Liderança na Psicologia: a trajetória de Laís Amaral no CRP-23

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A trajetória profissional na Psicologia é frequentemente marcada por encontros entre experiências pessoais, oportunidades institucionais e o compromisso ético com o cuidado. Nesse contexto, pensar a liderança dentro dos Conselhos Regionais implica compreender os desafios coletivos da categoria e da garantia de direitos à população.

Nesta entrevista, Lais Karolinny Almeida Amaral compartilha seu percurso desde os primeiros contatos com práticas de escuta ainda na adolescência até sua atuação como presidente do CRP-23.

(En)Cena –  Laís, olhando para sua história, o que te motivou a escolher a psicologia como profissão?

Lais –  Desde criança, sempre tive muitos sonhos e interesses variados: queria ser bailarina, aeromoça e, mais tarde, advogada, porque sempre gostei de “uma boa briga”, no bom sentido. Mas aos 12 anos, na escola, participei de um grupo de protagonismo juvenil que fazia escuta, acolhimento e orientação de adolescentes em vulnerabilidade, com temas como exploração sexual, gravidez precoce e uso de drogas. Foi ali que percebi minha habilidade e desejo de ajudar pessoas.

No ensino médio, visitei feiras de profissões, incluindo o estande de Psicologia da Ulbra. Uma estudante me mostrou as diversas áreas da Psicologia e suas possibilidades de atuação. Desde o primeiro ano do Ensino Médio, tive certeza de que essa seria minha primeira opção. Fiz vestibular: primeira opção Psicologia, segunda Serviço Social e terceira Direito e passei para Psicologia.

(En)Cena –  Você pode nos contar como foi o início da sua trajetória até chegar ao CRP-23?

Lais –  Meu início profissional foi conturbado. Durante a faculdade, tive uma gravidez no quinto período e, ao me formar, estava com uma filha pequena. As oportunidades de emprego eram restritas e não podia me mudar para outra cidade sem rede de apoio, então fiquei cerca de um ano desempregada.

Atuei no CRAS no primeiro ano de trabalho e depois fui atuar em clínica com a supervisão de amiga,  e participei de concursos: primeiro o do CRP-23, ficando em terceiro lugar, mas apenas uma vaga imediata estava disponível; depois, concursos no município e no sistema socioeducativo, com aprovações, mas apenas no cadastro de reserva. 

Em 2015, surgiu a oportunidade de assumir a função de fiscal no CRP-23, após orientação do meu pai para aproveitar a oportunidade. Assim começou minha trajetória efetiva no Conselho, com tomada de posse e início do trabalho que marcaria minha carreira.

Meu interesse em participar da gestão do Conselho surgiu a partir de uma mudança na minha trajetória profissional. Em 2022, ano em que solicitei meu desligamento do Conselho para assumir um novo concurso no sistema socioeducativo do Estado do Tocantins que também era um ano eleitoral, ainda não foi possível compor uma chapa, sobretudo por uma questão temporal. Esse projeto se tornou viável apenas no ano passado, após um processo de amadurecimento e a construção do grupo com o qual eu gostaria de desenvolver essa proposta de gestão

(En)Cena –  Em que momento você percebeu que gostaria de assumir um papel de maior liderança dentro do Conselho? 

Lais –   Na época em que atuava como fiscal, nunca havia imaginado ocupar a presidência do Conselho. Eu amava meu trabalho, estava em contato com a construção da Psicologia no Brasil e era profundamente motivada pela função de orientação aos colegas.

O desejo de assumir um papel mais amplo surgiu em 2022, quando houve a possibilidade de criar uma chapa para a gestão do Conselho. Percebi que poderia contribuir de forma diferente, aplicando minha experiência de seis anos em fiscalização e orientação, estruturando projetos e ações para apoiar psicólogos e fortalecer a categoria.

(En)Cena –  Você já atuou como fiscal e hoje ocupa a presidência do CRP-23. Como foi sua experiência como fiscal?

Lais –  Atuar como fiscal foi extremamente enriquecedor. A função exige conhecimento profundo da legislação profissional e permite contato com psicólogos de diferentes áreas e regiões, estimulando constante estudo e aprendizado.

Tive a oportunidade de participar da elaboração de resoluções, como a 006/2019 sobre documentos psicológicos, e de grupos de trabalho do Conselho Federal de Psicologia, incluindo contribuições para a regulamentação da psicoterapia, com foco em contratos e orientações de prática profissional.

Sempre busquei que a fiscalização fosse uma experiência de orientação e acolhimento, ajudando os colegas a adequarem sua prática às legislações, sem agir de forma desproporcional ou punitiva.

