Neuralink: interface Cérebro-Computador

Desde milhares de anos atrás os seres humanos sempre buscaram aprender a desenvolver não só habilidades de caça mas também de superação quando relacionados às limitações do corpo. Hoje em dia não é diferente, o aperfeiçoamento humano está presente em diversas áreas da sociedade, como no esporte, ciência e tecnologia. Superar as limitações do corpo humano por vias de métodos naturais ou artificiais vai muito além de sobrepujar as dificuldades e limitações presentes, significa expandir um universo de novas possibilidades que os seres humanos ainda não conhecem.

A tecnologia de aperfeiçoamento humano são técnicas que podem ser utilizadas não somente para melhorar as características e capacidades humanas, mas também para o tratamento de doenças ou deficiência. De acordo com um relatório para o Global Trends 2030 do Conselho Nacional de Inteligência, o “aperfeiçoamento humano poderá permitir civis e militares trabalharem de forma mais eficiente, ainda mais em ambientes que anteriormente seria impossível faze-lo”.

A Neuralink surgiu como uma sociedade comercial neurotecnológica estabelecida por Elon Musk e outros oito fundadores, que tem o objetivo de desenvolver interfaces cérebro-computador, também conhecidas como interface mente-máquina, que é um caminho comunicativo direto entre o cérebro e um dispositivo externo implantável. Musk disse, ao periódico “Wait But Why”, em abril de 2017, que a empresa aspira, no curto prazo, criar dispositivos para tratar doenças cerebrais graves e, principalmente, o aperfeiçoamento humano com a ajuda da tecnologia.

Construir veículos para o mercado de massa e colonizar Marte não são ambições suficientes para Elon Musk. O empresário bilionário visa fundir computadores com cérebros humanos para ajudar pessoas a acompanharem as máquinas. A Neuralink está buscando o que Musk chama de tecnologia de “renda neural”, implantando minúsculos eletrodos cerebrais que podem um dia carregar e baixar pensamentos.

Fonte: Divulgação Neuralink

Expandindo Nosso mundo

De acordo com o site oficial da Neuralink, atualmente eles estão criando o futuro das interfaces cerebrais construindo dispositivos que ajudarão pessoas com paralisia e inventando novas tecnologias que poderão expandir nossas habilidades e nossa comunidade como um todo. O desenvolvimento de uma interface cérebro-máquina totalmente implantada, sem fio, de alta contagem de canais, que tem como objetivo permitir que pessoas com paralisia usem diretamente sua atividade neural para operar computadores e dispositivos móveis com velocidade e facilidade.

Algo tão complexo pode provocar estranheza, mas, de uma certa maneira, nós já somos como um cyborg, nossos celulares e tecnologias vestíveis não são muito diferentes de um membro no qual usamos para aumentar nossa capacidade produtiva, acessar e processar informações. O problema é que a comunicação entre esses dispositivos externos e o nosso cérebro é muito lenta, as informações dos dispositivos demoram muito – tanto para chegar ao cérebro quanto para sair de lá.

A maneira de ultrapassar esse obstáculo é através de um chip minúsculo que é capaz de conectar o cérebro humano diretamente com a máquina, o que aumenta a velocidade de conexão entre os dois pontos em até 10.000 vezes. Esse tipo de tecnologia já existe, mas sem data definida para iniciar os testes em humanos, cenário que deve mudar em breve, visto que, uma concorrente da Neuralink, a Synchron, que possui apenas 20 funcionários, já obteve autorização da Agência reguladora de Medicamentos e Alimentos (FDA, na sigla em inglês) dos EUA para realizar testes em seres humanos com chips criados pela própria companhia.

Em meados de 2017, Musk divulgou o projeto Neuralink pela primeira vez. Fascinado com a possibilidade de integrar softwares e seres humanos, Musk comprou a empresa sem que a mesma tivesse algum produto desenvolvido e apenas em 2019, através de uma conferência de lançamento, trouxe a público os seus resultados iniciais do primeiro produto, batizado de “N1”, esta versão que possui aparência similar a de uma chip.

