Quando o corpo recusa: silêncio e violência em “A Vegetariana” de Han Kang

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Em “A Vegetariana”, de Han Kang, tudo começa com uma decisão aparentemente simples: Yeong-hye deixa de comer carne. Não há manifesto, nem explicação elaborada. Há apenas uma recusa. Ainda assim, o gesto rapidamente ultrapassa os limites da vida privada. O que parecia uma escolha individual passa a mobilizar o marido, a família, os médicos, todos aqueles que, de alguma forma, acreditam ter o direito de opinar sobre seu corpo.

À primeira vista, o romance parece contar a história de Yeong-hye. Aos poucos, porém, algo se revela: ela quase nunca ocupa o centro da própria narrativa. Sua trajetória chega sempre mediada pelo olhar de outros. Primeiro pelo marido, que a descreve como uma mulher comum, escolhida justamente por sua discrição. Depois pelo cunhado, cuja fascinação por seu corpo se transforma em obsessão. Por fim, pela irmã, que tenta compreender aquilo que já parece escapar a qualquer explicação.

Essa escolha narrativa é uma das dimensões mais inquietantes do romance. Fala-se constantemente sobre Yeong-hye, mas raramente se escuta sua voz. Ela é observada, interpretada, desejada, corrigida, medicalizada e julgada. Até sua experiência precisa ser traduzida pelos outros, como se não pudesse existir por si mesma.

Vencedora do Booker Prize Internacional em 2016 por “A Vegetariana”, Han Kang tornou-se uma das vozes mais marcantes da literatura contemporânea. Em obras como “Atos humanos”, que revisita o massacre de Gwangju, e “Aula de grego”, centrada em personagens atravessados pela perda da linguagem, a autora retorna com frequência a experiências em que corpo, violência, memória e silêncio se entrelaçam. Seus romances parecem insistir justamente naquilo que resiste à explicação, nos limites da linguagem diante de certas formas de sofrimento.

Em “A Vegetariana”, essa investigação assume uma forma radical. Quanto mais tentam compreender Yeong-hye, mais ela escapa às categorias que procuram defini-la.

O corpo que deixa de obedecer

A recusa da carne nunca é apenas sobre alimentação. Aos poucos, o gesto de Yeong-hye começa a desorganizar a estrutura doméstica ao seu redor. O marido se incomoda porque a esposa deixa de corresponder à imagem previsível que ele acreditava ter escolhido. A família entende sua decisão como afronta. Seu corpo deixa de ser apenas seu e passa a ser tratado como um problema coletivo.

Em “Calibã e a bruxa”, Silvia Federici (2017) discute como o corpo feminino foi historicamente disciplinado para atender às exigências sociais e familiares. No romance de Han Kang, essa lógica aparece tensionada ao extremo: Yeong-hye transforma o próprio corpo em espaço de recusa.

Ela deixa de comer carne, mas também abandona, pouco a pouco, as formas de obediência que organizavam sua existência. E talvez seja justamente isso que provoque tanto incômodo. O livro sugere que certas sociedades toleram melhor a violência do que a recusa. Enquanto Yeong-hye permanecia adaptada, sua presença não causava estranhamento. O conflito começa quando ela deixa de corresponder.

Uma mulher narrada pelos outros

Há algo profundamente perturbador na forma como Han Kang constrói a narrativa. Yeong-hye raramente fala por si. Mesmo nos momentos mais extremos, quando seu corpo adoece ou entra em colapso, há sempre alguém interpretando o que acontece.

O marido a descreve antes da “mudança”. O cunhado a transforma em objeto estético e desejo. A irmã tenta compreendê-la enquanto lida com suas próprias marcas. Em nenhum desses olhares, porém, Yeong-hye aparece de forma inteira.

Talvez uma das violências mais profundas do romance esteja justamente nisso. Ela perde não apenas o controle sobre o próprio corpo, mas também o direito à própria narrativa. Sua experiência é constantemente atravessada por discursos alheios, da família, da medicina, do desejo, das expectativas sociais.

Mesmo quando sua voz surge, aparece em fragmentos: sonhos, imagens, rupturas. Como se já não houvesse espaço possível para ser plenamente escutada.

O silêncio como ruptura

Ao longo do romance, Yeong-hye vai se afastando progressivamente das formas convencionais de convivência. Sua recusa já não diz respeito apenas à alimentação, mas à própria permanência naquele mundo.

Em determinado momento, ela parece desejar abandonar sua condição humana, aproximando-se das plantas, da imobilidade, de uma existência sem violência. Han Kang constrói esse movimento sem reduzi-lo a uma metáfora simples. Yeong-hye permanece opaca, inquietante, impossível de explicar.

E é justamente essa recusa à explicação que sustenta a força do romance.

Existe uma diferença importante entre silêncio e ausência. Yeong-hye quase não fala, mas sua recusa reorganiza tudo ao redor. Seu silêncio não é passividade: é ruptura. Quanto menos ela aceita participar, mais evidente se torna a violência necessária para obrigá-la a permanecer.

O que permanece depois da recusa

Concluir “A Vegetariana” é permanecer por algum tempo em uma sensação difícil de nomear. Han Kang escreve sobre violência, mas também sobre esgotamento, sobre o momento em que alguém deixa de conseguir sustentar a própria existência dentro de determinadas formas de vida.

Yeong-hye não é apresentada como heroína nem como símbolo transparente de resistência. Ela permanece desconcertante até o fim. E talvez seja justamente isso que torna o romance tão perturbador: a recusa em oferecer respostas fáceis.

Ao colocar no centro uma mulher que deixa de obedecer às regras que organizavam seu corpo e sua vida, Han Kang constrói uma narrativa profundamente incômoda sobre controle, desejo e apagamento. Em “A Vegetariana”, ninguém consegue escutar completamente Yeong-hye. Ainda assim, sua recusa continua reverberando muito depois da última página.

Talvez seja esse o gesto mais potente da autora: escrever sobre aquilo que não se deixa capturar. E, com isso, abrir um espaço para que o leitor permaneça, inquieto, diante do que não pode ser resolvido.

Referências

FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. Tradução do Coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante, 2017.

KANG, Han. A vegetariana. Tradução de Jae Hyung Woo. São Paulo: Todavia, 2018. Eboolk

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Graduada em Letras e Mestra em Ensino de Língua e Literatura pela UFT. Acadêmica de Psicologia da ULBRA Palmas.

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