Capitã Marvel em uma interpretação Junguiana

A “inteligência suprema” age como o Self, que dentro da perspectiva de Carl Gustav Jung é o princípio organizador, que tenta manter o equilíbrio de todos os arquétipos psíquicos.

Capitã Marvel, nossa heroína, chegou aos cinemas quebrando recordes, sendo uma das maiores estreias de um longa-metragem estrelado por uma mulher. Os motivos para tanto sucesso são inúmeros, mas algo que não se pode negar, é o grande link que a história faz as bases teóricas junguianas. O enredo é trabalhado em função de uma condição psíquica da personagem, ao passo que ela vai desvendando os símbolos de sua mente tudo é explicado, e por fim, ela se torna uma das maiores forças do universo. As façanhas de sua subjetividade fazem dela grandes o suficiente (Atenção, alerta de spoiler).

Em primeira mão o mundo em que Danvers se encontra é a Hala, onde é treinada, preparando-se fisicamente e psicologicamente para a guerra marciana que acomete o espaço. As pessoas com quem convive são os Kress, a quem acredita fazer parte. Algo sempre dito a ela em seus treinos, pelo Yon-Rogg, é que seu descontrole emocional e raiva só serviam para seus inimigos. Mas algo que também lhe fazia mal, era não se deixar livre para sentir, isso fazia com que fosse facilmente controlada, o que impactava sua subjetividade. Danvers não se recordava de parte de sua vida, abrindo dessa forma, brechas para ser moldada pelos desejos alheios.

Apesar de sua mente ser controlada/vigiada por um chip da sua equipe que impedia a expansão de seu poder, a feição da “inteligência suprema” que lhe aparecia como um sonho ou devaneio, foi criada como estratégia de controle (com quem conversava mentalmente); os traços da mulher que surgia como expressão superior, a remetiam uma grande admiração, e o fato de não conseguir lembrar-se do motivo pelo qual se sente assim a deixava em estado de confusão.

Um dos importantes diálogos do filme deu-se logo no início, com Yon-Rogg, que afirmou que as vezes é melhor não se lembrar de fatos, pois poderia causar sofrimento, respondendo à pergunta de Danvers que não compreendia o simbolismo de seu inconsciente. Yon exprime a ideia do subconsciente, onde se encontra boa parte das experiências que por vezes foram reprimidas pela dor que causam.

Fonte: encurtador.com.br/eDLP1

Entretanto, esses símbolos emotivos de seu passado e a feição afável da mulher, dita como “inteligência”, chegam como um mensageiro da sua Psique, que tenta trazer à tona informações que devem se tornar conscientes, orientando-a ao que precisa ser resolvido. Porem, a não compreensão causou a Danvers angústia, assim como deslocamento, desta forma, esta fase tem grande importância, para que em dado momento ela experimentasse seu auge. A grande sacada do enredo é que por meio da repressão do “chip” (localizado em sua nuca) eles conseguiam acesso à sua mente, controlando-a, tudo isso para obter vantagens a fim de encontrar um dos tesouros que habitavam em suas memórias ainda adormecidas.

A “inteligência suprema” age como o Self, que dentro da perspectiva de Carl Gustav Jung é o princípio organizador, que tenta manter o equilíbrio de todos os arquétipos psíquicos. Observa-se que a inteligência sempre aparece sobre a água, uma analogia a um condutor universal, a representação do Self está ali também para conduzi-la. A água, a bem da verdade, também é uma representação das emoções na Psicologia Analítica. 

O Yon-rogg pode ser comparado ao Ego, que tenta suprimir memórias de sofrimento, buscando estar sobre o controle de todas as rédeas. A única diferença no filme é que ele não faz essa função em busca de proteção, como o Ego, mas sim procurando os interesses próprios. O controle da representação do ego sobre sua mente, demonstra o desequilíbrio dos arquétipos, enquanto os símbolos de sua real memória, vinda do subconsciente, tentam equilibrar a situação.

As recordações de suas memórias não eram vantajosas para os Kress, apenas o acesso restrito a elas seria positivo, para que obtivessem informações valiosas. Sua mente guardava algo de muito valor a todos os envolvidos na guerra.

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Os “inimigos” dos Kress eram os Skrulls, que invadiam planetas. Os detestados durante todo o filme na verdade eram os que mais precisavam de ajuda, e os grandes prejudicados. Antes dos Starforce (esquadrão de elite dos Kress) entrarem para o combate contra a invasão dos Skrulls, perguntaram como era vê-los/combatê-los face a face, responderam que era uma sensação terrível, era o mesmo que ver-se diante de si, sendo sua própria imagem seu inimigo. Isso acontecia, pois, essa linha alienígena tinha o poder de transformar-se em qualquer imagem, inclusive na aparência de seus combatentes.

Numa analogia psicológica, essa situação se refere a Sombra, que segundo Jung é a parte obscura da nossa mente, a parte mais feroz da personalidade, a qual não aceita regras ou juízo de valor. Quando muito reprimida esse arquétipo pode voltar-se contra a própria pessoa, ou seja, sendo o inimigo da sua própria imagem e/ou indivíduo.

