A resiliência feminina na luta pelo voto: análise do filme As Sufragistas

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O filme As Sufragistas (2015) se passa na Inglaterra, narrando fatos históricos do sufrágio feminino, movimento que se caracteriza pela luta do direito ao voto feminino. A história é constituída por várias mulheres, como Emmeline Pankhurst, Edith New, Emily Davison, Maud Watts, Violet Miller, entre outras. O cenário é construído com base no machismo que as mulheres sofrem diante da exclusão na escolha de seus representantes, pois, naquela época, o direito do sufrágio era somente o masculino. A obra mostra os percursos que acontecem para poder atingir uma possível vitória feminina, porém, não por meio de palavras, mas de ações, para somente assim chegar a uma resolução em que elas pudessem ser vistas. Ademais, mostra o desenvolvimento das personagens diante dos acontecimentos pessoais e públicos.

Em uma cena, são vistas mulheres se reunindo, jogando pedras no vidro de uma loja e ecoando gritos pelo direito ao voto feminino. Essa conduta foi baseada no lema criado por Emmeline Pankhurst, conhecido como “Ações, não palavras”, configurando-se como uma ação desesperada por nunca serem vistas de verdade depois de tanto apelo de maneira pacífica. Foram precisos métodos mais radicais para fazer barulho naquela sociedade, mas, apesar dessa mudança, elas também se organizavam em reuniões pacíficas. Porém, o governo queria mantê-las sob controle; com isso, são vistos vários momentos de violência institucional, em que policiais usavam cassetetes para bater nessas sufragistas e depois as prendiam, pois o Estado considerava esses encontros ilegais.

No filme, foram representadas questões relacionadas à vergonha em ser conectada com a militância das sufragistas. As mulheres ligadas a esse grupo recebiam xingamentos dos vizinhos quando passavam na rua. Foi mostrado que fazer parte de uma luta social naquela época era motivo de vergonha e desprezo. Além disso, existiam mulheres que eram contra a organização e não apoiavam essas lutas. Podemos nos conectar com a atualidade, na qual, como apontam Gomes Neto et al. (2024), as mulheres costumam esconder seus posicionamentos políticos por medo de retaliação.

Em meio a esses processos de luta, mulheres foram convidadas a testemunhar no tribunal; porém, a mulher que foi selecionada e que fazia parte das lavadeiras, Violet Miller, não poderia dar seu depoimento devido ao seu estado físico. Com isso, foi colocada nessa posição Maud Watts, que responde às perguntas e relata a sua história de vida e a das lavadeiras. Desse modo, Maud foi questionada sobre o que significaria o voto para ela e respondeu que nunca achou que iria votar; assim, nunca pensou no significado. Depois, é indagado sobre o porquê de ela estar ali, e Maud argumenta que, só de pensar em votar, já é uma forma de viver a vida. É interessante observar a mudança da personagem, pois Maud não se enxergava como sufragista, e é com as perguntas que ela encontra significado e reflete sobre o que o voto seria para ela. Com o tempo, ela encontra as palavras a partir do momento em que começa a pensar na possibilidade de exercer um direito que não era possível para as mulheres daquele período.

Diante disso, a personagem Maud não recebe apoio de seu esposo para continuar no movimento. Quando ela pergunta para ele se eles tivessem uma filha, qual seria o nome e como ela seria, ele responde que a filha deveria ser idêntica a ela: obediente e lavadeira. É observado na face de Maud o desconforto ao escutar o que o marido tinha a dizer sobre a futura filha. Em consequência da visão do marido, ela decide ir para a reunião do pronunciamento de Emmeline Pankhurst. Antes, ela sentia insegurança em continuar vinculada àquele grupo de mulheres, pois não se identificava com o nome dado às integrantes daquela causa. Essa mudança de comportamento ocorreu devido à fala do seu esposo; algo mudou nela e a fez mudar de atitude.

Neste cenário de mulheres indo assistir ao discurso de Emmeline Pankhurst, a líder estava como foragida da polícia, e o local do pronunciamento era segredo entre as sufragistas. Porém, os policiais vigiaram as militantes até chegarem ao local do evento. Com a presença policial, as mulheres tiveram que fugir, e outras ajudaram a esconder Emmeline Pankhurst para não ser capturada. Com isso, Maud é pega, e o policial declara que ela não deveria ir para a prisão, mas que o marido deveria dar um jeito nela. Quando ela aparece em casa, o companheiro a rejeita e a expulsa da residência em que moravam juntos, levando-a a procurar uma moradia, que passa a ser um quarto pago pela União Social e Política das Mulheres (WSPU). Observa-se o machismo do policial e a rejeição por parte do marido a partir do momento em que uma mulher decide lutar por mais direitos.

