Intervenção precoce no TEA: uma estratégia de cuidado

O transtorno do espectro autista (TEA) teve seu primeiro registro na literatura em 1911, pelo psiquiatra, Eugen Bleuler, em artigo intitulado “Demência precoce e o grupo das esquizofrenias”, onde além das observações voltadas para as características da esquizofrenia, outras relacionadas a um comportamento de introspecção também foram identificadas, que levaram o psiquiatra  “a denominar o quadro como Autismo – que vivem para si mesmos, dentro de um mundo próprio” (ALMEDA;ALBUQUERQUE, 2017, p.2)

O TEA é algo que vem sendo bastante estudado na atualidade, pois são inúmeros os desafios que regem as intervenções, diante da multiplicidade das variações dentro do espectro. As pesquisas estão ampliando o olhar acerca de métodos que podem ser utilizados na prática, por diversos profissionais para alcançar melhores resultados, nos processos de reabilitação de pessoas portadoras do TEA, sendo consensual entre os estudiosos afirmar que “quanto mais cedo for iniciada a intervenção no transtorno do espetro do autismo, mais fácil será evitar a cristalização e agudização dos problemas, bem como possíveis aparecimentos de efeitos secundários” (COSTA, 2014, p.13).

As discussões ocorrem no campo de registrar os resultados de uma intervenção precoce no TEA, quando a mesma acontece, bem como o preparo de profissionais, família e escola no manejo das intervenções. A qualidade de um método, influencia diretamente nos resultados, porém sem o preparo dos envolvidos no processo, esses resultados muito provavelmente estarão comprometidos negativamente (COSTA, 2014).

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A caracterização do autismo é feita no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V, 2013), onde se apresenta na forma de espectro, que leva em consideração a intensidade da sua apresentação para a sua classificação e assim orientar as intervenções de acordo com o caso apresentado, definindo assim a demanda de suporte necessária (ALMEDA; ALBUQUERQUE, 2017, p.4)

O TEA leve demanda um suporte espontâneo e geralmente apresentam dificuldades na comunicação, interação, e ainda fixação em interesses restritos. Já o classificado no nível moderado tem essas dificuldades acentuadas, promovendo a necessidade de um suporte substancial. Enquanto o nível severo, se coloca numa demanda de suporte intensa e substancial, devido a uma limitação muito maior na comunicação verbal e não verbal, com reações graves a qualquer tipo de mudança, que se manifesta através da automutilação (ALMEDA; ALBUQUERQUE, 2017, p.4).

Almeida e Albuquerque (2017) ainda acrescenta que com a presença de um quadro que necessita de tamanha atenção, devido principalmente a grande dificuldade em se relacionar com as pessoas, que também pode incidir em outras demarcações de comportamento, como a seletividade alimentar, problemas sensoriais e distúrbios de aprendizado, daí a importância de o quanto antes haver a intervenção necessária, de forma a minimizar os danos e progredir na adaptação, através das suas vivências.

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Segundo Costa (2014, p.17), a intervenção precoce, surge nos anos 60, como uma forma de prestar apoio inicialmente a crianças socialmente desfavorecidas, mas sua definição atualmente consiste na “prestação, por parte de uma equipe multidisciplinar de serviços que são dirigidos à criança e à família, com o objetivo de reduzir ao máximo os efeitos dos fatores de risco, no desenvolvimento da criança”.

A intervenção precoce pode ser prestada em diferentes contextos, porém com a parceria entre os diversos espaços em que a criança está inserida, contribuindo diretamente para a melhoria da qualidade de vida. Um olhar ampliado e integral deve ser lançado, o que requer a presença de diferentes serviços envolvidos nessa prática, como alternativa de um percurso que contemple de fato as reais necessidades, numa “perspectiva sistêmica e ecológica” (COSTA, 2014).

O TEA não tem cura e é um desafio para todos os profissionais envolvidos no processo de reabilitação e deve ser vivenciado a partir da utilização de métodos comprovados e eficazes, sendo o trabalho multidisciplinar uma estratégia que amplia a abrangência da intervenção, possibilitando a interação das terapias e promovendo assim um tratamento diferenciado, observando as dificuldades e potencialidades, levantando assim a necessidade de um preparo no manejo da demanda, por parte de todos os envolvidos  (ALMEDA; ALBUQUERQUE, 2017).

Para Costa (2014, p.22) “a intervenção precoce é fundamental para o desenvolvimento dos comportamentos subsequentes mais complexos e tanto mais eficaz quanto mais cedo for iniciada”, por isso se torna algo relevante a se considerar, nos casos de TEA, em que os problemas no desenvolvimento e risco biológico e/ou ambiental são identificados. Portanto, intervir precocemente pode prevenir ou minimizar os danos, acelerando o desenvolvimento e reduzindo progressivamente a demanda de suporte, impactando também nos gastos com serviço de reabilitação.

Sendo assim, a intervenção precoce, envolvendo diferentes profissionais, para os casos de diagnóstico de TEA, se constitui em uma importante estratégia para prática de um cuidado direcionado, que considera aspectos importantes, logo que os sintomas surgem, promovendo maiores possibilidades na evolução dos processos adaptativos de uma pessoa com esse diagnóstico, melhorando assim sua qualidade de vida.

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Referências:

ALMEDA, Caroline Martins de; ALBUQUERQUE, Karine. Autismo: Importância da Detecção e Intervenção Precoces. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 02, Vol. 01. pp 488-502, Abril de 2017. ISSN:2448-0959. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/wp-content/uploads/artigo-cientifico/pdf/autismo.pdf. Acesso: 25/03/2021

COSTA, Daniela Cristina Ferreira da. Intervenção Precoce no Transtorno do Espetro do Autismo. Dissertação apresentada à Escola Superior de Educação João de Deus com vista à obtenção do grau de mestre em Ciências da Educação na Especialidade de Educação Especial: Domínio Cognitivo e Motor. Lisboa, 2014. Disponível em: https://comum.rcaap.pt/bitstream/10400.26/14422/1/DanielaCosta.pdf. Acesso 25/03/2021

Andréia Nogueira Alves Teles
Assistente Social (UFPI), bacharel em Direito (UNIRG) e Acadêmica de Psicologia pelo Ceulp/Ulbra. Pós-graduação em Saúde Pública (FAINTER), em Saúde Mental (AVM) e em Prevenção e tratamento do uso e abuso de substâncias psicoativas (FASEM). Trabalha como Assistente Social na Polícia Militar do Tocantins.