O Rei Leão sob a perspectiva da Psicologia Analítica

O Rei Leão é um remake do desenho animado O Rei Leão, de 1994. E foi inspirado em partes da obra Hamlet, de William ShakespeareO longa retrata a historia do leão Simba, que é o herdeiro do trono da Pedra do Reino em uma floresta africana, e sua jornada enfrentando os perigos inerentes a essa função.

Para iniciar a análise do filme é importante analisarmos a figura do leão. O leão é tido como o rei dos animais. Na alquimia ele desempenha um papel muito importante. Ele é um aspecto do Rei alquímico. O rei, nos tempos mais antigos, era considerado a manifestação de Deus na Terra. Psicologicamente sua figura pode ser associada à imagem do Self, aquele centro regulador da psique que se torna uma representação da atitude coletiva nos contos de fadas.

Von Franz (2005) diz que o rei incorpora um princípio divino, do qual depende o bem-estar físico e psíquico de toda a nação. É o princípio divino na sua forma mais visível, é sua encarnação e sua moradia. Nos contos de fadas e na alquimia, o Rei precisa sempre ser renovado. Ele ora se apresenta velho, ou doente, ou com algum problema, e precisa de um substituto a altura para o cargo. Ele precisa morrer!

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Conforme Von Franz (1984), o leão representa a natureza ctônica, o aspecto terreno do símbolo do Rei, pois ao morrer o Rei vai para o interior da terra, onde será renovado. Ele é um símbolo solar, portanto segue a trajetória do Sol, tendo que morrer de tempos em tempos. Por isso, o filme retrata o drama arquetípico, onde os aspectos da consciência precisam de renovação constante. A descida ao mundo dos mortos, o confronto com a sombra e a posterior renovação é algo essencial para todo processo de transformação, tanto coletivo, como individual. A tônica do filme é justamente o ciclo morte e vida. Algo muito bem explicitado na fala do rei Mufasa para seu filho Simba sobre os ciclos da vida e a morte como processo de transformação.

O filme inicia com o nascimento de Simba, filho do Rei Mufasa, o que traz logo a inveja de Scar, irmão do Rei. O filme é baseado em Hamlet de Shakespeare. Na peça Claudio mata seu irmão, o Rei, e casa-se com a rainha, Gertrudes. O filho do Rei, o príncipe Hamlet, é atormentado pelo fantasma do pai para vingar a família e retomar o trono e a honra, matando o criminoso. Após muita hesitação, Hamlet realiza o desejo paterno (vindo do além-túmulo).

O drama do filme e da peça retrata a jornada do herói, onde ele precisa encarar a sombra paterna. Vemos isso em várias sagas, como por exemplo, Star Wars, onde o heroi Luke Skywalker precisa matar o pai. O irmão do rei Scar, com inveja, monta uma armadilha para tomar o poder, matando Mufasa e ainda fazendo o pequeno Simba se sentir culpado pela morte do pai.  Scar simboliza a sombra do rei. Aliás, um tema arquetípico esse dos dois irmãos, o bom e justo, e o ruim e invejoso. 

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Simba é o herói da trama, ele irá viver a jornada típica de vários heróis, onde precisa se afastar de sua tribo, descobrir seus talentos, conhecer seus aliados, provar o seu valor e retomar o seu lugar de direito. Já adulto, é então convencido da sua missão: tirar do poder o usurpador e restabelecer a ordem no reino.  

Sem o rei legitimo todo o reino passa pela devastação, pois um rei saudável é responsável pela fertilidade da terra e do povo. Com a morte do rei sua sombra faz a aparição da sombra do rei. A ganância, a inveja e a morte se apresentam. Isso significa que de tempos em tempos a consciência é embotada pelo principio do poder (leão). Um obscurecimento da consciência, onde a ganância, o assassínio, o crime, a cobiça fazem sua aparição. 

A união do usurpador com as hienas para subir ao trono é bastante simbólico. Elas representam na historia a escória da sociedade, o que há de mais repulsivo. A fome delas é infinita, ou seja, a ganância é desmedida. O herói então deve provar ser capaz de enfrentar essa sombra de frente. É a partir do enfrentamento dessas forças sombrias que o ser humano atinge um novo patamar de consciência e maturidade.