É curiosa a maneira como o governo, composto por homens, fica com medo de uma única mulher, a Sra. Pankhurst, e de suas aliadas, ao ponto de colocar matérias no jornal para que algum deslize acontecesse nessa organização. Isso leva a uma ocorrência em que a personagem Maud é presa devido à sua reação diante do seu empregador, que a assedia, fazendo com que ela se defenda. Posteriormente, o policial diz que vai ajudá-la caso ela colabore contando sobre cada detalhe dos encontros das mulheres. Nota-se manipulação nas palavras quando ele diz que ela não é nada, que já viveu com muitas mulheres iguais a ela que esperam melhorias. Observa-se o uso desse argumento para desencorajá-la a continuar com a luta de se tornar uma pessoa significante nesse mundo e conseguir direitos básicos.

O pontapé inicial, no caso, a trajetória envolvente da personagem Maud ocorre quando ela rejeita a proposta do policial e escreve uma carta dizendo que não pode fazer o que ele pediu, pois hoje se enxerga como uma sufragista. Ela afirma que passou anos sendo respeitável e obedecendo aos homens, e que não vale nem mais, nem menos que eles. Ela cita a Sra. Pankhurst, que disse: “se os homens podem lutar pela liberdade, então as mulheres podem lutar pelas suas.” Nessa cena, é observado que, depois de tantos ocorridos, ela viu sentido naquele momento e faria parte de uma luta que tem fundamento para ela. É fascinante analisar a construção da identidade de Maud, que, no início, não se enxergava fazendo parte de um movimento social, não se identificava com a causa e, posteriormente, se assumiu como sufragista, pois percebeu que precisava ser parte daquela luta.

Os embates dessas mulheres contam com o uso de protestos, como explosão de fios telegráficos e telefônicos e a destruição da propriedade do primeiro-ministro, visando a expansão de suas atividades por meio da mídia. Porém, é visto que a imprensa trabalha alinhada com o governo, assim eles as querem silenciadas visto que o movimento delas fazia cada vez mais barulho, e as autoridades temiam onde isso poderia levar. Outra forma de repressão do governo ocorria por meio das estadias temporárias na prisão. Contudo, elas usam a greve de fome em forma de protesto, mas são forçadas a se alimentar por meio de uma sonda nasogástrica de forma violenta. Mais uma vez, é apresentada a violência estatal diante de uma luta por direitos, pois essa atitude governamental deixava essas mulheres feridas física e psicologicamente.

O desfecho do filme, ainda mais chocante, é o do protesto quando Emily Davison invade a pista de corrida, ficando de frente para o cavalo do rei com o intuito de chamar a atenção para a ação das sufragistas, e acaba sendo atropelada. Com esse acontecimento trágico, temos o encerramento do filme que mostra o movimento ganhando maior visibilidade na mídia, gerando olhares para a luta dessas mulheres por dignidade e direitos iguais. De certo modo, esse ocorrido foi de suma importância para aquelas mulheres da Inglaterra conquistarem seus direitos; porém, como aponta Fiuza (2020), a conquista foi aprovada somente em 1918 para mulheres acima de 30 anos e com a permissão do marido. Contudo, foi somente em 1928 que finalmente se tornou possível que todas as mulheres votassem a partir dos 21 anos naquele país.

Diante das repercussões na internet com tom conservador e retrógrado, esse filme é importante para analisar e refletir sobre a luta dessas mulheres reais que deram seu sangue e suor para que outras mulheres pudessem ter a liberdade que hoje se torna uma possibilidade. É preciso não abaixar a cabeça e sempre ficar vigilante a respeito dos nossos direitos, não deixando que retornemos ao início do século XX.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FIUZA, Amanda Maria Aparecida Bomfim. As Sufragistas: Da Inglaterra para os Estados Unidos e Brasil. Orientadora: Profa. Ma. Madalena Dias. 2020. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Direito) – Faculdade Guanambi (FG), Guanambi, 2020. Disponível em: fg.edu.br. Acesso em: 20 jul. 2026.

GOMES NETO, M. B. et al.. As múltiplas barreiras de gênero enfrentadas por mulheres na política. Revista de Administração Pública, v. 58, n. 6, p. e2024–0124, 2024.

 

Ficha técnica

Título Original: Suffragette

Título Nacional: As Sufragistas 

Gênero: Drama Histórico / Biográfico

Ano de Lançamento: 2015

País de Origem:  Reino Unido e França

Duração: 106 minutos (1 hora e 46 minutos)

Idioma Original: Inglês

Classificação Indicativa: Não recomendado para menores de 14 anos

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