Desenvolvimento infantil, corpo, movimento e construção da autonomia: (En)Cena entrevista a fisioterapeuta e psicomotricista Luciana Moura Ribeiro

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Esta entrevista faz parte da série de textos do (En)Cena sobre desenvolvimento humano. A proposta é compreender, a partir do olhar de uma fisioterapeuta, psicomotricista e pós-graduada em Neuropsicologia e ABA, como o desenvolvimento físico participa da construção da autonomia, da aprendizagem, das relações e das experiências da criança com o mundo. 

(En)Cena – Quando falamos em desenvolvimento físico na infância, do que exatamente estamos falando para além do crescimento corporal?

Luciana – Quando falamos em desenvolvimento físico, não estamos falando apenas do crescimento ósseo e muscular. Esse desenvolvimento também envolve o sistema nervoso central, a musculatura, a estrutura óssea e a aquisição das habilidades motoras. Aspectos como equilíbrio, coordenação motora, força e controle corporal são fundamentais para que a criança desenvolva maior autonomia em suas atividades cotidianas.

(En)Cena – Qual é a diferença entre desenvolvimento motor, psicomotricidade e desenvolvimento psicomotor?

Luciana – O desenvolvimento motor está relacionado à execução dos movimentos e à aquisição das habilidades motoras. A psicomotricidade estuda a relação entre o corpo e o movimento, considerando também a forma como a criança se organiza e se expressa por meio do corpo. Já o desenvolvimento psicomotor diz respeito ao processo de evolução das capacidades motoras associadas aos aspectos cognitivos.

(En)Cena – Como o movimento participa da forma como a criança conhece o próprio corpo, explora o ambiente e constrói autonomia?

Luciana – É por meio do movimento que a criança descobre suas capacidades e seus limites. Ao explorar objetos, espaços e diferentes experiências corporais, ela começa a construir noções de tempo, espaço e esquema corporal. Esse processo contribui diretamente para a construção da autonomia.

(En)Cena – Que relação existe entre corpo, cérebro e ambiente no desenvolvimento infantil?

Luciana – Corpo, cérebro e ambiente atuam de forma integrada. O cérebro organiza e aprende a partir das experiências corporais, enquanto o ambiente oferece oportunidades para exploração, interação e aquisição de habilidades. Por isso, o desenvolvimento infantil não pode ser pensado apenas como maturação biológica, mas também como resultado das experiências que a criança vive.

(En)Cena – De que forma habilidades como equilíbrio, coordenação, tônus, postura e planejamento motor aparecem no cotidiano da criança?

Luciana – Essas habilidades aparecem em várias atividades do dia a dia, como correr, pular, subir, vestir-se, brincar, andar de bicicleta, recortar e realizar tarefas de autocuidado. Muitas vezes, são ações simples da rotina que revelam como a criança está organizando seu corpo para participar do ambiente.

(En)Cena – Como o brincar contribui para o desenvolvimento motor e psicomotor?

Luciana – O brincar é muito importante porque estimula o movimento, a criatividade, a resolução de problemas e a interação social. Quando a criança brinca, ela experimenta o corpo, testa possibilidades, aprende limites e desenvolve habilidades importantes para sua autonomia e participação social.

(En)Cena – Quais sinais podem indicar que uma criança precisa de avaliação fisioterapêutica ou psicomotora?

Luciana – Alguns sinais merecem atenção, como atraso para sentar, engatinhar ou alcançar outros marcos motores. Desde os primeiros meses, já é possível observar alguns indicadores do desenvolvimento. Também devem ser observadas quedas frequentes, dificuldade de equilíbrio, postura inadequada, dificuldade para correr, pular ou saltar. A própria forma como a criança brinca pode oferecer informações importantes para avaliação.

(En)Cena – Como pais e responsáveis podem diferenciar uma variação esperada do desenvolvimento de uma dificuldade motora ou psicomotora que merece atenção?

Luciana – Essa é uma questão complexa, porque existem marcos do desenvolvimento esperados para cada fase, mas cada criança também tem seu próprio ritmo. Quando um atraso aparece e persiste, é necessário um olhar mais cuidadoso, pois isso pode impactar diretamente o desenvolvimento da criança. Nesses casos, a avaliação profissional ajuda a compreender se há uma variação esperada ou uma dificuldade que precisa de intervenção.

(En)Cena – Dificuldades motoras ou psicomotoras podem impactar a aprendizagem, a socialização e a autoestima da criança? De que forma?

Luciana – Sim. As habilidades motoras impactam diretamente a participação da criança na escola, nas brincadeiras e nas relações com outras crianças. Quando há dificuldades nessa área, a criança pode evitar determinadas atividades, apresentar insegurança ou ter prejuízos na interação com os pares. Se essas dificuldades não forem observadas e trabalhadas, podem afetar diferentes dimensões do desenvolvimento.

(En)Cena – Quando uma criança apresenta dificuldades corporais, motoras ou psicomotoras, o processo terapêutico e escolar também precisa ser adaptado?

Luciana – Sim. A intervenção precisa ser individualizada, respeitando as necessidades, os limites e o potencial de cada criança. Tanto no contexto terapêutico quanto no escolar, é importante que as propostas sejam ajustadas para favorecer a participação da criança, e não apenas exigir que ela acompanhe o mesmo ritmo ou a mesma forma de execução dos demais.

(En)Cena – O excesso de telas, a redução do brincar livre e a rotina mais sedentária podem interferir no desenvolvimento corporal da criança?

Luciana – Sim. O uso excessivo de telas pode reduzir as oportunidades de exploração corporal, interação social e brincadeiras que envolvem movimento. Quando a criança passa menos tempo correndo, pulando, manipulando objetos, brincando com outras crianças e explorando o ambiente, ela também tem menos oportunidades de desenvolver habilidades motoras finas, motoras grossas e sociais.

(En)Cena – Que mensagem você deixaria para famílias, escolas e profissionais sobre a importância do corpo no desenvolvimento infantil contemporâneo?

Luciana – O corpo é uma das principais ferramentas de aprendizado da criança. É por meio do movimento, das brincadeiras e das experiências corporais que ela conhece o mundo, desenvolve habilidades, constrói autonomia e fortalece relações. Investir em oportunidades de movimento é investir no desenvolvimento integral da criança, pois essas experiências favorecem segurança, estabilidade e participação ao longo da vida.

A entrevista com Luciana Moura Ribeiro nos lembra que o corpo também conta a história do desenvolvimento infantil. Antes de escrever, recortar, permanecer sentado por mais tempo ou participar de certas atividades escolares, a criança precisa experimentar o próprio corpo: correr, pular, cair, levantar, subir, equilibrar-se, brincar com outras crianças e explorar os espaços ao seu redor. Esses movimentos, muitas vezes vistos como simples brincadeira, são parte importante da forma como ela aprende, ganha segurança e constrói autonomia. Em um tempo em que muitas infâncias têm vivido menos movimento, menos rua, menos brincadeiras livres e mais telas, falar sobre desenvolvimento físico é também perguntar que oportunidades temos oferecido para que as crianças possam viver o corpo de maneira ativa, segura e significativa.

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Pedagoa, Neupsicopedagoga e acadêmica de Psicologia.

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