Através dele, parte uma série de cabos flexíveis e ultrafinos com a espessura 5x mais fina que um fio de cabelo. O objetivo central é que esses fiozinhos se conectem diretamente ao córtex do cérebro humano, estabelecendo assim uma conexão direta entre homem e máquina. Tal implante possibilita a captação de sinais eletroquímicos que os neurônios emitem e, através de um computador, traduzi-los de forma que possam ser interpretados.

Fonte: Reprodução/ Mais Tecnologia/ Neuralink

Para a implantação, também foi desenvolvido um robô que, controlado por um médico, é capaz de realizar a inserção desses fios milimétricos no tecido cerebral sem causar quaisquer danos ao paciente. Este é o ponto crucial, pois para conseguir a aprovação governamental e adoção em massa da tecnologia, ela precisa ser 100% segura, então não pode haver espaço para erro médico [1].

Em 2020, foi lançada uma nova versão deste dispositivo, batizado de “Link V.09”, que possui o tamanho de uma moeda e, segundo Musk, encaixa perfeitamente na cabeça. Modelo este que corrige a estética de seu antecessor, trazendo um conforto e impercepção na utilização do mesmo. A nova versão também apresenta fios 10x mais finos que um fio de cabelo. Este dispositivo possui autonomia de funcionamento de um dia e precisa ser carregado ao longo da noite, que pode ser operada via bluetooth a uma distância de até 10 metros [2].

O objetivo principal dessa invenção é ajudar pessoas portadoras de lesões graves no cérebro ou que tivessem perdido parte dos movimentos do corpo por causa de um derrame, um acidente cerebral ou qualquer condição causada por uma falha na comunicação entre o cérebro e o corpo [8]. De uma forma simplificada, nosso cérebro é composto de uma rede neural com aproximadamente 100 bilhões de neurônios que se comunicam com sinais elétricos chamados sinapses. Esses sinais controlam as ações do corpo, então se houver algum problema na comunicação entre os neurônios que controlam o seu braço, você perde a capacidade de usá-lo [9].

Porém, mesmo que suas sinapses estejam funcionando corretamente, mas por algum motivo eles não consigam chegar até determinada parte do corpo, a perna por exemplo, você não conseguirá movimentá-lo. Dessa forma, nos casos onde o problema é no caminho que conecta os pontos, o dispositivo da Neuralink faria o papel de repassar os sinais onde a comunicação foi interrompida.

Porém, nem todos os pesquisadores e pessoas estão tão animadas com tais anúncios da Neuralink. A transmissão de dados neurais por meio de uma tecnologia sem fio é a grande inovação, mas o que pode ser feito a partir dessa coleta de dados não foi apresentado. “As manifestações foram bastante desanimadoras a este respeito e não mostraram nada que não tivesse sido feito antes” [7], afirma Andrew Jackson, professor de interfaces neurais da Universidade de Newcastle.

Imagem por kjpargeter no Freepik

Futuro Preocupante?

Há uma certa empolgação quando se imagina essa tecnologia atuando na área da medicina. Um paciente com esclerose, como o Stephen Hawking poderia ter levado uma vida ‘normal’, utilizando esse dispositivo da Neuralink. Exoesqueleto, dispositivo de voz, e até mesmo uma casa inteligente adaptada às suas necessidades, recebendo comandos da sua mente, iria proporcionar uma vida independente às pessoas com algum tipo de deficiência. Mas ao mesmo tempo em que gera uma empolgação, há uma preocupação: Empresas podendo ler sua mente.

Não é de hoje que sabemos de gigantescos vazamentos de dados de grandes empresas. Em 2018, Mark Zuckerberg foi a julgamento explicar o uso indevido de dados de 87 milhões de usuários, coletados pela Cambridge Analytica, onde os dados foram usados para influenciar a opinião de vários eleitores em vários países [4]. Além desse famoso caso, há várias notícias de vazamento de dados quase toda semana, mas pouco importa se esses dados são vazados ou se são vendidos, o principal motivo de preocupação é a privacidade.

Quem garante que o Neuralink não armazene mais do que comandos para ligarmos nossa tv, chamar um carro? E quem sabe mais no futuro, quando sair updates para essa tecnologia, ele não passe de um receptor de estímulos para um estimulador?

Segundo uma matéria do site futurism, conforme relatou pesquisadores de Harvard, MIT e da Universidade de Montreal, empresas de marketing já estão ativamente testando novas maneiras de orientar comportamentos de compra durante o sono, sem deixar memórias, a chamada publicidade “dreamtech”. Os pesquisadores também temem que dispositivos como relógios inteligentes comecem a vender dados biométricos obtidos enquanto seus usuários dormem para essas empresas de marketing. Por enquanto, o dispositivo mais próximo a nós (referindo a coleta biométrica de dados) é o smartwatch, que poderá perder o lugar quando o Neuralink chegar [6]. As perspectivas em relação a esse contexto, podem parecer distópicas ou até mesmo um surto mental e, talvez, isso nunca aconteça de fato, mas não há como termos certezas quando o contexto é inovação tecnológica.

Ok, mas é só não usar! Será? Será que teremos essa opção? “As pessoas podem se sentir compelidas a usar chips cerebrais para se manterem empregadas em um futuro em que a inteligência artificial pode nos superar no local de trabalho” disse ao Observer a psicóloga cognitiva e filósofa Susan Schneider [5]. A inteligência artificial está dominando o mercado, carros autônomos da Tesla (que por coincidência é do Elon Musk), GPT3, github copilot, utilizam a IA para facilitar muitas coisas. No momento em que as atividades começam a se tornar mais fácil, começamos a produzir mais, fazer tarefas que antigamente necessitavam de duas ou mais pessoas. Uma empresa pode querer manter apenas aqueles funcionários que se profissionalizaram no uso dessas ferramentas. Da mesma forma, no futuro, a “profissionalização” talvez seja o uso do Neuralink.

Referências:

[1] Neuralink | O que é e como funciona o projeto que conecta um chip ao cérebro. Natalie Rosa, 2020.  Disponível em: https://canaltech.com.br/inteligencia-artificial/neuralink-o-que-e-como-funciona-170585/. Acesso em: 20 de nov. de 2021.

[2] Elon Musk’s Neuralink unveils sleek V0.9 device, uses sassy pigs for live brain machine demo. Dacia J. Ferris. Disponível em: https://www.teslarati.com/elon-musk-neuralink-smartwatch-features-implant-robot-live-demo-video/. Acesso em: 20 de nov. de 2021.

[3] Global trends 2030: Alternative Worlds. 2012. Disponível em: https://www.dni.gov/files/documents/GlobalTrends_2030.pdf. Acesso em: 20 de nov. de 2021.

[4] Em depoimento de 5 horas ao Senado americano, Mark Zuckerberg admite erros do Facebook. G1, 2018. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/mark-zuckerberg-depoe-ao-senado-sobre-uso-de-dados-pelo-facebook.ghtml. Acesso em 22 de nov. 2021.

[5] Neuralink’s Monkey Experiment Raises Questions From Scientists and Tech Ethicist. Sissi Cao, 2021. Disponível em: https://observer.com/2021/04/elon-musk-neuralink-monkey-demo-draw-skepticism-scientist/. Acesso em 22 de nov. 2021.

[6] Scientists Warn That Marketers Are Trying to Inject Ads Into Dreams. Futurism, 2021. Disponível em: https://futurism.com/scientists-marketers-ads-dreams. Acesso em 22 de nov. 2021.

[7] Homem com implante cerebral desafia macaco da Neuralink para uma partida de Pong. Rafael Rigues, 2021. Disponível em: https://olhardigital.com.br/2021/05/17/ciencia-e-espaco/homem-com-implante-cerebral-desafia-macaco-da-neuralink-para-uma-partida-de-pong/. Acesso em 20 de nov. de 2021.

[8] Musk promete mostrar dispositivo Neuralink em funcionamento nesta sexta. Olhar Digital, 2020. Disponível em: https://olhardigital.com.br/2020/08/26/noticias/musk-promete-mostrar-dispositivo-neuralink-em-funcionamento-nesta-sexta/. Acesso em 20 de nov. de 2021.

[9] Neuralink and the Brain’s Magical Future. Tim Urban, 2017. Disponível em: https://waitbutwhy.com/2017/04/neuralink.html. Acesso em 20 de nov. de 2021