Vice: quando homens ordinários conduzem a política de um país

Concorre com 8 indicações ao OSCAR:

Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Montagem, Melhor Maquiagem e Penteados

Vice, escrito e dirigido por Adam McKay, conta a história “real” de Dick Cheney, o 46º vice-presidente americano durante a era Bush (2001 a 2009). Já no início do filme, McKay esclarece em um tom satírico que Cheney é conhecido justamente por ser um dos líderes mais reservados da história, então, nestas condições, fez o melhor possível (em suas palavras: “But we did our fucking best”). De certa forma, o que McKay tenta mostrar nas duas horas do filme foi como um funcionário burocrático de Washington se tornou silenciosamente, como um fantasma, o homem mais poderoso do mundo quando foi vice-presidente de George W. Bush, remodelando a forma como o jogo do poder político era conduzido e promovendo interpretações obscuras da constituição americana. Para Wilkinson [1],

Vice não quer humanizar Dick Cheney. Então, em vez disso, (talvez) demoniza a América. Poucos filmes em 2018 foram mais polêmicos do que Vice, o conto do diretor Adam McKay sobre o moderno Partido Republicano, concentrado na pessoa do ex-vice-presidente Dick Cheney. As resenhas de críticos foram fortemente divididas entre aqueles que amaram o filme e aqueles que o desprezaram, assim como a abundância de comentários polarizados.

Dick Cheney é interpretado de forma magistral por um irreconhecível Christian Bale, que teve sua forma física alterada, ganhando mais peso, e sua face e cabeça remodeladas por próteses.  A história toda é narrada por um personagem fictício interpretado por Jesse Plemonse o tom como este conduz a narrativa mostra-nos, de certa maneira, a forma como o diretor enxerga a figura central do seu filme.

Em alguns pontos da narrativa, há recortes do passado de Cheney, mostrando-nos que antes dele se tornar uma figura tão poderosa, ainda nos idos de 1963, era apenas um estudante e esportista medíocre, que só conseguiu obter uma bolsa em Yale graças a ajuda de sua inteligente e focada namorada (e futura esposa) Lynne (Amy Adams, impecável). Mas as bebedeiras e sua inabilidade para os estudos acadêmicos acabam lhe rendendo uma expulsão da faculdade e o consequente retorno a Wyoming, onde trabalhou como eletricista. McKay, na voz do seu narrador, insiste em dizer que naquela época Cheney deveria ser considerado um moleirão inútil, já hoje o chamariam simplesmente de imbecil. Ou seja, tudo o afastava do seu destino de ser o homem mais poderoso do mundo, ainda que nossa recente história nos mostra que possivelmente por essas características ele teria muito mais chance de ser eleito presidente de um país.

Lynne tinha um foco bem definido na vida, queria ter uma vida extraordinária, e isso seria menos difícil se não tivesse nascido em uma época em que as mulheres vinham em segundo plano na política e em todo o resto. Logo, dedicou sua vida a fazer de Cheney um homem importante e, também, de se fazer importante nesse meio. De forma bem simplista, a reviravolta de Cheney é mostrada ao público, por exemplo, quando seu vício em álcool é substituído pelo vício em comida e, especialmente, pelo vício em um tipo específico de energia, aquela advinda do poder.

Sua escalada ao poder começa na era Nixon, quando iniciou o trabalho com o implacável Donald Rumsfeld (Steve Carell). Em sua primeira investida no universo político, Cheney não passava de um estagiário de Rumsfeld, que o seguia para todos os lados, permanecia em silêncio o suficiente para não ser descartado e tinha uma esposa que alegrava os jantares. Certa vez, quando o jovem Cheney perguntou a Rumsfeld em que ele acreditava? Ele riu. Ao final, parece que Cheney entendeu que na política as verdades estavam relacionadas com a interpretação dos fatos de quem detinha o poder, ou melhor dos fatos criados para produzirem verdades desejadas.

O início do filme traz o momento dos ataques terroristas de 11 de setembro, e depois de mostrar um pouco da fase jovem de Cheney, inicia-se a parte principal da história, que são as ações do governo seguidas das consequências imediatas aos ataques, já com Cheney como vice-presidente. O Cheney apresentado no filme é uma figura paradoxal, parece um funcionário público saído de um livro de Dostoiévsky, aparentemente calmo, quieto, monótono, que aceita ordens e as cumpre simplesmente porque elas vieram de uma figura superior, mas também é um predador voraz, que olha o inimigo ou quem ele considera idiota com menosprezo, e que é capaz de dar ordens para destruir um avião ou uma cidade com o mesmo tom de quem pede duas colheres de açúcar no café.

