Sobre encontrar alguém que fala a língua das nossas feridas: reflexões acerca do amor, da cumplicidade e da transgressão como intimidade no relacionamento entre Jimmy McGill e Kim Wexler, de Better Call Saul

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Quando Better Call Saul foi anunciada, a expectativa parecia bastante clara. Inserida no universo de Breaking Bad, a série surgia como um spin-off dedicado a explorar as origens de Saul Goodman, o advogado falante, oportunista e criativamente flexível que havia conquistado o público na série original. A proposta, ao menos em um primeiro momento, parecia relativamente simples: compreender como Jimmy McGill se transformaria naquele personagem extravagante que já conhecíamos.

Acontece que Better Call Saul rapidamente abandona qualquer pretensão de ser apenas uma história de origem. O que começa como a trajetória de um advogado tentando construir uma carreira se revela um dos dramas psicológicos mais sofisticados da televisão contemporânea. A série expande o universo de Breaking Bad, mas sua maior ambição não está no crime, nos cartéis ou nos esquemas mirabolantes. Está nas pessoas. Nas feridas que carregam, nos vínculos que constroem e nas formas silenciosas pelas quais moldam umas às outras. Jimmy McGill deixa de ser um personagem secundário aprofundado e se transforma em uma figura de uma complexidade dolorosa, atravessada por desejos contraditórios, necessidades de pertencimento e uma busca incessante por validação.

E nenhuma dessas camadas é apresentada de maneira tão imediata quanto por meio de sua relação com Kim Wexler.

A primeira cena que compartilham resume, sem dizer uma única palavra, muito do que a série passará seis temporadas desenvolvendo. Encostados contra uma parede nos fundos do tribunal, dividem um cigarro em silêncio. Não existe exposição, não existe explicação, não existe pressa. Apenas duas pessoas ocupando o mesmo espaço com uma intimidade tão estabelecida que dispensa qualquer esforço. A câmera permanece observando à distância, permitindo que o silêncio faça o trabalho que normalmente caberia ao diálogo.

É uma das apresentações de relacionamento mais elegantes já construídas para a televisão. Jimmy e Kim surgem envolvidos por um cuidadoso jogo de luz e sombra que parece antecipar a própria natureza do vínculo. Nenhum dos dois está completamente na escuridão. Nenhum dos dois está completamente iluminado. A composição visual sugere algo intermediário, um território de ambiguidades morais, afetos genuínos e contradições que ainda levarão anos para se revelar.

Antes mesmo que saibamos quem eles são, a série já nos mostra o que existe entre eles: conforto. Confiança. Familiaridade. Uma cumplicidade tão antiga que não precisa ser anunciada. O espectador ainda desconhece suas histórias, mas reconhece imediatamente aquela sensação rara de estar diante de duas pessoas que aprenderam a existir lado a lado. E me arrisco a dizer que isso faz com que a trajetória de Jimmy e Kim se torne tão fascinante. Better Call Saul não apresenta apenas um romance. Apresenta duas pessoas que encontram uma na outra aquilo que lhes falta, aquilo que as desafia e, inevitavelmente, aquilo que também as coloca em risco.

Sob a perspectiva da Teoria Triangular do Amor, desenvolvida por Robert Sternberg, os relacionamentos amorosos são construídos a partir da interação entre três elementos fundamentais: intimidade, paixão e compromisso. A ausência ou predominância de cada um deles dá origem a diferentes formas de amar. Quando os três coexistem de maneira equilibrada, Sternberg descreve aquilo que denomina amor consumado – considerado a expressão mais completa do amor romântico. É difícil observar a trajetória de Jimmy e Kim sem reconhecer os traços dessa configuração. 

O relacionamento entre esses dois personagens é frequentemente reduzido à ideia de um casal que se corrompe mutuamente, mas essa leitura deixa escapar o que torna a dinâmica dos dois tão fascinante. Existe amor ali. Existe admiração intelectual, respeito profissional e uma intimidade construída ao longo de anos de parceria e também a disposição de permanecer. Jimmy enxerga em Kim uma das pessoas mais brilhantes que já conheceu; Kim reconhece em Jimmy uma criatividade e uma inteligência estratégica que raramente encontra em outros lugares. O problema nunca foi a ausência de afeto. O problema é que o afeto deles se desenvolve ao redor de feridas que conversam entre si.

Kim foi criada em um ambiente no qual aprender a suportar parecia mais importante do que aprender a pedir ajuda. Desde cedo, desenvolve uma relação quase identitária com a capacidade de resistir: trabalhar mais, carregar mais peso, exigir mais de si mesma. Sua história é atravessada pela crença de que valor e sacrifício caminham juntos. Não surpreende que ela se torne uma adulta extremamente competente, mas também alguém que transforma a própria exaustão em motivo de orgulho. Em muitos momentos, sua relação com Jimmy reproduz essa lógica. Kim assume responsabilidades, absorve problemas e se coloca na posição de sustentar aquilo que ameaça desmoronar. Existe carinho nessa escolha, mas também uma tentativa de oferecer ao outro aquilo que ela própria nunca recebeu: compreensão, lealdade e permanência.