Durante a batalha os Skruss acabaram conseguindo levar Danvers para sua nave, e nela utilizaram de uma máquina que dava acesso a sua mente. Estavam à procura das informações da médica Wendy Lawson; entretanto, ainda não se sabia o motivo disso. Conseguiram todas as memórias a nível consciente, porém, com o seu poder conseguiu se desprender da emboscada, e em meio a fuga acabou quebrando parte da nave, e todos tiveram de fugir por conta da pressão do espaço. Danvers escapou pegando uma nave defeituosa, e acabou caindo no planeta C-53 (referente ao planeta terra), que na verdade é sua terra natal, pelo qual foi raptada por Yon há 6 anos atrás, e por causa desse incidente estava mais próxima de se redescobrir.

Durante o tempo, Danvers claramente chamava atenção da polícia, pois além de não se vestir como uma mundana, ela caiu sobre a terra. Quem se aproximou dela foi Nick Fury, um policial a quem se torna amiga e aliada, que a ajudou na descoberta de sua própria identidade. Depois de algum tempo de investigação, eles descobrem que ela foi uma piloto da força aérea americana, que havia morrido em 1989 enquanto testava o motor da nave da Dr. Wendy Lawson, que também morre no incidente. A partir disso, e da correlação de datas, descobre-se que na verdade ela é humana.

Fonte: encurtador.com.br/kqsG5

Danvers e Nick cruzam os EUA para encontrar com a ex-piloto Maria Rambeau, a quem foi grande amiga e confidente, e assim descobre seu real nome que na verdade é Carol Danvers, anteriormente ela só era chamada de ‘Vears’ pelos Kress, pois é o nome que sobrou de seu colar depois que sofreu o acidente aéreo.

Em seguimento, os Skrulls invadem a casa de Maria, mas dessa vez, pedem que ela os ouça. Aceitando o pedido, eles relatam que durante todo esse tempo, só queriam encontrar um lar, pois seu mundo foi destruído, e eles encontravam-se desesperados em busca de ajuda. Além disso, revelam também que na verdade a Dr. Wendy não era humana (seu verdadeiro nome é Mar-Vell); ela era uma alienígena que estava buscando ajudar os Skrulls, por conta disso a Dra. montou um Tesseract (cubo cósmico) que permitiria que naves viajassem na velocidade da luz, acabando dessa forma com a guerra entre Kress e Skrulls, pois eles finalmente conseguiriam encontrar um local para viver.

Danvers descobre como adquiriu seus poderes; depois que Yon-Rogg atira em Mar-Vell, ela não consegue destruir sua criação (o Tesseract), e Danvers o destrói, e acaba absorvendo a energia dele, adquirindo assim os poderes da máquina, e pelo impacto, ela perde sua memória. Ao descobrir seu passado, finalmente entende o que eram os símbolos de sua mente. Por conseguinte, destruiu o “chip” que suprimia seus poderes, e finalmente restaurou o equilíbrio tanto de sua mente quanto do universo.

Assim como nos momentos de crise, e nas supressões psíquicas, a Sombra se volta contra nós mesmos, o Ego admite que não pode ter controle sobre a situação (da mesma maneira que Yon-Rogg quando percebeu a força incombatível de Danvers), e finalmente o Self (referente a Mar-Vell), através dos símbolos inconscientes, consegue restaurar o equilíbrio dos arquétipos. Tudo se restabelece quando ela compreende seu passado, e entende seu Self.

Fonte: encurtador.com.br/nvBLZ

Algo importante a ser lembrado é que no universo MCU (Marvel Cinematic Universe), Capitã Marvel é o vigésimo filme, sendo o primeiro a ter uma protagonista mulher. Durante todas as cenas, diferente da maioria das figuras heroínas, Marvel não aparece com roupas super decotadas ou marcadas, seu corpo ou suas relações amorosas não são “A trama” ou temática principal; na verdade, suas descobertas como indivíduo e o alcance de suas habilidades são surpreendentes, o ponto-chave que permeia o filme.

Seus trejeitos e a forma como se posiciona, demonstram um grande empoderamento, possibilitando a abertura de um novo contexto cinematográfico no mundo das heroínas, que não precisam estar acompanhadas de um homem para serem incríveis, ela por si só é uma grande protagonista, considerada uma das mais poderosas, dentro todos, no universo Marvel. Isso provoca grande representatividade para as meninas e mulheres que assistiram ao filme, que puderam ver uma longa que condiz com a força feminina, não mais precisando se vestirem de um herói masculino para se sentirem fortes e poderosas. Capitã Marvel nos deu essas possibilidades.

FICHA TÉCNICA DO FILME:

CAPITÃ MARVEL

Título original:  Captain Marvel
Direção:   Anna Boden, Ryan Fleck
Elenco:  Brie Larson,Samuel L. Jackson,Jude Law
País:  EUA
Ano: 2019
Gênero: Ação, Fantasia, Ficção científica

Maria Eduarda Oliveira
Acadêmica de Psicologia na instituição de ensino CEULP/ULBRA, voluntária no programa de extensão (EN)cena - Saúde Mental em Movimento. Compõe equipe de produção textual.