Uma leitura crítica sobre identidade, autonomia e os significados simbólicos presentes no filme.
Filmes infantis fazem parte da memória afetiva de muitas pessoas. Histórias de princesas, aventuras e romances costumam ser lembradas com carinho, mas também carregam mensagens importantes sobre amor, identidade e relações sociais. O filme A Pequena Sereia é um exemplo de narrativa que, apesar de encantadora, também pode ser analisada a partir de uma perspectiva crítica.
Na história, Ariel é uma jovem sereia curiosa sobre o mundo humano. Fascinada pela vida fora do oceano, ela se encanta pelo príncipe Eric e passa a desejar fazer parte daquele universo. Em busca desse sonho, Ariel decide recorrer à ajuda da bruxa do mar, Ursula, que lhe oferece a possibilidade de se tornar humana por três dias.
O preço desse acordo, porém, é alto. Para realizar o desejo de viver entre os humanos e conquistar o príncipe, Ariel precisa abrir mão de sua própria voz.
Esse elemento da história pode ser interpretado de diferentes maneiras. Em uma leitura simbólica, a perda da voz representa algo maior do que uma simples condição do acordo feito com a bruxa. A voz está diretamente relacionada à identidade, à expressão e à autonomia. Ao abrir mão dela, Ariel perde também a possibilidade de comunicar seus pensamentos, sentimentos e desejos.
Durante boa parte da narrativa, a personagem passa a depender apenas de sua aparência e de seus gestos para ser reconhecida. Isso levanta uma reflexão importante sobre como, em muitas histórias românticas, a valorização da aparência e do comportamento feminino aparece como elemento central para conquistar o amor.
A filósofa Judith Butler discute que normas sociais influenciam profundamente a forma como identidades de gênero são construídas e reconhecidas. Muitas dessas normas estabelecem expectativas sobre como mulheres devem agir, se comportar ou se expressar para serem aceitas socialmente.
Nesse sentido, a história de Ariel pode ser interpretada como uma metáfora de situações em que pessoas silenciam partes importantes de si mesmas para atender expectativas externas. Em diferentes contextos da vida real, indivíduos podem sentir que precisam modificar comportamentos, esconder opiniões ou reduzir sua própria expressão para serem aceitos em relações afetivas ou sociais.
Do ponto de vista psicológico, a possibilidade de expressar pensamentos e sentimentos é fundamental para a construção da identidade e para o desenvolvimento da autoestima. A comunicação, o reconhecimento e a escuta fazem parte das relações humanas saudáveis.
Quando analisamos narrativas culturais como a da Pequena Sereia, percebemos que elas não apenas entretêm, mas também ajudam a construir imaginários sociais sobre amor, gênero e relacionamento. Muitas histórias clássicas foram produzidas em contextos sociais específicos e refletem valores presentes naquele período.
Revisitar essas narrativas com um olhar crítico não significa rejeitá-las, mas ampliar a forma como as compreendemos. Ao refletir sobre a trajetória de Ariel, torna-se possível pensar sobre autonomia, identidade e as expectativas sociais que atravessam relações afetivas.
Talvez uma das reflexões mais importantes que essa história pode despertar seja justamente esta: o amor não deveria exigir que alguém abra mão da própria voz.
Ficha Técnica – Animação (1989)
Nome Original: The Little Mermaid
Direção e Roteiro: Ron Clements, John Musker
Produção: Walt Disney Pictures
Música: Alan Menken e Howard Ashman
Duração: 83 minutos
Gênero: Animação, Musical, Família, Fantasia
Vozes: Jodi Benson (Ariel), Pat Carroll (Úrsula), Samuel E. Wright (Sebastião)
Ficha Técnica – Live-action (2023)
Direção: Rob Marshall
Elenco: Halle Bailey, Jonah Hauer-King, Melissa McCarthy, Javier Bardem
Gênero: Fantasia, Musical, Aventura
Distribuição: Walt Disney Studios Motion Pictures
Referências
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2019.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Referências técnicas para atuação de psicólogas(os) em políticas públicas para população LGBTQIA+. Brasília: CFP, 2021.
