A ilusão do código: o capitalismo digital e a falsa empatia

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O século XXI vem sendo marcado como a era em que a fronteira entre o humano e o sintético se tornou cada vez mais sutil. É natural que atualmente, com um mundo repleto de telas e uma rotina recheada de algoritmos, as pessoas reflitam mais sobre a própria essência e importância. Quando se analisa o comportamento atual da internet, moldando a identidade dos usuários através das redes sociais e tentando programar emoções, podemos notar um paradoxo: quanto mais tentamos automatizar o comportamento humano, mais evidenciamos a pobreza dessas simulações.

O artigo “O que você escreve no Twitter define quem você é?” (Fernandes, 2013)  apresenta muitos paralelos com o conceito da era do capitalismo de vigilância, termo cunhado pela socióloga Shoshana Zuboff (2019) para definir uma realidade em que os dados são adquiridos pela vigilância e então monetizados. Hoje, as identidades digitais são construídas por meio da raspagem de dados em larga escala. Quando um script percorre as estruturas de uma rede social para extrair postagens, curtidas e interações, ele traduz a complexidade humana em matrizes de informação estruturadas.

Fonte: Thunderbit (2026)

Algoritmos de análise de sentimento processam esses dados para categorizar as emoções e pensamentos do usuário, mas, graças às regras rígidas da programação, falham constantemente diante de nuances como a ironia, o sarcasmo e as particularidades de cada um. Casos como o escândalo Facebook-Cambridge Analytica, em que milhões de eleitores estadunidenses foram manipulados (Cambridge Analytica, 2019) , demonstraram como essa extração de dados pode ser usada para perfilar e controlar populações, o que mostra que talvez o que escrevemos online não é necessariamente um espelho de quem somos na realidade, mas sim o modelo estatístico que o mercado pode explorar.

Essa redução do humano a um conjunto de parâmetros mensuráveis nos leva a um outro ponto crítico, abordado no texto “Robôs no cuidado a idosos: a empatia pode ser programada?” (Fernandes, 2022) . A resposta curta é: não. O que se programa é uma espécie de atuação empática, uma simulação baseada em gatilhos e respostas configuradas.

Fonte: Gettyimages (2013)

Quando observamos o uso do Paro (um robô terapêutico em formato de foca, muito utilizado no Japão e na Europa para interagir com idosos que sofram com demência), notamos que ele reage ao toque e à voz, diminuindo os níveis de estresse e ansiedade dos pacientes (Šabanović et al., 2013). O impacto social e terapêutico é inegável e muito positivo. Contudo, do ponto de vista do processamento, o robô está apenas executando uma rotina: se o sensor de pressão for ativado, execute o comando de emitir um som agradável. A empatia real exige vulnerabilidade compartilhada, algo que uma máquina que é imune à dor e tristeza é incapaz de experimentar. A psicóloga Sherry Turkle (2011), em sua obra Alone Together, alerta para os perigos do que ela chama de “momentos robóticos”: situações em que aceitamos simulações de conexão porque nos sentimos muito sobrecarregados ou solitários para lidar com as demandas de um relacionamento humano real.

Fonte: Elaborada pelo autor com uso da inteligência artificial Gemini (2026)

Exemplos recentes dessa terceirização do afeto podem ser vistos na ascensão de aplicativos de IA conversacional, como o Replika. Existem vários relatos de usuários que desenvolveram laços emocionais profundos com seus chatbots, que são treinados em redes neurais para espelhar a personalidade do usuário e oferecer validação incondicional. Quando a empresa desenvolvedora do Replika alterou o código em 2023 para restringir interações mais íntimas, alguns usuários se revoltaram (Pinheiro, 2023), evidenciando a formação de um vínculo e dependência reais com um algoritmo que é sempre suscetível às diretrizes e vontades de uma corporação. O Replika registra cerca de 40 milhões de usuários, sendo a maioria jovens. 

Tabela 1 – Uso de Companheiros de IA por Jovens Estadunidenses (2025)
Fonte: Common Sense Media (2025).

De acordo com pesquisa da ONG Common Sense Media (2025), 72% dos jovens estadunidenses já usaram um companheiro de IA, com 52% deles sendo usuários frequentes. Se a nova geração está cada vez mais interessada em simulações ao invés de pessoas reais, o que isso diz sobre o futuro das relações interpessoais?