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O filme fala dos ciclos da vida. E o conflito e o drama fazem parte desse ciclo. Mufasa deixa isso bem claro em seu diálogo com o filho. Ele simboliza o rei do mundo, onde toda a criação está de acordo com seus princípios, inclusive a vida de Scar (o usurpador).

Em diversos mitos e contos de fadas, o tesouro é guardado por um leão, ou um dragão, ou uma serpente. Ou seja, o conflito é inerente ao ciclo da vida e a condição para se chegar a totalidade e a sabedoria. Os reis anteriores a Mufasa fizeram isso, e nesse momento ele prepara o filho para esse importante rito de iniciação.

Von Franz (1984) diz: “Não se pode chegar perto do Self, e do significado da vida, sem que se passe pelo fio da navalha da cobiça e das trevas, e dos aspetos sombrios da personalidade.” No processo de individuação, um reino precisa ser quebrado e posteriormente reconstruído em um novo patamar. A regência da consciência precisa de cada vez mais conhecimento dos aspectos sombrios. É o momento onde se perde a sabedoria e somos tomados pelo usurpador.

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A sombra não pode se manter tempo de mais reprimida. É nesse embate com ela que podemos crescer. Conforme Von Franz (1006):

“O caso é que, se reprimirmos a sombra, veremos apenas meia pessoa. É por isso que há na literatura essas histórias em que o diabo rouba a sombra de alguém. A pessoa acaba ficando nas garras do diabo. Precisamos da sombra. Ela nos conserva com os pés no chão, ela nos relembra da nossa incompletude e nos proporciona traços complementares. Seríamos na verdade muito pobres se fôssemos apenas o que imaginamos ser.”

 

Contudo, aquela voz do pai justo e o herói também estão presentes interiormente no ser humano. Por mais que Simba fuja com sentimento de culpa e vá viver de forma despreocupada em um paraíso, a voz do pai está lá. A voz do seu chamado continuará a ecoar. Essa voz se fez presente na figura feminina da leoa Nala.  Nala como uma figura de anima, uma guia como Ariadne, conduz o heroi ao seu destino. Ao que lhe cabe de fato. Ela representa a alma do heroi, sua fonte de inspiração. 

Simba após seu reencontro com Nala entra na selva, e encontra Rafiki, um primata conselheiro de Mufasa. Rafiki diz à Simba que Mufasa está “vivo” e leva-o a uma lagoa. Simba vê o “pai” nele mesmo e percebe que deve tomar o seu lugar de direito como o rei das Terras do Reino. Ele não pode fugir de seu passado e seu destino.

Rafiki representa o velho sábio, o mestre superior e protetor. Ele é um daimon imortal que penetra com a luz do sentido a obscuridade caótica da vida. Ele é o iluminador, o professor e mestre, um psicopompo (guia das almas) (Jung, 2000). Esse é o momento que a sabedoria volta a atuar e nos mostrar o caminho de nossa individuação. Ela pode aparecer personificada em um mestre, ou terapeuta, ou simplesmente em um sonho que nos reconecta novamente conosco. 

Simba se reconecta com o reino e a sabedoria dentro de si mesmo. Com isso ele pode confrontar a sombra e restabelecer a situação saudável do reino. Ou seja, o filme nos mostra que a consciência precisa desses ciclos para atingir um novo patamar. E que a sabedoria está em aceitar esses confrontos necessários para nosso crescimento. Assim como na jornada do heroi, precisamos buscar nossos aliados (os dons que existem dentro de nós) e aceitar a voz interior que nos mostra (mesmo em meio ao caos) qual é o verdadeiro caminho da nossa individuação. 

REFERÊNCIAS: 

BOA, F & VON FRANZ, M. L. O caminho dos sonhos. Cultrix. São Paulo, 1996.

JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 2 ed. Petrópolis, RJ : Vozes, 2000.

VON FRANZ, M. L. A interpretação dos contos de fada. 5 ed. Paulus. São Paulo: 2005.

VON FRANZ, M. L. A Individuação dos contos de fada. 3 ed. Paulus. São Paulo: 1984.

FICHA TÉCNICA DO FILME

Fonte: encurtador.com.br/aflD1

O REI LEÃO
Diretor: 
Jon Favreau
Elenco: 
Ícaro Silva,Donald Glover,Beyoncé Knowles-Carte
Gênero: 
Aventura,Animação
Ano:
2019

Hellen Reis Mourão
Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada. Colaboradora do (En)Cena.