First Man: a odisseia no espaço que há entre nós

Concorre com 4 indicações ao Oscar:

Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som, Melhor Direção de Arte, Melhor Efeitos Visuais

“Um pequeno passo para um homem,
um salto gigantesco para a humanidade.”
(Neil Armstrong, 1969)

Em 1969, as duas grandes potências mundiais, EUA e URSS, ainda viviam em meio aos embates “silenciosos” da Guerra Fria, que em uma síntese do sociólogo francês Raymond Aron foi um período de “paz impossível, guerra improvável” [1].  Nos EUA, muitas pessoas iam às ruas em manifestações exigindo que as tropas americanas se retirassem do Vietnã, havia intensos conflitos raciais e um crescimento do movimento de contracultura. Em agosto desse mesmo ano, em uma fazenda em Nova York ocorria o mais famoso festival de música dos tempos modernos, “WOODSTOCK”, e a música ao redor do mundo contava com grupos e nomes como The Doors, Led Zeppelin, Janis Joplin e Beatles.  

Especialmente nesse ano, o mundo era palco de extremas possibilidades no desenvolvimento tecnológico, afinal o homem finalmente havia pisado na Lua, mesmo usando um computador infinitamente menos potente que o smartphone que você usa hoje e em foguetes que pareciam a evolução de uma claustrofóbica lata de sardinha. O Apollo Guidance Computer tinha uma CPU de 15 bits, não possuía um sistema operacional, era mais uma espécie de super calculadora programável, mas, ainda assim, era impressionante para o seu tempo, e estava pelo menos 10 anos à frente da tecnologia da sua época [2].

Fonte: encurtador.com.br/JQ179

First Man (O primeiro homem), de Damien Chazelle (La la land e Whiplash), traz um olhar mais intimista para toda a trajetória que culminou na missão Apollo 11 em 1969. Com isso, o filme mostra a missão sob o ponto de vista de Neil Armstrong (Ryan Gosling), e a forma que a história é conduzida parece ser uma tentativa de nos colocar no lugar dele, seja no uso de uma fotografia espetacular e realista do espaço e uma mixagem de som que nos transporta para dentro das cápsulas espaciais, seja dando vislumbre de suas emoções por detrás do seu silêncio e fuga. Desta forma, as questões políticas e técnicas relacionadas à missão ficam em segundo plano.

Fonte: encurtador.com.br/aikuH

O roteiro, assinado pelo vencedor do Oscar por Spotlight, Josh Singer, é uma adaptação do livro de 2005 de James R. Hansen. Nesse processo de tornar o filme mais intimista, mesmo que tenha como premissa o desbravar do espaço e o caminhar no solo lunar, são mostrados alguns recortes da relação de Neil com os seus filhos e, especialmente, com sua esposa. Primeiro, eles foram afetados pela morte de sua filha Karen, aos 3 anos, de Câncer.  Mesmo que Armstrong  contasse com todo o apoio tecnológico da medicina da época, não conseguiu evitar o sofrimento da menina após as sessões de radioterapia, nem sua partida tão repentina. No filme, esse acontecimento é apontado como um possível fator para tornar Armstrong ainda mais ausente emocionalmente. Depois, o entendimento de que a própria jornada de um astronauta em uma missão tão arrojada já estava eclipsada por uma melancólica sensação de partida e finitude.

Fonte: encurtador.com.br/lopqy

A forma realista em que cada situação é apresentada faz com que, mesmo na imensidão do espaço, onde talvez seja mais comum capturar os momentos de silêncio e contemplação (como em Gravidade, por exemplo), temos sempre uma sensação de claustrofobia, agitação e medo, como se algo ruim fosse acontecer a qualquer momento.  Essa sensação é exponencializada especialmente em virtude do realismo do som e da câmera posicionada de tal forma que você também pensa estar na cápsula com os astronautas.

A impressão que temos é que a possibilidades dos eventos ali programados funcionar é bem menor do que a perspectiva latente de um fracasso. Assim, a finalização abrupta da vida dos astronautas Ed White (Jason Clarke), Gus Grissom (Shea Whigham) e Roger B. Chaffee (Corey Michael Smith) por causa da explosão de um cockpit quando era realizada uma aparentemente tranquila etapa de testes de pré-voo da missão Apollo, mostrou o quão tênue era a linha entre a vida e a morte para os astronautas naquele tipo de missão.  

Janet, esposa de Armstrong, interpretada com maestria por Claire Foy, mostra como foi conviver com alguém cujo trabalho poderia, muito provavelmente, matá-lo, considerando que esse foi o destino de vários astronautas durante o processo de aperfeiçoamento dos equipamentos e métodos que culminou na Apollo 11.  

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Segundo A.O. Scott [3],

Janet às vezes parece passar os dias como se estivesse em uma antecipação à viuvez, e o progresso dos programas Gemini e Apolo foi medido em parte pelas vidas perdidas. Mesmo para espectadores versados ​​na história da NASA, que conhecem o destino de certos personagens, as mortes são um choque. Elas são dramatizadas com tato cinematográfico, de modo que o que você registra não é o horror, mas uma ausência súbita e desorientadora, como se os homens tivessem desaparecido no espaço, em vez de cair na terra ou queimar no momento do lançamento. [3]

Fonte: encurtador.com.br/hFH05

O homem, bicho da terra tão pequeno
Chateia-se na terra
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na lua
Pisa na lua
Planta bandeirola na lua
Experimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza a lua.
(O Homem; As Viagens, Carlos Drummond de Andrade)

Mas, talvez o maior desafio de Chazelle tenha sido realizar uma viagem na aparentemente impenetrável psique de Armstrong. Neil é retratado como uma pessoa de poucas palavras, que não expõe seus sentimentos, nem costuma expressar emoções, sejam elas de medo, alegria ou raiva. Isso reforça a descrição que Janet fez uma vez sobre ele em uma entrevista: “O silêncio é a resposta de Neil Armstrong. A palavra ‘não’ é um argumento. Ele é um homem muito solitário.” [4] Talvez para Armstrong, parafraseando a poesia do Drummond, tenha sido mais fácil humanizar a lua com a marca que deixou de sua pegada no solo e as imagens eternizadas de sua caminhada naquele ambiente até então misterioso do que entender o universo de rostos, gestos e sentimentos que o cercava quando estava na Terra.

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Fonte: encurtador.com.br/ahqK1

Como bem ressaltou Mark Kermode [5],

Significativamente, o anti-herói aparentemente sem emoção de Gosling parece estar perdido no espaço mesmo quando está na Terra. De vez em quando, o diretor de fotografia Linus Sandgren o enquadra sozinho em meio aos espaços escuros da casa de Armstrong – a câmera olhando através de portas, corredores e escotilhas que pintam uma mortalha escura em torno de sua figura suavemente iluminada.

Fonte: encurtador.com.br/agJY5

Só resta ao homem
(estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
De si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria
De con-viver.
(O Homem; As Viagens, Carlos Drummond de Andrade)

Responsável por realizar uma das maiores façanhas do ser humano, que foi pisar no solo lunar e iniciar, juntamente com Yuri Gagarin (da ex-URSS) e outros astronautas,  uma jornada rumo a outros planetas, feito este que ainda é um grande desafio tecnológico da humanidade, suas palavras e seu comportamento pareciam não condizer com a magnitude da sua conquista.

Talvez seja aí que reside o interesse que há em torno de sua pessoa, e mesmo com tantos filmes já realizados sobre a jornada do ser humano ao espaço, retratando situações reais ou utópicas, Neil Armstrong e sua breve e importante caminhada na Lua ainda causam curiosidade, emoção e dúvida. Ao final, parece que, para além da nacionalidade, das conquistas e das ideologias, o ser humano, aquele que pareceu tão pequeno (quase insignificante) quando a Terra foi observada do espaço ou da Lua, tem um desafio que perpassa o tempo. Ou seja, novamente parafraseando Drummond, de viajar de si a si mesmo e humanizar-se no processo de conviver.

FICHA TÉCNICA:

O PRIMEIRO HOMEM

Título original: First Man
Direção: Damien Chazelle
Elenco: Ryan Gosling, Claire Foy, Pablo Schreiber, Kyle Chandler
Ano: 2018
País: EUA
Gênero: Drama

 

REFERÊNCIAS:

[1] http://www.ipri.pt/images/publicacoes/revista_ri/pdf/r7/RI07_03PHassner.pdf

[2] https://www.popularmechanics.com/space/moon-mars/a25655/nasa-computer-iphone-comparison/

[3] https://www.nytimes.com/2018/10/10/movies/first-man-review-ryan-gosling-damien-chazelle.html

[4] https://www.theguardian.com/science/1999/jul/18/spaceexploration.theobserver

[5] https://www.theguardian.com/film/2018/oct/14/first-man-review-damien-chazelle-ryan-gosling-claire-foy-apollo-11-neil-armstrong

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=GKQXhQ8RuZI

Parcilene Fernandes
Doutora em Psicologia (PUC/GO). Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Ciência da Computação pela UFSC, especialista em Informática Para Aplicações Empresariais pela ULBRA. Graduada em Processamento de Dados pela Universidade do Tocantins. Bacharel em Psicologia pelo CEULP/ULBRA. Coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do CEULP/ULBRA.