George Politzer: crítica aos fundamentos da psicologia e psicanálise

Iniciando este estudo, há de ficar esclarecido que o nosso intuito aqui é de tornar conhecido no meio acadêmico, a visão crítica sobre a psicologia e psicanálise, que o filósofo George Politzer desenvolveu em 1927, através de uma revisão bibliográfica dos principais conceitos teóricos das abordagens mais importantes de seu tempo e psicologia clássica.

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O contexto que proponho é do viés crítico histórico, sugerindo aos leitores que permitam um recorte transversal sobre disciplinas como: História e Sistemas da Psicologia, Processos Básicos em Psicologia, Psicologia da Personalidade e outras disciplinas que apresentam em seus currículos à evolução da psicologia e psicanálise.

Politzer teve o propósito de estudar minuciosamente a psicologia clássica objetiva e subjetiva; a Guestalttheorie; Behaviorismo de Watson e Psicanálise, estabelecendo um cenário, segundo seu entendimento, dos acontecimentos positivos e negativos que caracterizaram o caminhar da psicologia nos últimos 50 anos de seu tempo (1927), afirmando que esses enfoques trilharam muito mais para uma tentativa de se libertarem dos mitos da psicologia clássica do que para o esforço de suas próprias organizações enquanto ciência. (POLITZER, 1975)

Para compreender a condição de subjetividade e objetividade no contexto científico, Politzer (1975) primeiro contextualiza o método introspectivo consiste na observação do sujeito pelo próprio sujeito, sendo que a introspecção atinge o que o sujeito conhece diretamente, os estados de consciência de si e das coisas; sendo essas impressões comunicadas através da linguagem, que tem como função para a introspecção, relatar os estados subjetivos do indivíduo. Segundo o autor, a psicologia introspectiva preocupava-se em saber como o processo mental se desenvolve, ou em classificar os estados individuais, não contemplando a busca de sentido da experiência vivida pelo sujeito.

Continuando o raciocínio, opostamente, a psicologia experimental pelo seu caráter objetivo, se opõe ao método do parágrafo anterior, pelo fato do observador ser distinto do observado. As ciências da natureza (física e matemática) fundamentam o método experimental, portanto o observador deve verificar os fatos físicos por um lado, a situação física em que está exposto o sujeito; por outro lado, seu comportamento nessa situação ambiente. Os fatos físicos, ao contrário dos estados de consciência individuais, podem ser testemunhados por outras pessoas, cujas observações se controlam mutuamente. Procurando superar os limites da abordagem introspectiva tradicional, aqui, por meio de aparelhos o psicólogo se lança na fisiologia, na química ou biologia e, ao invés de se deixar cientificamente renovar, fica preso a velhas tradições científicas, não permitindo a psicologia se desenvolver, conforme Politzer (1975).

O que fica claro para nós é que com esse raciocínio, Politzer não leva em consideração na ciência que ele propõe, a “psicologia concreta” (grifo nosso), o contexto estatístico numérico para um fazer científico a partir das ciências exatas.

O autor distingue o fato objetivo do fato psicológico, contextualiza o seguinte exemplo: “a lâmpada iluminando um objeto X, isso é um fato ‘objetivo’, por ser narrado em ‘terceira pessoa’, por não ser ‘eu’, mas ‘ela’ (grifos do autor). Porém, em sendo eu que subentendo o ser, a lâmpada é um fato psicológico”, conforme Politzer (1975, p. 62).

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A “transformação” característica da psicologia seria precisamente a que consideraria todos os fatos de que está ciência pode ocupar-se na “primeira pessoa”, mas de tal maneira que a hipótese de uma primeira pessoa seja constantemente indispensável para qualquer ser e para qualquer significado desses fatos. Só a existência da primeira pessoa explica logicamente a necessidade de intercalar na série das ciências uma ciência “psicológica”; e se esta, tal como todas as outras, pode abandonar no decurso da sua evolução os motivos temporais que lhe deram origem, já não poderá certamente abandonar a relação dos fatos à primeira pessoa, relação essa que lhe confere a originalidade de que ela (ciência psicológica) necessita. (POLITZER, 1975, p.64)

Adentrando à visão do pensamento das escolas contemporâneas, há de ficar clarificado que Politzer se propôs revisar criticamente em quatro ensaios as teorias da psicologia, sendo: a gestalttheorie, o behaviorismo e psicanálise, além da psicologia concreta que pretendia desenvolver. Embora tenha discutido rapidamente sobre as vertentes elencadas acima, o único estudo efetivamente pormenorizado e concluído, foi o da psicanálise (POLITZER, 1975).

