O ódio como afeto político

Para ler este texto, primeiramente é necessário desaprender tudo que você sabe sobre o ódio e o amor. O cristianismo nos ensinou que o amor é um sentimento bom e o ódio um sentimento ruim, a ser recalcado e eliminado. Talvez o chamado fascismo eterno, esse que sempre retorna e retorna, seja um retorno disso que ainda não soubemos fazer com nosso ódio, esse afeto tão odiado (risos), mas tão poderoso, fundamental e necessário, como veremos.

Para a psicanálise tanto o ódio quanto o amor fazem parte da constituição do sujeito (eu), sendo que o ódio é ainda mais antigo e primitivo que o amor. Quando um bebê chega ao mundo, chega numa posição completamente objetificada, objeto de um outro que lhe oferece os primeiros cuidados, que convencionamos chamar de mãe. Para se separar do outro e constituir seu próprio eu, o bebê/criança precisa ir se munindo de uma certa dose de ódio. É o ódio que lhe faz capaz de dizer “não” ao outro, de “matá-lo”, a fim de constituir seu próprio narcisismo. No mecanismo do ódio, o outro não interessa, precisa ser recusado para fazer apenas 1: o eu.

Mas, caminhando pela infância em direção a maturidade, também vamos entendendo que não é possível odiar a todos, todo o tempo, sob o risco de ficarmos sozinhos. Então aceitamos abrir mão do nosso narcisismo a fim de criar um laço com o outro, que agora somos capazes de enxergar como diferente. A esse laço chamamos de amor. O amor, nesse sentido, só pode acontecer a partir de um traço de ódio. O amor é ódio tratado e transformado. Criamos a sociedade, porque fomos capazes de amar depois de odiar. O amor é o mais nobre dos afetos, mas sem o ódio que separa, ele não poderia existir. Enquanto o ódio quer fazer 1, o amor aposta na coexistência de 2, com suas diferenças.

Para a Lacan, são 3 as paixões fundamentais do ser: o ódio, o amor e a ignorância. O amor seria uma derivação do ódio, como já dissemos, mas um não funciona sem o outro. Sem uma dose de ódio, o outro a quem eu amo se torna alguém super idealizado, super valorizado, a ponto de me fazer querer assumir diante dele aquela condição primitiva do bebê; a de objeto. Esse é o amor dos apaixonados, que desejam se fundir, se tornarem 1 só, sem diferenciação. Para evoluírem para o amor, os casais apaixonados precisam, portanto, incluir no laço uma dose de ódio, um traço de separação.

Ao longo da vida, continuamos a usar o ódio e o amor nessa dialética: ódio para nos diferenciar, definir o que não somos, o que não aceitamos, e o amor para encontrar, para fazer laço, para escolher nossos pares. Por isso, amor e ódio são afetos políticos por excelência, onde um não acontece sem o outro. E se o amor é o mais nobre dos afetos, porque é abertura ao outro e aceitação da diferença, o ódio é o mais poderoso deles, porque nos empodera e nos diferencia.

Já a terceira paixão, a da ignorância, é a paixão em não saber, não saber sobre o outro, não saber sobre a diferença. Mas diante da constatação dessa nossa ignorância, podemos tomar dois caminhos distintos: não querer saber ou desejar saber. Quando a ignorância se coloca a serviço do ódio ela se entrega ao negacionismo. O negacionista não quer saber nada, não quer nem mesmo saber sobre a própria ignorância. Por outro lado, quando colocada a serviço do amor, a ignorância nos leva ao desejo de saber o que não se sabe, deseja saber sobre o outro e sua diferença. A ciência, a filosofia, a psicanálise, por exemplo, são modos de colocar a paixão da ignorância a serviço do amor, todas elas desejam saber.

Partindo dessas considerações, podemos pensar que o fascismo é uma junção entre o ódio e a ignorância; a forma mais regressiva de fazer funcionar a política, incluindo a política dos nossos afetos. Odeia-se o outro que deve ser eliminado: a petralhada, os comunistas, os gays, as feministas. E também ignora que o outro diferente exista: não existe o índio, não existe racismo, somos todos cristãos. Define-se a supremacia de uma determinada categoria (homem “de bem”, branco, herero, cristão, de direita) e os demais devem simplesmente se submeter ou deixar de existir, pelo mecanismo eliminação violenta ou pela simples negação. Diante da política fascista só há dois caminhos: ou você se torna 1 com eles, não existe com sua diferença (de opinião, de credo, de orientação sexual, de cultura, de cor) ou é eliminado/negado.

A adesão das massas ao fascismo também se faz pela junção do ódio com a ignorância, numa tentativa torpe, narcísica, de simplificar o mundo e reunir forças. O amor, por sua vez, comparece apenas na relação com o líder, mas é um amor apaixonado, idealizado demais, porque é um amor sem a mediação do ódio. Na relação com seu o líder o fascista aceita se colocar na condição de objeto, fazendo com ele um pacto masoquista: faça o que quiser de mim (inclusive me violentar e me matar), desde que não me abandone.

Desse modo, o fascismo se torna um fenômeno poderosíssimo, especialmente por fazer bom uso do mais primitivo e poderoso dos afetos: o ódio. Em situações de crise, de desamparo, de ameaça de dissolução, as massas recorrem a esse velho mecanismo conhecido, que algum dia salvou cada um de nós da primeira ameaça: não ser.

Não é difícil, portanto, compreender que o amor e o desejo de saber são as vacinas necessárias para prevenir e combater o fascismo. Não por acaso nosso fascismo tupiniquim tem como projeto destruir a arte, a cultura, a ciência, os movimentos sociais e políticos, as universidades, o SUS, ou quaisquer outras formas de desejo de saber em prol do amor. Mas existe algo de poderoso no ódio que é intratável, ineducável, indecifrável e inanalisável e, por isso, “a cadela do fascismo está sempre no cio”.

O cristianismo nos ensinou que o amor é capaz de vencer o ódio, que temos que oferecer a outra face e nos deixar matar, porque a vida segue, apesar da morte de um ou outro. Mas e quando as vítimas do fascismo decidem não oferecer a outra face e se recusam a morrer? Usar o ódio como resposta ao fascismo é também se igualar ao fascista ou alimentar o fascismo? Para tentar responder estas questões é necessário compreender por onde anda a paixão da ignorância nesse ódio. Usar o ódio para sustentar a diferença, inclusive a nossa, e não para eliminar a diferença, pode ser uma saída ética para usar esse poderoso afeto a nosso favor. É nesse sentido que se diz que a violência vinda da reação do oprimido não pode ser comparada com a violência do opressor.

Talvez o grande desafio no combate ao bolsonarismo tenha a ver com as questões: Como fazer uso político do ódio mantendo o desejo de saber? E como transformar a paixão da ignorância em desejo de saber?

 

Rita Almeida
Psicóloga / psicanalista. Trabalhadora da Rede de Saúde Mental do SUS. Conselheira CRP MG. Mestre e Doutora em Educação pela UFJF. www.ritadecassiadeaalmeida.blogspot.com.br