A construção do cuidado médico na formação acadêmica: (En)Cena entrevista Alexandra Silvestre

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A formação médica vai muito além da aquisição de conhecimentos técnicos. Em um cenário marcado por mudanças no ensino superior e pela ampliação dos cursos de Medicina no Brasil, avaliações como o Enamed surgem como ferramentas de análise da qualidade da formação. No entanto, discutir a formação médica também implica refletir sobre o cuidado integral, especialmente no que diz respeito à saúde mental dos pacientes.

Nesta entrevista, Alexandra Lara Silvestre, estudante de Medicina em fase final de curso, compartilha sua trajetória, desafios e percepções sobre o papel das avaliações acadêmicas, a prática clínica e a importância da empatia no cuidado em saúde. Sua narrativa revela não apenas a construção de uma futura médica, mas também uma reflexão sensível sobre o que significa, de fato, cuidar de pessoas.

(En)Cena – Antes de falarmos sobre formação médica e saúde mental, gostaria que você contasse o que despertou em você o desejo de cursar Medicina e se tornar médica.

Alexandra – Eu sempre sonhei em fazer medicina. Tudo começou quando eu tinha uns 8 anos e já gostava muito de cuidar dos outros. Naquela época eu dizia que queria ser “médica de bicho”, mas depois percebi que queria cuidar de pessoas. Foi ali que nasceu esse desejo no meu coração.

No ensino médio, comecei a enxergar a realidade do curso e acabei me desmotivando, me subestimando e deixando esse sonho de lado. Mas tudo mudou no início da pandemia. Foi um momento em que percebi o quanto a vida é curta para não fazer algo que a gente ama. Então retomei esse sonho e me direcionei novamente para a área da saúde. Sou uma pessoa muito religiosa e acredito que Deus esteve à frente de tudo isso. As portas abriram e hoje estou na fase final do curso. Sempre tive esse instinto de cuidar, e ele se fortaleceu ainda mais nesse período.

(En)Cena – Considerando o cenário atual da formação médica, qual é, na sua percepção, a finalidade do Enamed?

Alexandra – Eu vejo o Enamed como uma proposta de avaliação dos cursos de Medicina, principalmente porque houve uma grande expansão desses cursos no Brasil nos últimos anos. A intenção, ao meu ver, é fazer uma espécie de filtro para identificar quais instituições estão realmente qualificadas.

Porém, houve falhas importantes. O edital foi divulgado cerca de duas semanas antes da prova, o que pegou muitos alunos e faculdades de surpresa. Além disso, inicialmente não havia clareza sobre o impacto da prova no currículo, o que mudou depois. Então, apesar da proposta ser válida, a execução deixou a desejar, principalmente na comunicação e no planejamento.

(En)Cena – Você acredita que a nota obtida em exames avaliativos pode refletir a capacidade de um médico oferecer cuidado de qualidade?

Alexandra – Eu diria que sim e não. A prova avalia o conhecimento teórico, que é fundamental, mas não é suficiente. Já vi profissionais com domínio completo da teoria, mas que não conseguem se comunicar bem com o paciente ou conduzir um atendimento com sensibilidade.

A medicina exige uma integração entre teoria e prática. Não adianta saber tudo e não conseguir enxergar o paciente como uma pessoa, com sentimentos, valores e uma história de vida. O cuidado de qualidade envolve empatia, comunicação e compreensão. Então, a prova reflete apenas uma parte da capacidade do médico, mas não o todo.

(En)Cena – Na sua opinião, a qualidade do cuidado em saúde depende apenas do domínio técnico ou também de habilidades como empatia, comunicação e escuta qualificada?

Alexandra – Com certeza vai muito além do domínio técnico. A empatia, a comunicação e a escuta qualificada são essenciais. O paciente não é só uma doença, ele é alguém que está passando por um momento delicado. Saber acolher, explicar e conduzir o atendimento com humanidade faz toda a diferença no cuidado.

(En)Cena – Como você compreende o papel do médico na identificação e no cuidado inicial de demandas relacionadas à saúde mental durante uma consulta clínica geral?

Alexandra – Na clínica geral, a saúde mental muitas vezes aparece de forma indireta. A gente precisa perceber nas entrelinhas como a doença está afetando o paciente emocionalmente. Já vivenciei situações em que pacientes receberam diagnósticos graves, como câncer, e reagiram de formas completamente diferentes, alguns com aceitação, outros em negação.

Mesmo que não seja uma consulta específica de saúde mental, o médico precisa estar atento aos sinais, ao comportamento e às emoções do paciente. Muitas vezes, o ambiente do consultório já gera ansiedade. Então, é essencial ter calma, saber conversar e acolher, mesmo com o tempo limitado das consultas.

(En)Cena – Você acredita que a responsabilidade pelo cuidado em saúde mental é de todos os médicos ou apenas do psiquiatra?

Alexandra – Eu acredito que é responsabilidade de todos os médicos. Claro que o psiquiatra tem uma atuação mais específica, mas todos os profissionais precisam ter empatia, cuidado na comunicação e sensibilidade ao lidar com o paciente. A forma como damos uma notícia, por exemplo, pode impactar muito a saúde mental da pessoa.

(En)Cena – De que forma a formação médica atual prepara, ou poderia preparar melhor, os estudantes para lidar com questões de saúde mental?

Alexandra – Na minha faculdade, temos um rodízio específico em saúde mental, o que faz muita diferença. No início, nos sentimos despreparados, principalmente ao lidar com casos graves, como ideação suicida ou episódios de mania. Mas, com o tempo e a exposição, vamos desenvolvendo habilidades e aprendendo a manejar melhor essas situações.

A prática é fundamental. Estar em contato com esses pacientes nos torna mais empáticos e mais preparados. Sei que nem todas as faculdades oferecem essa formação de forma adequada, algumas abordam a psiquiatria de maneira muito superficial. Então acredito que a melhor forma de preparo é justamente essa- vivência prática, com acompanhamento e orientação.

(En)Cena – Para finalizarmos, que mensagem você deixaria para estudantes de Medicina que estão em formação?

Alexandra – Eu diria para nunca perderem a sensibilidade. A medicina não é só sobre conhecimento, é sobre pessoas. Estudem, se dediquem, mas também aprendam a ouvir, a acolher e a enxergar o paciente como um todo. Isso faz toda a diferença no cuidado.

Encerramento

Agradeço à Alexandra pela disponibilidade em compartilhar sua trajetória e reflexões, que contribuem de forma significativa para pensarmos uma formação médica mais humana, crítica e sensível às demandas da saúde mental.

Créditos
Entrevistadora: Fernanda Bazana Martinez – estagiária do Portal (En)Cena
Data – 05/03/2026

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