O monstro é o espelho da matrix humana em “A Forma da Água”

Concorre com treze indicações ao OSCAR:

Melhor filme, Melhor diretor, Melhor atriz (Sally Hawkins), Melhor roteiro original, Melhor ator coadjuvante (Richard Jenkins), Melhor Fotografia, Melhor Atriz coadjuvante (Octavia Spencer), Melhor Direção de arte, Melhor Figurino, Melhor Edição, Melhor Trilha sonora, Melhor Mixagem de som, Melhor Edição de som

Fonte: goo.gl/LGzCjJ

Uma fábula romântica ao estilo a Bela e a Fera? Um libelo contra o racismo, a intolerância e a demonização do outro em plena Era Trump? “A Forma da Água” (“The Shape of Water”, 2017) de Guillermo Del Toro, com 13 indicações ao Oscar, é tudo isso, mas vai muito além da estória de amor e de uma metáfora do contexto político atual. O “monstro”, um homem anfíbio capturado na Amazônia para servir de cobaia em um complexo científico-militar no auge da Guerra Fria, é o espelho da incomunicabilidade humana. Cada personagem vê na criatura o reflexo do seu drama interior – solidão, racismo, obsolescência etc. Preso nessa matrix de signos, o homem não consegue ver aquilo que está lá fora – outros seres que vivem em toda a sua especificidade e dignidade.

Embora cercado por diferentes formas de vida, tanto na Terra como no Universo (os diversos mundos, dimensões e formas de vida que fogem a nossa própria noção de “inteligência” ou “propósito”) o homem insiste em se considerar só. E até criou um Deus para se imaginar à imagem e semelhança dele. E ansioso, sai à procura de vidas que também tenham a imagem e semelhança humana.

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Frustrado, transforma os outros seres e planetas em espelhos das suas próprias projeções psíquicas – carências, desejos, sonhos, medos etc. Do cãozinho doméstico às planícies de Marte, enxergamos neles o que queremos: o cãozinho é humanizado pelo dono com diferentes penduricalhos de pet shop; enquanto nas planícies marcianas enxergamos ruínas de templos e estátuas de alguma civilização “inteligente” que se extinguiu.

Assim como a civilização humana, que, imaginamos, poderá um dia desaparecer assim como teria acontecido com uma suposta civilização marciana. Na solidão e indiferença do Universo.

Muitos críticos definem o filme A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) de Guillermo Del Toro (liderando a corrida ao Oscar, com 13 indicações) como uma estória de amor ao estilo A Bela e a Fera. Ou, para as críticas mais politizadas e combativas contra a Era Donald Trump, uma estória sobre racismo, intolerância e demonização do outro – a insensibilidade de negar dignidade a criaturas vivas. Assim como Trump faz com os imigrantes.

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O filme fala de tudo isso, mas o tema mais profundo de Del Toro é a solidão que parece definir a condição humana. Lembrando o filme de James Whayle de 1935, A Noiva de Frankenstein quando o monstro fala tristemente: “Sozinho: ruim; amigo: bom”.

O Sonho Americano

Ambientado em 1962, no auge da tensão da Guerra Fria e início da corrida espacial, A Forma da Água é um filme sobre monstros de todos os tipos: além da criatura prisioneira numa instalação militar (uma homenagem ao clássico de terror B O Monstro da Lagoa Negra, 1954, principalmente na sequência final), comunistas, negros, mulheres e todos formas de demonização do outro inventadas pelo “sonho americano” de uma sociedade de consumo que naquele momento crescia – o marido proprietário de um Cadillac; e a dona de casa feliz, subserviente ao marido e cercada por modernos eletrodomésticos e filhos com os brinquedos mais caros.

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Tudo gira em torno do monstro não apenas por uma questão narrativa: a criatura funciona como um espelho no qual cada personagem projeta e vê nele sua própria solidão. Na Amazônia, o monstro era tido como Deus pelos nativos. Capturado e levado para o centro da Guerra Fria (e da demonização política do outro) ele vira amante, aberração, cobaia na corrida espacial, cabeça de gado que precisa ser marcado etc.

Em muitos aspectos, A Forma da Água lembra o tema de Aventuras de Pi (2012) – coincidentemente tendo o elemento água como condutor da narrativa: o protagonista Pi descobre na solidão do oceano que o Universo é apenas o espelho dos nossos desejos e anseios – o tigre, o mar e o céu, seus únicos companheiros em um bote perdido em algum lugar do Pacífico – sobre o filme clique aqui.
E não é mera coincidência. Afinal, a água pode ter qualquer forma que desejarmos.

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O Filme

A narrativa acompanha a “princesa sem voz”, Elisa (Sally Hawkins), uma jovem muda que junto com sua amiga negra Zelda (Octavia Spencer) trabalham como funcionarias da limpeza nos túneis subterrâneos de um complexo científico-militar destinado a pesquisas espaciais – especificamente sobre as possibilidades da sobrevivência humana nas condições adversas do espaço.

