Carrie e Mr. Big: repetição do que não foi elaborado

Compartilhe este conteúdo:

Sex and the city, série de televisão criada por Darren Star, inspirada no livro de Candace Bushnell, foi lançada em 1998 e aborda com humor e franqueza as experiências de quatro amigas que vivem na cidade de Nova York. A narrativa acompanha Carrie Bradshaw, Charlotte York, Miranda Hobbes e Samantha Jones em suas trajetórias afetivas, profissionais e pessoais, trazendo temas como amizade, sexualidade, pressão da sociedade sobre as mulheres e entre outros. Dentre vários temas possíveis de serem abordados e analisados na série, a relação entre Carrie e Mr. Big, que se estende por várias temporadas, certamente é uma delas.

A relação dos dois é marcada por idas e vindas com um constante movimento de instabilidade e repetição, Mr. Big aparece logo no início da série, Carrie o conhece por acaso e iniciam uma relação marcada por desejo e intensidade, mas sempre com conflitos. Mr. Big evita assumir compromissos e se mostra emocionalmente indisponível, Carrie sente-se insegura e rompe, quando tenta seguir em frente, ele retorna, reinstaurando o ciclo. Esse padrão se repete ao longo de toda a série, resultando em reconciliações, reinícios e separações, sendo que apenas no fechamento da série eles estabelecem um relacionamento definitivo.

A psicanálise traz algo que compreende a relação de Carrie e Mr. Big. A repetição pode ser entendida como a forma que o inconsciente encontra de elaborar uma situação que não foi representada ou simbolizada de modo consciente. Freud (1914), em “Recordar, repetir e elaborar”, descreve a compulsão à repetição, em que o sujeito não se recorda exatamente da vivência desprazerosa que viveu, mas reproduz em suas ações, ou seja, não se lembra, atua. Carrie expressa diversas vezes não entender o motivo de sempre voltar com Mr. Big, não é possível se lembrar do que viveu, a forma que o inconsciente se manifesta é através das constantes recaídas e voltas da relação. Já em “Além do princípio do prazer” (1920), o autor amplia o conceito ao dizer que o inconsciente age não só de maneira prazerosa, mas para além disso. O que acontece é que o sujeito não se lembra do que foi reprimido, a repetição é colocada como ação no presente ao invés de ser lembrada como passado. Para a psicanálise, conteúdos infantis estão presentes, essas vivências não foram prazerosas no momento atual, muito menos foram na infância, o ponto é que o ato de repetir traz satisfação para o inconsciente, ainda que seja desprazeroso para o Eu.

A relação entre Carrie e Big ilustra no campo da ficção a dinâmica descrita por Freud. O retorno constante a uma relação que produz tanto prazer quanto sofrimento diz sobre um funcionamento que ultrapassa a simples busca por satisfação amorosa. Carrie não apenas deseja Big, mas repete o movimento de se envolver em um vínculo que a faz reviver inseguranças e frustrações. Sua relação com Mr. Big pode ser compreendida como expressão da compulsão à repetição, em um circuito que mantém a protagonista presa a experiências que mesclam prazer e desprazer.

Esse retorno constante a uma relação que produz prazer e frustração demonstra que os vínculos não se sustentam apenas pela busca de satisfação, mas também por movimentos inconscientes que levam à retomada de experiências dolorosas. A relação ilustrada na série exemplifica a formulação freudiana segundo a qual o sujeito, na sua vida psíquica, não é orientado apenas pela busca do prazer, mas também pela insistência em reviver situações que produzem sofrimento, revelando a complexidade e a ambivalência das relações afetivas.

REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. In: FREUD, Sigmund. História de uma neurose infantil e outros textos (1917-1920). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 195-274. (Obras completas, v. 14).

FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar. In: FREUD, Sigmund. O caso Schreber, artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 193-209. (Obras completas, v. 10).

Compartilhe este conteúdo: