Movimento Antipornografia alerta para o combate à indústria obscura da exploração sexual

O portal (En)Cena entrevista Gabrielle Gonçalves, que é acadêmica de letras da Universidade de São Paulo (USP) e se sensibiliza com a ação que a página Recuse a Clicar promove. O movimento Antipornografia tem como principal pauta o não acesso a sites pornográficos, que possuem uma indústria obscura que objetificam a mulher em vários aspectos, banalizam a violência e suscitam outros crimes como a pornografia infantil, alusão a estupro e outros. Confira a entrevista a seguir:

(En)Cena – Me conta um pouco sobre o seu conhecimento desse movimento anti pornografia? Como ele funciona?

Gabrielle Gonçalves – Eu tive contato muito cedo com a pornografia. Ela foi parte da minha vida por vários anos e, durante muito tempo, normalizei bastante os vídeos que  assistia. Por vezes eu esbarrava em algum explicitamente violento e/ou problemático, mas só pulava ele e achava que estava tudo bem. Só que, conforme eu fui saindo da adolescência, fui tendo mais e mais contato com o movimento feminista. Numa dessas, conheci o movimento do Recuse a Clicar, e eles tinha várias matérias que basicamente diziam que aqueles vídeos que eu ignorava eram regra, não exceção. A partir deles, busquei mais informação e descobri diversos outros grupos anti-pornografia.

Fonte: encurtador.com.br/ewTU1

(En)Cena – Qual a relação do feminismo com esse movimento?

Gabrielle Gonçalves – A pornografia é especialmente violenta com as mulheres (cis ou trans) que nela atuam. Não é raro encontrar vídeos que mostram cenas de mulheres sendo sufocadas ou com expressões de dor. Inclusive, em uma entrevista feita pela Medium com uma ex-atriz pornô, ela afirma que “Quanto mais real era a minha dor,(…) mais visualizações os vídeos tinham”. (link para a entrevista)

Para além disso, existe a problemática do consentimento dentro da pornografia. Há quem diga que o pornô é aceitável pois todos os atores consentiram em estar ali. Porém, há um grande debate sobre se é possível comprar consentimento. Especialmente de mulheres em situação financeiramente vulnerável.

O movimento feminista busca ouvir essas mulheres que estão diretamente envolvidas com pornografia e acolhê-las, além de tentar garantir que nenhuma outra mulher tenha que passar por essa violência desnecessária.

Fonte: encurtador.com.br/cI134

(En)Cena – Quais são os principais males que assistir pornografia pode trazer para a saúde da pessoa, considerando que saúde envolve uma gama de fatores?

Gabrielle Gonçalves – Um dos problemas mais básicos, e que sempre surgem quando se fala dos malefícios à saúde causados pelo pornô é a disfunção erétil. Mas, pessoalmente, considero que os problemas mais sérios desencadeados pela exposição à pornografia são psicológicos. Veja, o consumo de pornografia desencadeia uma produção de dopamina. À medida que esse consumo vai aumentando, o corpo vai se acostumando com ele e a produção de dopamina diminui. Assim, para obter os mesmos resultados de antes, os usuários partem para outros vídeos, mais estimulantes e, eventualmente, mais violentos. Além disso, esse mesmo processo pode levar à depressão, visto que os picos de dopamina do usuário estão “desequilibrados”, por assim dizer. As coisas que antes causavam prazer, mesmo coisas inocentes, como ir ao cinema, de repente não têm o mesmo efeito.

Atrelado a isso, temos também a dessensibilização à violência. Como o usuário vai tendo contato com vídeos cada vez mais pesados, o que antes parecia inaceitável para ele, aos poucos vai se tornando rotina. Nas palavras de Carolina Dias, em seu artigo, a pornografia “cria uma realidade prejudicial, estabelecendo uma conexão entre a excitação e o estupro, humilhação, tortura, etc. causados às mulheres.”. (link do artigo)

(En)Cena – Você considera que a pornografia te afeta negativamente como mulher? De que modo?

Gabrielle Gonçalves – Sim. A pornografia afeta bastante o modo como eu me vejo. As mulheres retratadas normalmente passam por diversas cirurgias e procedimentos estéticos, ao ponto de, na maioria das vezes, não terem um pelo sequer no corpo. Isso acaba se tornando um padrão que, inconscientemente, eu e muitas outras mulheres buscamos seguir. Quando eu percebo que não consigo, sinto uma insatisfação muito forte. E esse sentimento tem origem já no início da minha adolescência, quando me percebi mulher. E isso não acontece só comigo. O simples fato de uma cirurgia estética como a Ninfoplastia, cujo objetivo é diminuir os pequenos lábios, existir e ser altamente procurada (de acordo com a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética, o Brasil é líder em intervenções íntimas femininas no mundo!) já demonstra como esse é um problema enfrentado por muitas mulheres.