Misato Katsuragi é uma das figuras centrais do anime Neon Genesis Evangelion, apresentada como capitã da NERV e responsável por coordenar operações que literalmente decidem o destino da humanidade. Ela é inteligente, carismática, estrategista e, ao mesmo tempo, surpreendentemente desorganizada, impulsiva e emocionalmente complexa. Entre latas de cerveja espalhadas pelo apartamento, piadas para aliviar o clima e uma coragem que às vezes parece maior do que ela mesma, Misato se torna uma das personagens mais humanas do anime, forte por necessidade, frágil por dentro, e sempre tentando equilibrar essas duas versões de si. A série a constrói com profundidade e carinho, mostrando desde o início que sua bravura não vem da ausência de medo, mas justamente do fato de ela ter decidido viver apesar dele.
Ela é, provavelmente, a personagem que melhor traduz aquele caos de tentar parecer adulta enquanto tudo dentro da gente está um pouco fora do lugar. Evangelion faz isso com uma maestria incrível, quando ela está no comando, a câmera a trata como heroína de ação, quando está em casa, a série revela que ela é praticamente uma universitária atrasada entregando trabalhos em cima da hora, vivendo de cerveja e improviso emocional.
Ao longo da história, Misato vive com um trauma do Segundo Impacto, e não é preciso nenhuma teoria complicada para perceber como isso molda tudo o que ela é e faz. Mesmo quando tenta bancar a adulta responsável, algo no jeito dela mostra que ainda existe uma parte muito jovem tentando sobreviver ao que aconteceu. Não é que ela “não superou”, é que algumas coisas não se superam, apenas se carregam.
E tentar carregar tudo isso sozinha faz com que Misato se tornasse uma espécie de cuidadora compulsória. Ela cuida de Shinji, cuida da equipe, cuida das missões, cuida do mundo inteiro… mas raramente deixa alguém cuidar dela. Com Shinji, inclusive, nasce uma relação cheia de boas intenções e tropeços emocionais, não porque ela não saiba amar, mas porque amar, para Misato, sempre parece um terreno instável. Ela quer ser porto seguro, mas seu próprio chão treme.
Com Kaji, então, tudo fica ainda mais evidente. É um relacionamento cheio de tensão, carinho e medo, medo de perder, medo de repetir, medo de sentir demais. E a direção do anime faz questão de mostrar que os dois se amam, mas não sabem muito bem o que fazer com isso. Misato se aproxima e se afasta como quem toca uma ferida que ainda dói. É bonito, é triste e é incrivelmente real.
No fim das contas, o que mais marca Misato é essa mistura rara de força e fragilidade. Ela comanda operações impossíveis, mas também chora escondido. Salva vidas, mas teme não conseguir salvar a si mesma. Age como adulta, mas tem um coração que nunca encontrou um lugar totalmente seguro. Evangelion não tenta corrigir isso, ao contrário, mostra Misato como alguém tentando todos os dias costurar uma vida que continua rasgando nos mesmos lugares e que, mesmo assim, segue em frente.
Talvez seja por isso que tantos espectadores se identificam com ela, Misato não é uma heroína perfeita, mas alguém que tenta. E tentar, num mundo que vive desabando, às vezes é o ato mais humano de todos.
Ficha técnica
Obra: Neon Genesis Evangelion (1995)
Personagem analisada: Misato Katsuragi
Temas: Trauma, afetos, relações e vida adulta