Ao mesmo tempo, toda essa construção moral cobra um preço. Kim passa anos habitando uma espécie de prisão cuidadosamente arquitetada por ela mesma. A advogada impecável, a profissional incansável, a mulher responsável que sempre faz o que precisa ser feito. Jimmy surge como uma rachadura nessa estrutura. Não porque a convence a ser alguém diferente, mas porque oferece um espaço onde partes reprimidas de sua personalidade podem finalmente respirar. Os golpes, as pequenas fraudes e os jogos de manipulação não são simples atos de rebeldia; funcionam como doses de liberdade. Pela primeira vez, Kim encontra uma forma de escapar da obrigação constante de ser correta, previsível e controlada. A transgressão não aparece como destruição, mas como alívio.

Jimmy ocupa uma posição igualmente complexa dentro dessa relação. Se Kim vê nele uma saída para a rigidez, ele a transforma em sua bússola moral. Ela representa tudo aquilo que sempre lhe foi apresentado como legítimo: competência, reconhecimento, pertencimento institucional. Kim habita o mundo do qual Jimmy sempre se sentiu excluído. O mundo dos profissionais respeitados, das pessoas levadas a sério, das regras que funcionam para quem consegue segui-las. Em muitos aspectos, ela encarna tudo aquilo que Chuck (irmão de Jimmy) valorizava e tudo aquilo que Jimmy acreditava não conseguir ser.

Por isso, a aceitação de Kim possui um significado que ultrapassa o campo romântico. Quando Kim o ama, acredita nele e permanece ao seu lado, Jimmy encontra algo que perseguiu durante toda a vida: validação. Não apenas a validação de uma parceira, mas a validação simbólica de um sistema inteiro que sempre lhe fechou as portas. Se alguém como Kim o reconhece, então talvez ele não seja a fraude que tantos insistem em enxergar. Talvez seus métodos não sejam tão condenáveis. Talvez o problema nunca tenha sido ele. Sua presença suaviza a culpa, relativiza os limites e oferece uma espécie de autorização emocional para continuar operando naquela zona moralmente cinzenta onde sempre se sentiu mais confortável.

Essa dinâmica ajuda a compreender por que Jimmy demonstra tamanho interesse em transformar Kim não apenas em companheira afetiva, mas também em parceira de trabalho e, em consequência, pois ambos estão intimamente atrelados, em uma “parceira de crime”. Compartilhar golpes com ela não é somente uma questão de diversão ou cumplicidade. Existe uma necessidade constante de trazê-la para perto daquele território onde ele vive. Quando Kim participa, aquilo deixa de ser apenas uma escolha individual. Passa a ser uma escolha compartilhada. Sua adesão funciona como confirmação de que sua visão de mundo possui validade. Jimmy não busca apenas companhia; busca legitimidade.

É justamente nesse ponto que a transgressão se torna uma linguagem de intimidade. Muitos casais constroem proximidade através de conversas profundas, demonstrações explícitas de vulnerabilidade ou projetos em comum. Jimmy e Kim frequentemente se conectam através de segredos, planos e pequenas conspirações. Alguns dos momentos de maior sintonia emocional entre eles acontecem enquanto enganam alguém, manipulam uma situação ou elaboram uma estratégia juntos. Existe prazer, excitação e uma sensação eufórica de alinhamento. 

A tragédia da relação nasce porque essa intimidade é genuína. Se não houvesse amor, a história seria simples. O que torna Better Call Saul tão dolorosa é justamente o fato de que eles encontram um no outro algo que raramente encontram em qualquer outra pessoa. Jimmy oferece a Kim liberdade. Kim oferece a Jimmy pertencimento. Ele a ajuda a escapar da prisão que construiu para si mesma; ela o ajuda a acreditar que merece ocupar um lugar no mundo. O problema é que os mesmos mecanismos que produzem conforto também alimentam seus aspectos mais destrutivos.

Por isso, enxergá-los apenas como o veneno um do outro parece insuficiente. Em muitos momentos, eles também funcionam como ponto de equilíbrio. O relacionamento oferece acolhimento, compreensão e reconhecimento mútuo. O que a série retrata com tanta precisão é algo mais difícil de admitir: relações profundamente amorosas também podem fortalecer mecanismos de defesa, justificar escolhas nocivas e ampliar partes de nós que talvez precisassem ser confrontadas. Nem todo vínculo destrutivo nasce da falta de amor. Alguns nascem justamente da capacidade extraordinária que duas pessoas têm de compreender, validar e proteger as feridas uma da outra.

Referências

MYERS, Eleanor. Sternberg’s Triangular Theory of Love. Simply Psychology, 2026. Disponível em: Simply Psychology – Sternberg’s Triangular Theory of Love. Acesso em: 23 jun. 2026. 

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