Doravante vou usar o verbo no passado, por compreender que todas as abordagens aqui discutidas se desenvolveram teórica, clínica e tecnicamente, inclusive com inúmeros desdobramentos conceituais, acompanhando cientificamente as novas demandas e exigências da sociedade contemporânea pós-moderna.

Em sua crítica o autor elenca esforços destas vertentes teóricas, evidenciando que ao mesmo tempo em que as abordagens contribuíram em certa medida com a dissolução dos mitos da psicologia clássica (revisados nos parágrafos anteriores), prenunciando o caminho para uma nova psicologia orientada para o concreto; por outro lado, acabaram incorrendo em erros que as afastaram da tentativa de reformulação da própria psicologia. Em sua visão, isso porque o comportamento humano é tratado como resultado de processos em terceira pessoa, fragmentando o homem e colocando-o como objeto distanciado, ou, como atos do homem em geral, não permitindo a ênfase como atos de um sujeito singular (POLITZER, 1975).

Enfatizou que a Gestalttheorie tem méritos ao negar o procedimento fundamental da psicologia clássica, que consiste em afirmar que a essência última do psicológico é atomística1, ou seja, desfazer a forma das ações humanas, para depois, reconstituir a totalidade, que é sentido e forma (grifo do autor), a partir de elementos amorfos (sem forma), segundo o autor. A Gestalt defende que o psíquico só pode ser entendido como totalidade e não enquanto elementos distintos que são posteriormente associados. No entanto Politzer em sua crítica explicita que a teoria da forma, se equivocou em afirmar que o psicológico é aprendido de forma imediata pela percepção, conforme Politzer (1975). A Gestalt theorie, no sentido lato do termo, entrega-se por um lado, a construções teóricas e, por outro, não consegue liberta-se das preocupações da psicologia clássica. (POLITZER, 1975, p. 34)

O behaviorismo de Watson contribui negando radicalmente a psicologia clássica, introspeccionista ou experimental, sendo que uma de suas negativas diz respeito ao caráter mitológico da psicologia clássica, onde afirma a existência de uma vida interior e outra exterior. Mas segundo o autor, apesar de contribuir com a dissolução de antigos mitos da psicologia com a noção de comportamento (behavior), Watson não consegue superar totalmente esses mitos, acabando por suprimir o enigma do homem; isso ocorreu quando reduziu em seus estudos, o comportamento humano a aspectos fisiológicos ou introduziu novamente de forma disfarçada a introspecção, daquilo mesmo que rejeita. O behaviorismo não conseguiu tratar o comportamento enquanto “drama humano”2 (grifo nosso), conforme Politzer (1975). O Beraviorismo é estéril, ou recai na fisiologia, na biologia ou até mesmo na introspecção mais ou menos disfarçada, em vez de esquecer tudo para só dar atenção às surpresas da experiência. (POLITZER, 1975, p. 34)

Analisando a Interpretação dos Sonhos de Freud, identificou o que considerava ser a verdadeira inspiração da psicanálise, contextualizou que é nesta obra que se pode perceber um caminhar para a psicologia concreta que tanto evidenciou, considerou ser uma nova definição do que vem a ser o fato psicológico, deslocando o interesse das entidades espirituais e/ou metafísicos da psicologia clássica para a vida dramática do ser humano.

Para o autor o problema da teoria psicanalítica, configurou-se em suas explicações teóricas do funcionamento do aparelho psíquico, ao relatar a distinção entre conteúdo manifesto e conteúdo latente. Freud introduziu a hipótese do inconsciente, explicado a partir dos processos internos do comportamento, processos em terceira pessoa, neste sentido, ele incorreu nos mesmos erros da psicologia clássica. Afirma que os psicanalistas não devem acreditar que a psicanálise e o inconsciente são inseparáveis, evidenciando, “esta atitude é incorreta porque a inspiração fundamental da psicanálise é precisamente a sua orientação para o concreto, enquanto o inconsciente é inseparável dos procedimentos constitutivos da psicologia abstrata” (POLITZER, 1973, p. 47-48).

