Gravidez na Adolescência – (En)Cena entrevista Ana Laura

A Casa de Marta, fundada em 2002, é uma Instituição Filantrópica, de iniciativa da Igreja Católica, pertencente à Arquidiocese de Palmas. Ainda, é um Centro de Apoio a gestantes menores de idade, de 12 a 17 anos, expostas à insegurança, fragilidade e em situação de risco.

Além disso, a Casa oferece oficinas (alguns trabalhos manuais e confecção do seu próprio enxoval); treinamento de cuidados com os bebês; atendimento psicológico; momento de reflexão e espiritualidade, além de visitas domiciliares. Vale ressaltar que a Casa não funciona sob regime de internato, porém suas atividades são realizadas três vezes por semana (segunda-feira, quarta-feira e sexta-feira das 8h30 às 16h30). No que tange à manutenção, a Casa conta com o voluntariado, além de doações externas (COMPROMISSO, 2014, p.1).

Ana Laura (nome fictício) ingressou na Casa de Marta aos 14 anos de idade, enquanto ainda estava grávida de 3 meses. Hoje (25 de abril de 2018), está 16 anos e sua filha está com 8 meses de idade.

Fonte: encurtador.com.br/BLPS1

 (En)Cena – Como você ficou sabendo da existência da Casa?

Ana Laura – Através de outras meninas que participavam também. Elas moravam ao lado da casa da minha mãe. Aí elas me chamaram para vir e eu vim. 

(En)Cena – Quais sentimentos e pensamentos estiveram envolvidos durante sua gravidez?

Ana Laura – Tantos. Medo e alegria. Eu sempre quis ter um bebê. Quando eu conheci o pai da neném eu tinha 13, 14 anos e a gente se envolveu muito cedo e ele tem outra filha. Por causa disso, eu via o jeito dele com ela que era totalmente diferente do jeito que ele agia ao comigo. Eu meio que queria ter isso pra mim. O medo, porque quando eu descobri a gravidez eu estava separada dele. Ele quis voltar comigo, só que eu não queria muito, aí eu tinha medo de voltar, de como ia ser, se a neném ia sofrer, se eu não ia ter condição pra cuidar dela, se sentiria a falta do pai. Só que depois a gente voltou e as coisas foram se ajeitando… Meu medo era mais por causa das coisas que tinha que ter e as vezes a gente não tinha condições para comprar.

(En)Cena – Você percebeu alguma mudança no seu corpo?

Ana Laura – Eu emagreci muito enquanto estava grávida. Não ganhei peso. E quando eu tive ela, não vi mudança, só nos seios. Mas durante a gravidez eu não senti diferença.

(En)Cena – Qual a ideia que você tem sobre ser mãe?

Ana Laura – Não há felicidade maior do que ser mãe. Ser mãe é ótimo. Às vezes, passa por dificuldade porque criança dá trabalho, só que na hora que a gente vê o sorriso compensam muitas coisas. Muitas coisas mesmo. Na hora que a gente vê o sorriso da criança, a gente pode estar meio estressado, mas a criança dá um sorriso pra gente e tudo muda. É ótimo ser mãe! Acho que não voltaria atrás, se fosse pra escolher outra coisa. Se não fosse por causa disso, eu já tinha feito muita coisa. Eu era muito de sair e acho que se eu não fosse mãe eu não pararia quieta. Hoje eu agradeço por ter engravidado. Foi ruim porque eu estava nova e gostaria de ser mais velha para estar trabalhando e conseguir minhas coisas porque eu não gosto muito de depender dos outros, mas é ótimo. Para mim foi ótimo. Eu amo ser mãe.

(En)Cena – Que tipo de apoio você acha que mais precisa? Algum tipo de suporte?

Ana Laura – Apoio acho que não preciso muito. Porque como ele trabalha (pai da criança), a gente não precisa ficar pedindo nada para os outros. Ele corre muito atrás das coisas, nunca deixou faltar nada em casa. As vezes as roupas da neném vão se perdendo, porque ela está crescendo muito rápido e a minha mãe, às vezes, ajuda também.