O chefe da segurança chamado Strickland (Michael Shannon) é um racista, psicótico e misógino cuja vida é guiada pela realização do sonho americano: ter um Cadillac, ter uma casa de subúrbio com uma esposa subserviente e que fique muda quando façam sexo.

Sentindo-se só em sua rotina diária (toda manhã masturba-se na banheira, liga um temporizador para o ovo cozido ficar no ponto e não se atrasar para o trabalho), Elisa divide o apartamento com um velho desenhista (Giles – Richard Jenkins) que já teve seus bons tempos como ilustrador em agências de publicidade – agora, vê o seu trabalho desaparecer com o domínio das fotografias sobre as ilustrações publicitárias.

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Em meio à paranoia com espionagem russa, chega ao complexo militar uma criatura capturada na Amazônia e que poderá ser uma preciosa cobaia em viagens espaciais, assim como foi a cadela Laika para os russos: um homem anfíbio, acorrentado em um tanque e ocasionalmente torturado por Strickland – ele simplesmente não se conforma em existir um “monstro” que não seja à imagem e semelhança de Deus.
E ao longo do filme, vamos percebendo que ele trata de forma análoga tanto mulheres quanto negros.

Enquanto isso, Elisa é atraída pela criatura e começa uma campanha secreta para ganhar sua confiança: oferece seus ovos cozidos, ensina-lhe a linguagem dos sinais, além de levar um toca discos portátil para tocar discos de Benny Goodman. Elisa está apaixonada pelo monstro, por ver nele uma criatura tão solitária e incomunicável como ela. E prisioneiro no complexo militar, assim como ela na sua rotina do emprego.

Comunicação e simbologia das cores

Duas coisas chamam a atenção em A Forma da Água: primeiro, as sequências das primeiras tentativas de comunicação e posterior namoro entre o “monstro” e Elisa. Entre as melhores do cinema, lembrando o filme The Black Stallion (1979) quando o menino náufrago tenta domar um cavalo selvagem, quando as crianças tentam se comunicar com o ET no filme clássico de 1982 ou as sequências de comunicabilidade e namoro de uma viúva com um alienígena recém-chegado à Terra em Starman (1984).

Fonte: goo.gl/uxeXVZ

E segundo, a importância simbólica das cores, lembrando o magistral trabalho de Gary Ross em A Vida em Preto e Branco (Pleasantville, 1998). Em diferentes contextos no filme fala-se que o verde é “o futuro” – o mundo subaquático de onde veio a criatura, os tons de cores do apartamento de Elisa são verdes. Contrastando com o mundo amarelo em tons pastéis da casa de subúrbio do sonho americano de Strickland.

Uma impecável exploração do simbolismo e psicologia das cores: na simbologia cromática o amarelo é a cor mais contraditória – é a cor do otimismo, mas ao mesmo tempo é a cor da inveja, mentira e traição. O enxofre, associado ao demônio, é amarelo.
Enquanto o verde é a cor da esperança, fertilidade, e da toterância – leia HELLER, Eva, A Psicologia das Cores, Editora GG BR, 2013.

Fonte: goo.gl/aHDBQA

O drama semiótico humano

Mas o núcleo da narrativa é a representação do verdadeiro drama semiótico humano que cria a solidão em um Universo que explode de vida: a persistência humana em signalizar tudo o que vê e sente, transformando tudo em espelho das próprias representações interiores.

Strickland vê na criatura um “monstro” – para ele tudo aquilo que representa russos, comunistas, mulheres, negros etc. Os cientistas veem nele apenas uma cobaia sem dignidade, pronta para ser dissecada. Elisa projeta na criatura sua própria solidão e imagina o ser anfíbio dançando com ela em números musicais românticos do cinema (seu apartamento está em um prédio cujo andar térreo é uma sala de cinema). O desenhista desempregado Giles vê na criatura seu próprio drama de obsolescência.

Fonte: goo.gl/ALufyN

E os próprios indígenas na Amazônia o representavam como um Deus.
Preso nessa matrix de signos, o homem não consegue ver aquilo que está lá fora – aquilo que vive em toda a sua dignidade e especificidade.
Por isso, ao lado do homem anfíbio, Elisa é o centro da narrativa – a “princesa sem voz”. É a metáfora dessa incomunicabilidade humana, paradoxalmente cercado por inúmeras formas de comunicação como o cinema.

FICHA TÉCNICA

A FORMA DA ÁGUA

Fonte: goo.gl/4BRzXH

Diretor: Guillermo del Toro
Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Octavia Spencer
Gênero: Ficção Científica
Ano: 2017

Wilson Roberto Vieira Ferreira
Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi. Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus.