Há perdas que não levam apenas pessoas. Levam também versões inteiras de quem éramos antes delas acontecerem. Às vezes penso que o luto não é somente aprender a viver sem alguém, mas também tentar reconhecer quem nos tornamos depois da ausência.
Minha família sempre foi pequena: eu, meu pai, minha mãe e meu irmão mais velho. Existia algo de muito seguro nisso, como se cada um ocupasse um lugar conhecido dentro da nossa rotina e da nossa história. Meu pai era meu porto seguro. A pessoa para quem eu voltava emocionalmente quando a vida parecia difícil demais. Perder ele, em 2024, foi como perder uma parte da estrutura que sustentava minha existência. Diria, sem exagero, que perdi minha alma gêmea.
A morte dele mudou completamente a dinâmica da nossa casa. De repente, todos precisaram assumir papéis que nunca haviam experienciado antes. Minha mãe precisou aprender a existir sem a presença do companheiro de vida. Meu irmão precisou carregar responsabilidades diferentes. E eu precisei descobrir como continuar vivendo enquanto tentava compreender um vazio que parecia impossível de nomear. O luto transformou não apenas nossos sentimentos, mas também a forma como nos relacionávamos uns com os outros e conosco mesmos.
Existe algo profundamente silencioso no processo de perder alguém tão importante. A vida continua acontecendo do lado de fora — as pessoas seguem trabalhando, estudando, fazendo planos — enquanto internamente parece existir uma ruptura entre quem éramos e quem passamos a ser. Em muitos momentos, senti como se estivesse tentando sobreviver emocionalmente enquanto o mundo esperava que eu continuasse funcionando normalmente.
Em 2025, tomei uma decisão que mudou novamente minha rotina: larguei meu emprego para ajudar meu irmão a cuidar da minha sobrinha. Foi uma escolha difícil, atravessada por medos, inseguranças e dúvidas sobre o futuro. Ao mesmo tempo, existia amor naquela decisão. Um amor que talvez tenha surgido justamente da necessidade de permanecer perto da família depois de uma perda tão grande. Cuidar dela passou a ser também uma forma de reconstruir afetos dentro de uma casa marcada pela ausência.
Assumir esse novo papel me colocou diante de experiências completamente desconhecidas. Cuidar de uma criança exige presença, paciência e disponibilidade emocional, mesmo nos dias em que o próprio coração ainda está cansado. Em alguns momentos, percebi como o sofrimento psíquico e o cuidado podem coexistir. É possível amar profundamente alguém e, ainda assim, sentir medo, exaustão e insegurança diante da responsabilidade de cuidar.
Hoje entendo que o luto não acontece apenas na perda concreta de alguém, mas também nas despedidas simbólicas que somos obrigados a viver depois disso. Precisei me despedir da vida que conhecia, da rotina que fazia sentido e até de partes da minha identidade. Ao mesmo tempo, precisei construir novos modos de existir dentro daquilo que permaneceu. Talvez crescer emocionalmente seja justamente isso: continuar caminhando mesmo quando ainda carregamos ausências dentro de nós.
Ainda sinto falta do meu pai todos os dias. Existem momentos em que a saudade aparece de maneira quase física, como se a memória tentasse manter viva uma presença que o tempo não consegue apagar. Mas também aprendi que amar alguém não termina com a morte. O amor continua aparecendo nas escolhas, nos cuidados, nos vínculos e na forma como seguimos tentando viver.
Hoje não posso dizer que compreendi completamente a perda. Talvez algumas dores nunca sejam totalmente elaboradas. Mas sigo tentando levar a vida da melhor forma possível. E talvez exista algo profundamente humano nisso: continuar, mesmo sem ter todas as respostas, enquanto aprendemos lentamente a transformar ausência em memória, e memória em afeto que permanece.
