reaprender a viver com liberdade dentro da própria mente.

Referência: DSM-5 e estudos clínicos sobre TOC (American Psychiatric Association, 2014).

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