Para contrabalançar a figura política de Cheney, vimos, em alguns momentos, ele com sua família, mostrando-o totalmente devotado à sua esposa e filhas. Para Bradshaw, do The Guardian [2],

Vice é divertido e niilista, especialmente quando se trata do relacionamento de Cheney com sua amada filha Mary Cheney (Alison Pill), uma mulher gay e ativista do casamento entre pessoas do mesmo sexo. O tratamento final de Cheney com ela neste filme me fez pensar em Cidadão Kane ateando fogo em seu trenó de infância e dizendo que nunca gostou de equipamento de esportes de inverno com o nome de flores.

De certa forma, nem seus momentos de pescaria, ou carregando os netos, nem seu carinho pela filha caçula o tiram do foco. Se para candidatura da sua filha mais velha, esta precisaria dizer que era contra o casamento gay, pois estava fazendo campanha em um estado extremamente convencional, então ela diria. Nesse ponto, as cenas bucólicas da família são substituídas pelas ações que o mantêm como parte do tabuleiro político. Mesmo o trenó sendo tão significativo para Kane, ele o queimou. Mesmo Cheney tendo apoiado a filha quando esta revelou a sua homossexualidade, ele a traiu quando foi necessário fazer uma jogada no tabuleiro político em que estava inserido.

É difícil pensar em algum cenário que humanize Dick Cheney quando se entende o ambiente que ele ajudou a criar depois dos ataques terroristas de 11 de setembro, a partir do poder que exercia sobre o presidente (o aparentemente confuso George W. Bush) e sobre outras figuras importante do universo político americano.

Em uma síntese, McKay apresenta alguns fatos que compõem esse cenário nos momentos finais do filme: a Halliburton Company, uma empresa multinacional americana do ramo petrolífero, nos anos seguintes à invasão do Iraque aumentou o valor de suas ações em 500%; a gestão Bush-Cheney alegou ter perdido 22 milhões de e-mails, incluído milhões que foram escritos no período que precedeu a guerra do Iraque; os memorando do advogado John Yoo estabeleceram uma base legal para a tortura, descrito por Cheney em uma entrevista como “interrogatório aprimorado”. E, ainda o uso da Teoria Unitária do Poder Executivo, que segundo [3],  remete “a ideia de que nada que um presidente faça possa ser considerado ilegal e, portanto, este não pode ser processado (recentemente este argumento legal especioso foi reciclado por estudiosos conservadores e oportunistas em defesa do presidente Trump)”. É um tipo de política melhor descrita a partir da regra Reductio ad Absurdum, ou seja, cria inimigos, expõe sua própria força armada a experiências terríveis, mata civis, mas vai à igreja aos domingos orar pela família e pelo país.

Nos momentos finais do filme há uma cena de uma entrevista com Cheney e em um dado momento ele olha para a tela e diz: “Não vou me desculpar por manter suas famílias seguras. E não vou me desculpar por fazer o que precisava ser feito para que seus entes queridos pudessem dormir tranquilamente à noite. Tem sido uma honra servir a vocês. Vocês me escolheram e eu fiz o que vocês pediram.” E essa frase final é o que há de mais terrível, pois geralmente o mal extremo pode até ser articulado por uma pessoa ou um grupo, mas só acontece, de fato, quando o povo cegamente o permite (e o deseja).

FICHA TÉCNICA DO FILME:

VICE

Título original: Vice
Direção: Adam McKay
Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Steve Carell, Sam Rockwell, Alison Pill, Jesse Plemons;
Ano: 2018
País: EUA
Gênero: Biografia, Drama

REFERÊNCIAS:

[1] https://www.vox.com/2018/12/21/18144605/vice-review-dick-cheney-adam-mckay-christian-bale-sam-rockwell-bush-steve-carell-rumsfeld

[2] https://www.theguardian.com/film/2018/dec/17/vice-review-christian-bale-dick-cheney-biopic

[3] https://www.spin.com/2018/12/vice-movie-review-dick-cheney/

Parcilene Fernandes
Doutora em Psicologia (PUC/GO). Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Ciência da Computação pela UFSC, especialista em Informática Para Aplicações Empresariais pela ULBRA. Graduada em Processamento de Dados pela Universidade do Tocantins. Bacharel em Psicologia pelo CEULP/ULBRA. Coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do CEULP/ULBRA.