A Psicologia ocupa um papel fundamental na promoção da saúde mental, na defesa dos direitos humanos e na construção de práticas éticas voltadas ao cuidado da população. Nesse contexto, os Conselhos Regionais de Psicologia desempenham uma importante função de orientação, fiscalização e fortalecimento da profissão, aproximando a categoria das demandas sociais contemporâneas.
Nesta entrevista, conversamos com Eder Ahmad Charaf Eddine, Doutor em Educação (Psicologia e Educação) pela Universidade de São Paulo (USP), possui formação complementar, em nível lato sensu, em Terapias Cognitivo-Comportamentais, Neuropsicologia, Psicopedagogia e Educação e Sociedade, líder do grupo de pesquisa Comunicação em Saúde (COESA/UFT/CNPq), na linha Saúde mental, mídias e representações, finalista do Prêmio Jabuti Acadêmico 2024, na categoria Psicologia e Psicanálise, com a obra Psicologia, educação e homossexualidades: o normal e o patológico em revistas científicas de 1970 e 1980, um profissional que atualmente exerce o cargo de secretário do Conselho Regional de Psicologia da 23ª Região (CRP-23), vivenciando pela primeira vez a experiência de atuação na gestão institucional da Psicologia. A partir de sua trajetória, desafios e aprendizados, a entrevista busca refletir sobre o papel do CRP-23, os desafios da profissão e a importância do compromisso ético na atuação psicológica.
Fernanda – Gostaria que você compartilhasse um pouco da sua trajetória. Em que momento percebeu que queria seguir o caminho da Psicologia?
Eder Eddine – Desde o ensino médio eu tinha o desejo de compreender o comportamento humano. Optei pela Psicologia por ser a ciência e a profissão que estudam, pesquisam e buscam compreender esse comportamento em suas múltiplas dimensões.
Fernanda – Hoje você ocupa o cargo de secretário do CRP-23 em sua primeira experiência na gestão do Conselho. O que essa vivência tem representado para você enquanto profissional e pessoa?
Eder Eddine – Como profissional e como pessoa, aprendo diariamente. Estou diretamente ligado tanto ao funcionamento do Conselho quanto à categoria que represento, atuando especialmente no setor de registro profissional e na comunicação interna e externa do CRP-23. Isso exige atenção constante ao que acontece na relação entre a profissão e a sociedade.
Na relação da categoria com a sociedade, por exemplo, apoiamos pautas importantes como a luta pelas 30 horas, a regulamentação da psicoterapia como prática privativa de psicólogos e a defesa do piso salarial. Já na relação entre Conselho e categoria, participo de diferentes grupos de trabalho voltados ao fazer profissional e às condições de exercício da Psicologia.
Um exemplo é o grupo que está construindo uma nova resolução para regulamentar a atuação de profissionais formados em outros países que desejam exercer a profissão no Brasil. Parece um tema simples, mas é bastante complexo: já estamos na quarta reunião e seguimos trabalhando na construção dessa normativa. Todas essas experiências têm contribuído de forma muito positiva para minha trajetória profissional e para minha história de vida.
Fernanda – Ao assumir esse espaço de representação profissional, quais desafios mais chamaram sua atenção na realidade da Psicologia atualmente?
Eder Eddine – São inúmeros os desafios, mas um deles tem merecido atenção especial: a comunicação entre o Conselho e a categoria. Já avançamos bastante nesse processo, mas seguimos buscando melhorias. Queremos um Conselho mais ativo na relação com os profissionais e também com a sociedade, e entendemos que a comunicação tem papel central nesse movimento. Inclusive, já temos um manual de comunicação elaborado e aguardando aprovação na próxima plenária.
Fernanda – Na sua percepção, qual é a importância do CRP-23 na aproximação entre a Psicologia e as demandas da sociedade?
Eder Eddine – O Conselho existe para a sociedade. Seu papel é auxiliar na fiscalização e orientação do exercício profissional, sempre considerando os interesses sociais. Essa aproximação é imprescindível e precisa ser permanente. Estamos atentos tanto aos serviços públicos quanto privados que oferecem atendimento e serviço psicológico, observando as condições de atuação e os espaços destinados ao exercício profissional. Além disso, contribuímos com cartilhas, orientações e normativas que qualificam o trabalho da categoria.
Fernanda – A partir da sua trajetória na Psicologia, quais questões você considera mais urgentes quando pensamos no cuidado em saúde mental e na atuação ética do psicólogo na sociedade atual?
Eder Eddine – Considero urgente retomar as discussões sobre a formação em Psicologia. A Psicologia não pode se reduzir a uma ou duas ênfases de formação e, muitas vezes, há uma predominância de modelos centrados apenas em determinados tipos de prática clínica. É fundamental fortalecer uma formação generalista, crítica e comprometida com a diversidade dos contextos de atuação e das demandas sociais.
Fernanda – Ao longo da sua formação e atuação profissional, houve alguma experiência ou contato com a Psicologia que transformou sua forma de compreender o compromisso do psicólogo com a sociedade?
Eder Eddine – Uma experiência marcante ocorreu quando eu atuava na fiscalização. Uma psicóloga recém-formada relatava dificuldades ao realizar avaliações psicológicas em contexto de trânsito com população indígena, porque os parâmetros existentes no período não contemplavam adequadamente aquela realidade. Naquele momento compreendi, de forma muito concreta, a importância da pesquisa e da formação em Psicologia para sustentar a prática profissional. Ainda estamos avançando na construção de referenciais para uma avaliação psicológica que contemple toda a diversidade do Brasil.
Fernanda – Para finalizar, que mensagem você deixaria para estudantes e profissionais que desejam construir uma atuação ética, humana e comprometida com a transformação social?
Eder Eddine – a primeira questão é não enxergar o CRP como inimigo nem como sindicato. O Conselho não ocupa nenhum desses lugares. Ele existe para auxiliar tanto a categoria quanto a sociedade na construção de uma Psicologia mais ética e mais humana. A partir disso, é importante utilizar o sistema Conselhos como apoio ao exercício profissional, buscando cartilhas e orientações. Uma formação sólida em Psicologia começa pela curiosidade constante do profissional diante do outro e do mundo. Isso significa estudar continuamente. Uma atuação ética exige dedicação permanente ao conhecimento e compromisso com uma prática séria. Eu releio frequentemente o Código de Ética e, a cada leitura, reforço o quanto ele permanece importante e necessário.
ENCERRAMENTO
Agradecemos pela disponibilidade em compartilhar sua trajetória, experiências e reflexões sobre a Psicologia e a atuação no CRP-23. Conversas como esta contribuem para aproximar estudantes e profissionais das discussões sobre ética, compromisso social e fortalecimento da profissão.
CRÉDITOS
Entrevistadora: Fernanda Bazana Martinez
Curso: Psicologia
Data: 29/05/2026