(En)Cena –  Quais aprendizados mais marcaram esse período?:

Lais – O maior aprendizado foi perceber o valor das trocas com os psicólogos, conhecer diferentes condições de trabalho e saber lidar com a diversidade da prática profissional. Além disso, participei de grupos de trabalho e reuniões de elaboração de resoluções, o que me permitiu compreender o funcionamento do sistema Conselhos e sua importância para a Psicologia no Brasil.

Aprendi também que é fundamental que o psicólogo se posicione sobre sua prática profissional, impondo limites, registrando recomendações e exigências quando necessário, para que a qualidade do serviço prestado à sociedade seja garantida.

(En)Cena –  O que mais mudou para você na transição de fiscal para presidente?

Lais –  Ser presidente é muito mais desafiador do que ser fiscal. A principal diferença é a amplitude das responsabilidades e a liberdade para executar projetos e ideias que antes dependiam da autorização da gestão.

Minha experiência como fiscal me deu visão estratégica e compreensão profunda das necessidades da categoria, permitindo que, agora como gestora, eu contribua de forma mais significativa para o planejamento e execução de políticas e ações do Conselho.

(En)Cena –  Quais têm sido os maiores desafios de estar nessa posição de liderança?

Lais –  Um dos principais desafios está na gestão das expectativas da categoria quanto ao papel do Conselho, em diálogo com as demandas institucionais, tendo em vista que as atribuições do órgão são legalmente delimitadas, o que, por vezes, impõe limites ao atendimento integral dos anseios dos psicólogos.

(En)Cena –  Hoje se fala muito sobre saúde mental, mas nem sempre sobre acesso real ao cuidado. Na sua visão, quais são os principais obstáculos para que a população tenha acesso à psicoterapia de qualidade?

Lais –  A pandemia trouxe um aumento de demandas relacionadas à saúde mental. As políticas públicas ainda são insuficientes e grande parte da população não consegue acessar serviços de psicoterapia privados.

Além do acesso financeiro, a qualidade do serviço é um desafio, já que alguns profissionais atuam com pouca capacitação ou responsabilidade. A Psicologia exige constante aperfeiçoamento e supervisão para garantir que questões pessoais do psicólogo não impactem negativamente o atendimento.

Outro ponto é a estrutura de trabalho: psicólogos da saúde podem ter condições de trabalho precárias, salários insuficientes e dificuldade de investir em capacitação e psicoterapia própria, afetando diretamente a qualidade do serviço prestado.

(En)Cena –  Ao longo da sua trajetória, o que a experiência no Conselho te ensinou sobre a prática profissional em Psicologia?

Lais –  Aprendi que é essencial que o psicólogo esteja em constante aperfeiçoamento e se posicione quanto às suas condições de trabalho, limitações e necessidades técnicas.

A experiência de fiscalização mostrou que muitos psicólogos iniciantes não se organizam administrativamente, têm dificuldade em definir valor justo pelo serviço e enfrentam desafios ao elaborar documentos psicológicos com fundamentação adequada.

O Conselho ensina que um bom psicólogo precisa equilibrar ética, técnica, limites pessoais e compromisso social, sempre zelando pela qualidade do atendimento à população.

(En)Cena –  Quais dificuldades ou erros você percebe com mais frequência  entre psicólogos em início de carreira? 

Lais –  Entre iniciantes, vejo insegurança profissional, crenças equivocadas sobre remuneração e sobre a necessidade de atender todas as demandas, o que dificulta o direcionamento da carreira. Muitos não conhecem a tabela de honorários e cobram valores muito abaixo do justo, comprometendo sua sustentabilidade e a valorização da profissão. Também observo falhas na elaboração de documentos psicológicos, que frequentemente geram problemas éticos e disciplinares.

(En)Cena –  Para estudantes e recém-formados, que tipo de profissional você acredita que o CRP-23 e a sociedade precisam hoje?

Lais –  O Conselho e a sociedade precisam de psicólogos que tenham compromisso social, defesa dos direitos humanos e responsabilidade ética e técnica.

Um bom profissional deve conhecer suas limitações pessoais, técnicas e éticas, estar em constante aperfeiçoamento, valorizar sua atuação e zelar pela qualidade do serviço prestado, garantindo que o atendimento psicológico atenda às necessidades reais da população.

ENCERRAMENTO

Agradecemos à Laís pela disponibilidade em compartilhar sua trajetória e reflexões, contribuindo para o fortalecimento da Psicologia e para a formação de novos profissionais mais conscientes e comprometidos com a ética e o cuidado.

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