A psicologia não deve aceitar substituir o drama pessoal por um drama impessoal, “devendo através do pessoal, explicar o pessoal”; segundo o autor, a assertiva da psicanálise está nesta orientação, para o sujeito singular, é o sentido que Freud procurou no sonho, não se contendo com o “estudo abstrato e formal dos seus elementos; tampouco procurou uma encenação abstrata e impessoal cujos figurantes sejam excitações fisiológicas e cuja intriga seja constituída pelo passeio através das células cerebrais” (POLITZER, 1975, p. 74-75).

Tem que ser observado que Freud substituiu a introspecção pela narrativa, contemplando o fato psicológico como correspondente da vida de um indivíduo singular, neste sentido para o autor o que interessa no ato psicológico não é “matéria e forma”, mas o “sentido subjetivo” do sujeito único; e esse, só pode ser identificado pela narrativa do próprio sujeito. Neste sentido “Freud não substituiu somente um posto de vista abstrato por um ponto de vista concreto”, vai além, conforme Politzer (1975, p. 107). Numa linguagem mais moderna, podemos dizer que ao empregar o método da narrativa, Freud substituiu o ponto de vista da “intuição” pelo ponto de vista do “comportamento”. (POLITZER, 1975, p. 108).

Fonte: https://goo.gl/NjFoQk

Concluindo o raciocínio do conteúdo exposto, percebemos que a psicologia introspectiva foi uma das abordagens fundadoras da psicologia clássica, investindo em saber como o processo mental se desenvolvia, classificando os estados individuais, não contemplando a busca de sentido da experiência vivida, segundo Politzer. A abordagem experimental da psicologia clássica, utilizando equipamentos, observava fatos físicos do sujeito e o controle do ambiente em que esses sujeitos eram submetidos, testemunhados por um terceiro, o pesquisador; segundo o autor reforçando as ciências fisiológicas e matemáticas e negando a psicologia.

A Guestalttheorie defende que o psíquico só pode ser entendido como totalidade, entretanto o autor criticou a fundamentação que o psicológico é aprendido de forma imediata pela percepção. O Behaviorismo de Watson contribui negando radicalmente a psicologia clássica, em sua introspecção e experimentalismo, no entanto segundo Politzer, se equivocou ao suprimir o enigma do homem. A Psicanálise conseguiu ser a abordagem que mais se aproximava da psicologia concreta que o autor defendia, estabelecendo a narrativa no lugar da introspecção, onde emerge o sujeito singular, ou seja, os conteúdos do sujeito servem de sentido para o próprio sujeito sempre em primeira pessoa o eu subjetivo; por outro lado, negou o inconsciente mentalista de Freud, dizendo que ele não se desprendeu dos fundamentos já superados da psicologia clássica.

Finalizando essa revisão bibliográfica da Crítica dos Fundamentos da Psicologia I e II de Georges Politzer, temos a dizer aos caros leitores, que essa obra, ao nosso entender, pode estimular fundamentações para inúmeros estudos acadêmicos; sua narrativa crítica e literária inspirou pensadores franceses, como: Foucault, Lacan, Deleuze, Guattari, entre muitos outros.

REFERÊNCIAS 

BLADÉ, G. Georges Politzer, Crítica de los fundamentos de la psicologia. Barcelona: NODVS XIII, 2005, disponível em: http://www.scb-icf.net/nodus/contingut/article.php?art=

185&rev=27&pub=, acesso em: 02.07.2017.

POLITZER G. Crítica dos Fundamentos da Psicologia I, 2 ed, Lisboa-PT: Presença, 1975.

 Crítica dos Fundamentos da Psicologia II, Lisboa-PT: Presença, 1973.

1 Doutrina filosófica que se desenvolveu na Grécia no séc. V a.C. Os atomistas acreditavam que os elementos básicos da realidade eram átomos, partículas de matéria indivisíveis, indestrutíveis, que se moviam no espaço. Fonte: https://www.dicio.com.br

2 Para Politzer, o termo “drama” significa “fato” ele instrui o leitor a retirar o significado romântico “comovedor”. Para ele, vida designa um fato biológico, ao mesmo tempo em que a vida propriamente humana seria a vida dramática do homem, e é esta vida dramática que apresenta todas as características que tornam uma área suscetível de ser estudada cientificamente (POLITZER, 1975, p. 27).