Quando o lar se dividiu

Compartilhe este conteúdo:

Quando pensamos em família, quase nunca imaginamos que o lugar que deveria ser refúgio pode, tantas vezes, se tornar o centro do caos. Cresci ouvindo que infância é sinônimo de leveza, mas a minha ficou registrada de outra forma, não como lembranças soltas, e sim como cicatrizes que o tempo não conseguiu apagar. Desde pequena, eu observava tudo, observava demais. Enquanto outras crianças brincavam, eu tentava entender por que um lar que deveria ser abrigo podia ser também um campo de guerra. Havia dias de flores, mas havia dias de xingamentos. Eu me perguntava, sem entender: como algo pode mudar tanto de um dia para o outro?

Segurar nos pés do meu pai para que ele não saísse era o único jeito de impedir desabamentos. E, entre idas e voltas, eram meus avós que sustentavam o que restava de estrutura (emocional, financeira, familiar). Ele sempre voltava, e cada retorno trazia a promessa silenciosa de que, dessa vez, tudo seria diferente. Apesar de tudo, eu via o esforço do meu pai. Via o amor dele do jeito que ele conseguia amar. Mesmo entre falhas e tempestades, quando estávamos juntos, ele trazia segurança e minha mãe trazia o colo. Era como se eu tivesse dois mundos diferentes dentro da mesma casa, e eu tentava caber nos dois. Mas a verdade é que eu nunca consegui ver meus pais como um casal. Eram duas pessoas tentando existir, às vezes juntas, às vezes rompidas, e eu no meio, tentando entender onde ficava o chão. 

Tive que amadurecer muito rápido para lidar com tudo isso. Com a adolescência, vieram também a ansiedade, a insegurança e a solidão. Eu tive poucas amizades e, aos poucos, percebi que carregar o lar nas costas me fez perder espaços que outras adolescentes tinham. Em determinado momento, adoeci, reprovei na escola, emagreci e me afastei de tudo. Meu corpo gritava aquilo que minhas palavras não davam conta de explicar. O tempo passou. A vida financeira em casa dependia de muito esforço, trabalhos, entrega, dedicação. Enquanto organizávamos momentos felizes para outras pessoas, nossas próprias datas comemorativas eram sempre improvisadas, na exaustão, quase sem alegria. Eu sonhava, em silêncio, com um natal ou ano novo tranquilo, daqueles que víamos nas casas onde trabalhávamos, mas esse dia nunca chegava.

E, então, aconteceu de novo, mais uma separação. Só que, dessa vez, fui eu quem arrumou as coisas do meu pai para que ele fosse embora. Achei que estava apenas repetindo o que a vida parecia nos impor. Mas, ali, naquele dia, sem perceber, comecei a viver uma perda diferente: perder meu pai, estando ele vivo. Hoje, mesmo morando na mesma cidade, ele se afastou de mim e do meu irmão. Disse que não estaria mais presente em ambientes onde minha mãe estivesse. E eu me pego pensando em como serão agora as datas comemorativas, como será dividir os dias, os espaços, os afetos. É como viver um luto que ninguém sabe nomear. Um luto do que foi, do que não foi, do que eu gostaria que tivesse sido. E dói pensar no quanto poderíamos estar vivendo hoje, mesmo com lares divididos, se o amor tivesse encontrado outro caminho. Dói, porque, apesar de tudo, eu sei o quanto meu pai me amava, e sei também o quanto minha mãe sempre tentou ser colo.

Fico entre a segurança que um dia senti e o acolhimento que sempre tive, sem poder viver nenhum dos dois completamente. Me pergunto, às vezes, o que doeu mais: viver em meio ao caos familiar ou viver a ausência dele agora. Não sei a resposta. Talvez a dor não esteja em escolher um lado, mas em nunca ter tido a chance de não escolher nada. Ainda assim, descobri algo: mesmo depois de tantos rompimentos, ainda restou um pedaço de lar. Pequeno, mas presente. Ele existe no abraço da minha mãe, nos meus avós que nunca desistiram, nos poucos que ficaram. É dali que venho reconstruindo tudo o que sobrou. 

Hoje, olhando para trás, vejo que não fui a culpada de nada disso, fui apenas uma criança tentando segurar o mundo com as mãos pequenas. Uma adolescente tentando sobreviver ao que não sabia nomear. Uma adulta tentando costurar as partes que se romperam. E, de tanto ver traições, idas e voltas, juras quebradas, relações sendo refeitas e destruídas repetidas vezes, acabei me tornando insegura. Carreguei dores que não eram minhas, aprendizados que não me pertenciam. Hoje, reconheço essas sequelas e busco ajuda para tratá-las, para não repetir histórias que me feriram. E sigo, com dores antigas, com medos novos, com fragmentos de história. Sigo com a saudade do meu pai, com o colo da minha mãe e com o pedacinho de lar que me restou que, de alguma forma, tem sido suficiente para continuar.

Compartilhe este conteúdo: