Crescer como menina é também crescer cercada por histórias. Algumas nos ensinam a ocupar pouco espaço. Outras nos oferecem apenas um punhado de possibilidades cuidadosamente delimitadas. Há as que nos dizem para sermos bonitas, dóceis, desejáveis. Há as que insistem que nossa maior conquista será sermos escolhidas.
Por muito tempo, as mulheres no audiovisual ocuparam espaços estreitos. Eram a musa, a esposa, a mãe, a garota bonita da escola, a recompensa ao final da jornada de um homem. Quando não estavam sendo objetificadas, serviam de apoio emocional para protagonistas masculinos ou existiam apenas para movimentar histórias que não eram suas. Crescer assistindo a esse tipo de representação produz um efeito silencioso, pois aprendemos que mulheres são empurradas para as margens da narrativa.
Mas há também histórias, mais raras e preciosas, que abrem janelas. Com personagens que atravessam a tela e permanecem conosco por anos. Não porque sejam perfeitas, mas porque nos oferecem algo raro: expandem o horizonte do que uma mulher pode ser e nos permitem novas formas de imaginar a nós mesmas.
Por isso importa tanto quando uma menina encontra personagens que escrevem a própria história.
Personagens que não estão ali somente para serem admiradas, mas para agir. Que sonham, mas também trabalham. Que desejam, mas também constroem. Mulheres que erram, recomeçam, estudam, lideram, criam, enfrentam obstáculos e recusam a ideia de que suas vidas devem girar em torno da validação de alguém.
Essas figuras ampliam o repertório do possível. Mostram que inteligência pode ser admirável. Que ambição não é defeito. Que coragem não é uma virtude exclusivamente masculina. Que existem inúmeras maneiras de ser mulher sem que nenhuma delas precise caber em um molde pré-estabelecido.
E é por isso que certas personagens permanecem tão vivas no imaginário coletivo. Elas não oferecem respostas prontas, mas abrem caminhos. Algumas nos ensinam a confiar em nossa inteligência. Outras nos mostram a importância de defender nossos desejos. Há aquelas que nos lembram que a liberdade exige escolhas difíceis e as que demonstram que liderança, criatividade e determinação não pertencem a gênero algum.
Vamos começar falando de Elle Woods, de Legalmente Loira (2001), a estudante de Direito que desafia preconceitos sem abrir mão de sua “feminilidade”. Durante muito tempo, a feminilidade foi tratada como uma espécie de obstáculo. Como se inteligência e vaidade habitassem lados opostos de uma mesma balança. Como se gostar de rosa anulasse a capacidade de argumentar. Como se delicadeza e ambição fossem incompatíveis.
E há algo profundamente libertador em uma personagem que entra em Harvard vestindo tudo aquilo que o mundo aprendeu a impor ao mesmo tempo em que despreza nas mulheres. Elle não vence apesar do rosa, apesar da vaidade ou apesar da feminilidade. Ela vence carregando tudo isso consigo. Sua trajetória desmonta a crença de que o respeito precisa ser comprado ao preço da renúncia. Não há nada de revolucionário em uma mulher que se torna aceita ao se aproximar dos padrões masculinos de competência. Revolucionário é ocupar espaços de excelência sem abandonar as partes de si que o mundo classificou como superficiais.
Barbie dialoga com essa mesma ideia por outro caminho. Durante décadas, atravessou o imaginário de meninas assumindo profissões, papéis e futuros diversos. Médica, astronauta, cientista, presidente, atleta, empresária. Existe poesia na insistência com que ela se recusou a permanecer uma coisa só. Em uma cultura que frequentemente exige coerência absoluta das mulheres, Barbie ofereceu multiplicidade. A possibilidade de mudar de ideia. De experimentar. De desejar mais de uma vida dentro da mesma vida.
Se Elle e Barbie falam sobre a liberdade de existir sem pedir desculpas, chegou a hora de falarmos sobre a liberdade de desejar, com um exemplo primoroso.
Jo March, de Adoráveis Mulheres (2019), jovem escritora que se recusa a limitar seus sonhos às expectativas impostas às mulheres de sua época. Existe força em meninas que sonham alto. Não a força espetacular das grandes batalhas, mas a coragem cotidiana de levar os próprios desejos a sério. Jo escreve quando esperam que ela se conforme. Ambiciona quando esperam modéstia. Insiste em imaginar uma vida maior do que aquela que lhe foi apresentada. Sua história continua atravessando gerações porque toca em uma experiência profundamente feminina: a de perceber que o mundo possui expectativas para nós e, ainda assim, escolher escutar a própria voz.
Temos Mérida, de Valente (2012), arqueira indomável que reivindica o direito de escolher o próprio destino. Ela recusa uma história que já estava traçada antes mesmo que pudesse opinar sobre ela. Sua rebeldia não nasce da rejeição ao amor, à família ou às tradições. Nasce da compreensão de que afeto não deveria exigir obediência irrestrita. E isso é lindo. Existe uma potência aterradora em personagens que reivindicam o direito de escolha. Elas lembram que autonomia não é egoísmo; é dignidade, e isso deve ser passado para nossas meninas.
E então existe Leia, da saga Star Wars, uma líder estratégica cuja coragem ajudou a redefinir o que uma princesa poderia representar na cultura popular.
Durante décadas, princesas ocuparam castelos, aguardaram resgates e serviram como recompensa ao final da jornada de algum herói. Leia surge em cena empunhando um blaster, liderando uma revolução e distribuindo respostas afiadas para qualquer homem que subestime sua inteligência. Sua presença alterou profundamente aquilo que uma princesa significava. Não uma figura a ser protegida, mas alguém disposta a proteger os outros. Não um símbolo de fragilidade, mas de estratégia, coragem e liderança.
O maior legado dessas personagens está justamente no fato de que elas não apontam para uma única direção. Nenhuma delas oferece um manual sobre como ser mulher.
Elas oferecem algo infinitamente mais valioso: possibilidades.
A menina que observa Elle aprende que pode ser brilhante e gostar de “coisas de menina”. A que acompanha Jo descobre que seus sonhos merecem espaço. A que cresce com Mérida entende que sua vida lhe pertence. A que encontra Leia percebe que liderança, coragem e inteligência nunca tiveram gênero. E a que brinca com Barbie aprende, ainda que sem perceber, que não precisa escolher apenas uma versão de si mesma.
Em tempos tão marcados por discursos que tentam reduzir mulheres a papéis estreitos, essas personagens permanecem importantes porque nos devolvem complexidade. Elas nos lembram que podemos ser contraditórias, múltiplas, ambiciosas, engraçadas, criativas, determinadas, delicadas, ferozes.
Podemos ocupar muitos lugares. Podemos desejar muitas coisas. Podemos escrever a própria história sem precisar caber na imaginação de ninguém. Podemos ser uma mulher que inspire meninas a serem quem elas quiserem.