(En)Cena – Você se sente apoiada pela sua família?

Ana Laura – Muito. Ela (bebê) é o xodó da minha família. Todo mundo me ajuda. A família dele não é muito assim, não. Eu moro do lado da casa da mãe dele, mas a bebê não gosta muito dela porque quando eu estava descobri a minha gravidez ela falava um monte de coisa pra mim e eu acho que criança sente. E também porque a família dele, uma hora está de boa e outra hora, não. A minha sogra não fala com o irmão do meu marido há mais de três anos por uma briga boba. Meu marido também já ficou sem falar com ela. Por parte deles eu não tenho muito apoio, não. Nós estamos morando lá porque a gente ia separar e ele foi morar junto com ela. Mas a gente mora em casas diferentes, ao lado dela. A gente está querendo mudar de lá. Ela já discutiu comigo, falou um monte de coisa pra mim. Então, eu não me sinto apoiada por eles porque eles não me ajudam. Na verdade, eles nunca ajudaram nem para comprar um pacote de fraldas. A minha mãe já ajuda bastante, já comprou leite quando eu precisei, fraldas, essas coisas. Quando eu estou precisando, ela me ajuda. Mesmo sem eu pedir, ela compra roupa pra ela, tudo.

(En)Cena – Que tipo de profissional você acha que poderia auxiliar você?

Ana Laura – Acho que psicólogo. Eu pego tudo pra mim. Eu fico guardando tudo pra mim e eu preciso, às vezes, desabafar. Às vezes as pessoas acham que eu estou exagerando, mas não, só quem passa por isso sabe. Às vezes eu preciso desabafar e acho que um psicólogo ajudaria mais na minha questão.

(En)Cena – Como foi para você passar esse período aqui na Casa?

Ana Laura – Foi bom, eles me ajuda bastante. Porque, às vezes, tem cesta básica… Mesmo que a gente não esteja precisando, mas na minha família quando tem gente precisando eu posso pegar e dar pra eles. As coisas que eu fiz pra neném aqui, eu uso bastante (fraldas). Eu usei, não dei nenhuma. Tudo me ajudou. Foi ótimo passar por aqui e eu gosto de vir pra cá. É bom, eu gosto.

(En)Cena – Você já percebeu alguma mudança na sua vida desde que começou a participar da Casa?

Ana Laura – Eu percebi. A gente muda bastante. A gente vai aprendendo coisas novas, a gente não fica quieta. Eles me ensinaram a viver mais, saber lidar comigo mesma, a fazer as coisas só, porque aqui a gente trabalha ali, tem uma curiosidade de fazer curso disso e começar a trabalhar. Eu tenho vontade de trabalhar com costura e depois que eu comecei a trabalhar aqui, me deu vontade de trabalhar. O pai da neném já trabalhou com costura, aí só ele que costura lá em casa. Depois que eu comecei aqui, dá vontade. Tem cursos… Eu só não venho para os cursos que têm aqui porque eu cuido do meu irmão e não tem como eu ficar vindo aqui e também tenho que levar ele à escola. Mas mudou bastante a minha vida.

(En)Cena – Quais são seus planos para o futuro?

Ana Laura – Estudar, trabalhar e dar uma vida boa para a minha filha. E, caso eu estiver trabalhando e tiver uma boa vida, quero dar um irmão para ela, mas só se isso acontecer porque as coisas são muito difíceis. Depois que eu ganhei ela, eu percebi o quanto a gente tem que dar valor a nossa mãe. Porque antes eu brigava muito com a minha mãe. Eu morava com a minha mãe e brigava muito com ela. E depois que eu virei mãe, eu percebi que a mãe é muito importante, que a mãe deu à luz e passou por tudo aquilo…

Referências:

COMPROMISSO com a vida. Palmas, TO: Casa de Marta, 2014.

Nota: A entrevista foi realizada com autorização dos dirigentes da Casa de Marta no período do desenvolvimento do Estágio Específico em Saúde Mental, do curso de Psicologia do Centro Universitário Luterano de Palmas – Ceulp/Ulbra, com a supervisão da Profa. Dra Irenides Teixeira.