O desenvolvimento tecnológico possui um enorme potencial para mitigar dores da nossa sociedade. A tecnologia pode e deve ser usada para otimizar e melhorar a vida e a rotina humana, auxiliando na solução de nossos problemas e no nosso desenvolvimento como indivíduos e sociedade. No entanto, o limite dessa integração deve ser pautado pela ética e pela compreensão profunda de que a experiência humana não é um algoritmo que pode ser decifrado ou replicado.

Fonte: Shotdeck (2017)

Logo, a tentativa de codificar a empatia ou de extrair a essência humana através de dados de redes sociais revela mais sobre o nosso desejo de controle e a epidemia de solidão que vivemos do que sobre a capacidade das máquinas em nos compreender. A tecnologia deveria ser melhorada para ser nossa ajudante, não uma substituta incompleta.

Referências:

CAMBRIDGE Analytica se declara culpada em caso de uso de dados do Facebook. G1, Rio de Janeiro, 9 jan. 2019. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2019/01/09/cambridge-analytica-se-declara-culpada-por-uso-de-dados-do-facebook.ghtml. Acesso em: 22 jun. 2026.

COMMON SENSE MEDIA. Talk, Trust, and Trade-Offs: How and Why Teens Use AI Companions. San Francisco: Common Sense Media, 2025. Disponível em: https://www.commonsensemedia.org/sites/default/files/research/report/talk-trust-and-trade-offs_2025_web.pdf. Acesso em: 22 jun. 2026.

FERNANDES, Parcilene. O que você escreve no Twitter define quem você é? (En)Cena, Palmas, 21 nov. 2013. Disponível em: https://encenasaudemental.com/comportamento/tecnologia/o-que-voce-escreve-no-twitter-define-quem-voce-e/. Acesso em: 22 jun. 2026.

FERNANDES, Parcilene. Robôs no cuidado a idosos: a empatia pode ser programada? (En)Cena, Palmas, 7 mar. 2022. Disponível em: https://encenasaudemental.com/comportamento/tecnologia/robos-no-cuidado-a-idosos-a-empatia-pode-ser-programada/. Acesso em: 22 jun. 2026.

GETTY IMAGES. Paro the seal robot. [Fotografia]. Yamaguchi Haruyoshi, 2013.

GOOGLE. Gemini. Ferramenta de inteligência artificial generativa. Mountain View: Google, 2026. Disponível em: https://gemini.google.com. Acesso em: 22 jun. 2026.

PINHEIRO, G. Replika: remoção de habilitação para dramatizações eróticas desagrada parcela de usuários da IA. Mundo Conectado, 2023. Disponível em: https://www.mundoconectado.com.br/tecnologia/replika-remocao-de-habilitacao-para-dramatizacoes-eroticas-desagrada-parcela-de-usuarios-da-ia/. Acesso em: 18 jun. 2026.

ŠABANOVIĆ, Selma et al. PARO robot affects diverse interaction modalities in group sensory therapy for older adults with dementia. In: IEEE INTERNATIONAL CONFERENCE ON REHABILITATION ROBOTICS, 2013, Seattle. Proceedings […] Seattle: IEEE, 2013. p. 1-6.

SHOTDECK. A Crise de Humanidade Entre Real e Virtual (Blade Runner 2049). Shotdeck, 2017. Disponível em: https://shotdeck.com/assets/images/stills/thumb/small_047QOOTV.jpg. Acesso em: 22 jun. 2026.

THUNDERBIT. Como Dominar a Extração de Dados em Redes Sociais com Scraping. Thunderbit, 2026. Disponível em: https://thunderbit.com/pt/blog/master-social-media-scraping. Acesso em: 22 jun. 2026.

TURKLE, Sherry. Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. Nova York: Basic Books, 2011.

ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019.

 

Observação: artigo desenvolvido na disciplina Tecnologias Criativas, ministrada pela Professora Parcilene Fernandes. A disciplina integra o Programa Extensionista Interdisciplinar Tecnologias para a Vida dos cursos de Ciência da Computação e Engenharia de Software da Ulbra Palmas. 

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