A saúde mental dos trabalhadores da saúde

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O visor do relógio digital fixado no pilar da UTI indicava quatro horas e dezessete minutos. A claridade avermelhada dos numerais contrastava com a iluminação pálida do corredor, desenhando uma sombra esticada sobre a xícara descartável, amarrotada na extremidade. Clara já não recordava o instante em que derramara aquele café morno na garganta. O líquido amargo não despertava mais estímulo algum; funcionava meramente como um gesto automático, uma tentativa fútil de convencer o organismo de que a jornada ainda não findara — ou de que o dia seguinte já tomara o seu lugar.

Ao longo do último semestre, a noção de tempo dentro do hospital adquiriu um ritmo próprio e alheio ao mundo externo. A alternância entre dia e noite perdeu o sentido, substituída pela cadência ininterrupta dos monitores de sinais vitais, pelo chiado contínuo dos compressores de ar e pelo som seco do látex ajustado às mãos. Sob a perspectiva de quem cruzava os corredores ocasionalmente, Clara encarnava a eficiência absoluta. Deslocava-se com passos firmes, revisava prontuários com precisão milimétrica e mantinha uma entonação serena, capaz de conter o desespero dos parentes no saguão de espera.

No entanto, sob essa fachada equilibrada, as engrenagens internas começavam a falhar. O desgaste não desabou repentinamente; infiltrou-se devagar, como a umidade que corrói uma parede por dentro. As primeiras manifestações surgiram nas noites insones, quando o teto do quarto parecia reverberar os clarões das luzes das ambulâncias.

Em seguida, estabeleceu-se um aperto constante no peito, um cansaço físico denso que transformava o simples ato de erguer-se da cama em uma tarefa hercúlea. Aquela era a cobrança imposta pelo sistema: as jornadas duplicadas, a cobertura sucessiva de faltas por escassez de equipe, a rotina rígida sem espaço para pausas ou desvios. Era o Burnout em sua forma pura — a máquina burocrática da dor consumindo as forças de quem tenta sustentá-la.

Contudo, existia uma camada ainda mais complexa e dolorosa — um peso que não decorria apenas da carga horária excessiva, mas da própria ferramenta de trabalho: a empatia.

A memória de seu Antenor veio-lhe à mente, um senhor de oitenta anos acolhido na ala sul na semana anterior. Tinha o olhar manso semelhante ao de seu pai e o hábito constante de murmurar um “muito obrigado” a cada procedimento realizado. Clara acompanhou o declínio gradual de seu quadro, segurou sua mão gélida nas fases críticas e buscou oferecer o acolhimento que a farmacologia já não podia proporcionar. No instante em que o monitor de seu Antenor registrou a cessação dos batimentos, algo dentro de Clara paralisou. Não houve lágrimas; o que a aterrorizou foi a constatação de um vazio absoluto.

Manifestava-se ali a Fadiga por Compaixão. A reserva de sensibilidade, tantas vezes alimentada pelo desejo genuíno de aliviar o sofrimento alheio, havia se esgotado por completo. Como mecanismo de defesa contra o colapso a cada perda, a mente ergueu uma barreira anestésica. A capacidade de se comover com a dor do outro — justamente o elemento que a guiara para a área da saúde — passara a representar um risco à sua própria integridade. A doação irrestrita cobrara o preço da insensibilidade defensiva.

Clara observou as próprias palmas sob a luz fria do teto. Exibiam a pele ressecada pelo uso contínuo de antissépticos e um leve tremor decorrente da privação de sono. Ficou evidente a contradição imposta à sua categoria profissional: exige-se dos trabalhadores da saúde um empenho irrestrito, como se fossem dotados de imunidade às fragilidades biológicas e emocionais. Cobra-se uma empatia incondicional diante do enfermo, ao mesmo tempo em que se nega a esses profissionais o direito de demonstrar cansaço ou fragilidade. O rótulo de “heróis” serve apenas para romantizar o excesso de trabalho e mascarar a ausência de suporte institucional.

Um alarme intermitente ecoou do leito 12. Clara respirou fundo, ajeitou a gola do jaleco e avançou pelo corredor. O corpo clamava por repouso e a mente por isolamento, mas a demanda pelo cuidado permanece ininterrupta. Enquanto caminhava, compreendeu que preservar a própria saúde exigiria tanto empenho quanto resgatar a vida de um paciente — e que reconhecer que o cuidador também necessita de suporte não constitui fraqueza, mas sim o ato mais genuíno de humanidade que lhe resta.

REFERÊNCIAS

FRANÇA, Ana Cristina Limongi; RODRIGUES, Avelino Luiz. Stress e trabalho: uma abordagem psicossomática. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2011.

MASLACH, Christina; LEITER, Michael P. Burnout: Tendo coragem para renovar seu compromisso com o trabalho. São Paulo: Artmed, 2019.

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