“The Witcher”: Magia e Arquétipo Matriarcal dão o tom na nova série da Netflix

Em “The Witcher”, os mais poderosos feiticeiros alertam: “Isto é magia. Não é real”. A possessão do Ego por uma fixação matriarcal leva a consciência a esses “delírios”, em que o real e o imaginário se distanciam.

Desde que o reinado de “Game of Thrones” chegou ao fim, no ano passado, os fãs do gênero de fantasia medieval ficaram órfãos de um drama para chamar de seu. A HBO – mesma produtora da saga de Jon Snow – e a Amazon entregaram algumas séries nesse filão, como “Carnival Row” e “His Dark Materials”, mas, o burburinho entre a crítica especializada parece apontar que “The Witcher”, da Netflix, está mais bem cotada como herdeira do trono. Arrebatadora, a história do bruxo Geralt de Rivia é um deleite em vários quesitos, passando pelo apuro estético da direção/fotografia e pela atuação dos principais nomes do elenco (parece feitiçaria o show de Anya Chalotra na pele da maga Yennefer de Vengerberg!).

Assistindo à primeira temporada de “The Witcher”, dá vontade de escrever um artigo com a análise psicológica de pelo menos um aspecto de cada um dos oito episódios. São várias as perspectivas simbólicas escondidas nos diálogos e acontecimentos, de modo que, neste artigo, é abordada apenas uma de infinitas possibilidades. O foco deste artigo é a relação simbólica entre o Arquétipo Matriarcal, da sensualidade, e a magia, um dos elementos cruciais na narrativa da obra em questão. Uma da pistas dessa relação surge já no primeiro episódio, quando Geralt procura Stregobor, e é recebido pelo feiticeiro com o ilusionismo de mulheres nuas, numa imagem que parece remeter ao Jardim do Éden, do mito bíblico.

Imagens: Netflix

Antes da interpretação simbólica, à luz da Psicologia Analítica, de Jung, e da Psicologia Simbólica Junguiana, do psiquiatra brasileiro, Carlos Byington, é importante uma breve introdução teórica. Em sua obra, o Professor Byington não só revisitou e ampliou muitos dos conceitos estudados por Jung como também de estudiosos que o sucederam. Para o médico, a consciência individual/coletiva se desenvolve a partir de quatro principais arquétipos regentes: o Matriarcal, o Patriarcal, o da Alteridade (que engloba o animus e a anima) e, finalmente, o da Totalidade. “Os arquétipos são ativados durante a vida e, a partir daí, coordenam o campo psicológico”, afirma Carlos, em um de seus artigos.

Neste texto, o uso principal será da relação simbólica entre o Arquétipo Matriarcal e a magia, vista em “The Witcher”. Assim, uma última conceituação teórica de Byington se faz necessária, a respeito do Matriarcal: “Dentre os seguidores de Jung, Erich Neumann foi quem mais estudou o Arquétipo Matriarcal sob a designação de Arquétipo da Grande Mãe, abrangendo as manifestações do feminino, na Mitologia e na Psicologia. Continuando seus estudos, modifiquei o conceito de Arquétipo da Grande Mãe de Jung e de Neumann para o Arquétipo Matriarcal, como o arquétipo da sensualidade, caracterizado pela posição insular da polaridade Ego-Outro na Consciência e abrangendo tanto as manifestações femininas quanto masculinas expressivas da sensualidade na Mitologia e na Psicologia. Nessa perspectiva, os deuses Ouranos, Cronos, os demais Titãs, os gigantes, os monstros, bem como os estupros de Pan são expressões do Arquétipo Matriarcal, tanto quanto as deusas femininas da fertilidade”.

Todos esses elementos estão presentes na magia em “The Witcher”, do que se pode afirmar que, simbolicamente, trata-se de uma expressão do Arquétipo Matriarcal, retratada, na série, em ambas as polaridades: da luz (criativa) e da sombra (defensiva). Como já citada, a nudez matriarcal do hall de entrada do feiticeiro Stregobor pode confundir o indivíduo menos consciente, tornando-se uma armadilha simbólica para o Ego que não seja capaz de elaborar, na consciência, tamanha exuberância e beleza. No caso de Geralt, um bruxo de extrema dominância patriarcal, logo Stregobor observa que, com o Lobo Branco, a ilusão de sua magia não funciona. Isso equivaleria a dizer, psicologicamente, que a magia matriarcal (do sexo, da nudez ou de qualquer outra função estruturante) tem mais probabilidade de acometer, na sombra, pessoas suscetíveis à sua sedução.

Imagens: Netflix

Em “The Witcher”, os mais poderosos feiticeiros alertam: “Isto é magia. Não é real”. A possessão do Ego por uma fixação matriarcal leva a consciência a esses “delírios”, em que o real e o imaginário se distanciam. O Ego fusionado com o Outro, por exemplo, em uma grande paixão – parece magia a maneira como ela não consegue viver sem ele, ou como ele promete vingança pelo amor perdido, sem medir palavras: “Se ela não for minha, não será de mais ninguém”. E, então, o crime, a morte, a violência, o desfecho sombrio. São fixações do matriarcal, na sombra, que levam o símbolo da magia como uma realidade bastante palpável, vista com frequência em diversos tipos de quadros patológicos nos consultórios de psicoterapia.

A relação simbólica entre a magia e o matriarcal se expressa também na sensualidade do corpo, utilizado em inúmeras ocasiões, na série, como fio condutor de rituais. O corpo é, nessa perspectiva, um instrumento a serviço da magia (evidenciado, em especial, nas cenas da personagem Yennefer).

Imagens: Netflix

Como tudo na psique, a magia é uma função estruturante da consciência, que pode se expressar tanto criativa quanto defensivamente. Na polaridade da luz, a magia está na imaginação ativa, de Jung; no sandplay, de Dora Kalff; e no psicodrama, de Morenno, entre outras técnicas expressivas. Está no matriarcal que ajuda o indivíduo a acreditar que a depressão de hoje, noite escura, amanhã se transformará num dia ensolarado. Faz brotar o sentimento de ternura em muitas mulheres que, ao descobrirem-se grávidas, já percebem que algo mágico está acontecendo. Mas, numa fixação matriarcal na sombra, a magia de “The Witcher” também evidencia que pode ser uma questão de vida ou morte a percepção do que é, de fato, real na vida de um indivíduo.

Ficha Técnica: The Witcher (Season 1) (Original)

Ano produção – 2019

Dirigido por Alex Garcia Lopez Alik Sakharov Charlotte Brandstrom Marc Jobst

Estreia – 20 de Dezembro de 2019 ( Brasil )

Duração – 477 minutos

Classificação: 16 – Não recomendado para menores de 16 anos

Gênero – Ação Aventura Fantasia

País de Origem – EUA