Sabe aquela sensação bizarra de estar conversando com um amigo sobre um assunto qualquer e, logo em seguida, o algoritmo “adivinha” o tema e enche a sua tela com anúncios relacionados? Ou então a forma como os vídeos parecem ser perfeitamente escolhidos para te prender ali, rolando a tela infinitamente, justamente naquele domingo à tarde em que você não tem nada para fazer? Isso não é mágica ou mera coincidência: é o modelo de negócio das plataformas digitais (G1, 2021).
Contrário ao que muitos pensam, o que acontece nos bastidores das telas não é aleatório, mas sim puramente engenharia comportamental (SALCEDO, 2021). Essas redes utilizam sistemas de recomendação complexos que não olham apenas para o que você pesquisa ativamente. Eles cruzam centenas de variáveis: se você demorou dois segundos a mais antes de pular um vídeo, a velocidade do seu scroll, sua localização e até o horário do dia em que você costuma estar psicologicamente mais vulnerável a continuar no aplicativo. Todo esse rastro de dados serve para construir um perfil focado em uma única métrica: maximizar o seu tempo de tela, independentemente de como esse consumo excessivo afeta a sua saúde mental.
Figura 1: Usuário diante de múltiplas telas e feeds digitais simultâneos

Fonte: Imagem criada por Inteligência Artificial (ChatGPT/OpenAI), 2026
A dopamina como produto
O sucesso desse sistema tem um gatilho fisiológico muito claro: a dopamina. Como esse neurotransmissor regula a nossa motivação e a busca por recompensa, cada curtida, comentário ou notificação funciona como uma pequena dose de prazer imediato (LEMBKE, 2022). Não é à toa que a ativação cerebral causada pelas redes sociais já foi comparada por pesquisadores à de apostadores em caça-níqueis (LEMBKE, 2022).
Essa semelhança passa longe de ser acidental, pois as plataformas se apropriaram intencionalmente da lógica de “recompensa variável” típica dos cassinos (LEMBKE, 2022). Como o usuário nunca sabe que tipo de conteúdo vai aparecer ao atualizar a tela, o cérebro fica condicionado a continuar tentando.
Durante o Congresso da ANAHP de 2025, o pediatra Daniel Becker foi categórico ao classificar o impacto da internet e das redes sociais como o de uma “droga potente”. Ao analisar o modelo de negócio das big techs, Becker apontou que a atuação dessas empresas se baseia, essencialmente, na fabricação diária de vícios (ANAHP, 2025).
Figura 2: Uso de smartphone em ambiente escuro, evidenciando o engajamento contínuo.

Fonte: Imagem criada por Inteligência Artificial (ChatGPT/OpenAI), 2026
Para piorar, o sistema prioriza conteúdos específicos para nos manter conectados. Um estudo publicado por Vosoughi, Roy e Aral (2018) demonstrou que informações falsas têm 70% mais chances de serem replicadas na internet do que as verdadeiras. Na prática, isso explica por que o algoritmo frequentemente prioriza conteúdos que gerem raiva, medo ou indignação em vez de debates neutros, equilibrados e complexos.
Quando a personalização vira câmara de eco
A personalização dos algoritmos tem um lado útil, já que facilita a descoberta de conteúdos alinhados aos interesses individuais. O problema real surge quando isso cria as chamadas “câmaras de eco” (MOTTA; LOBO; NEUFELD, 2025). Nessas bolhas digitais, o usuário só recebe postagens que confirmam suas crenças e sentimentos pré-existentes. Se uma pessoa está enfrentando um quadro de ansiedade, seu feed pode se transformar em um mar de gatilhos emocionais; se busca aprovação constante, encontra mais motivos para continuar dependente da validação digital (PARISER, 2012).
Figura 3: Usuário demonstrando fadiga e preocupação ao checar o celular no escuro.

Fonte: Imagem criada por Inteligência Artificial (ChatGPT/OpenAI), 2026
Pesquisas recentes sobre o comportamento da nova geração apontam uma correlação preocupante: os casos de ansiedade e depressão entre adolescentes explodiram na última década, coincidindo exatamente com o período em que os smartphones dominaram o cotidiano (HAIDT, 2024). Embora parte da comunidade científica peça cautela antes de culpar exclusivamente as telas, já que fatores socioeconômicos e o isolamento também possuem peso, o incentivo à comparação social constante promovido pelas redes agrava consideravelmente a situação mental dos jovens (PORVIR, 2026; WHO / OMS, 2024).
O que os dados revelam sobre nós e quem os usa
Outro ponto crítico é o nível de intimidade que essas plataformas detêm sobre as emoções humanas. Vazamentos de documentos de uma grande rede social revelaram que os sistemas eram capazes de identificar os momentos exatos em que os usuários mais jovens se sentiam inseguros ou vulneráveis, cogitando inclusive o uso dessa fragilidade para o direcionamento de anúncios publicitários altamente segmentados (G1, 2021).
Isso ganha contornos ainda mais graves no cenário nacional, dado que o brasileiro passa, em média, quase quatro horas por dia rolando o feed, posicionando o país entre os maiores consumidores de redes sociais do mundo (KEMP, 2025). Todo esse tempo de conexão não é neutro: cada minuto gera novos dados e torna o sistema mais inteligente para explorar vulnerabilidades e estender o engajamento.
É possível uma relação mais saudável?
Diante desse panorama, defender a simples exclusão dos aplicativos é uma alternativa irrealista, visto que eles também atuam como espaços essenciais de conexão, trabalho e informação (BURNELL et al., 2024). A verdadeira chave reside na educação digital: compreender os mecanismos pelos quais somos afetados é o primeiro passo para estabelecer limites saudáveis.
Figura 4: Jovem guardando o celular no bolso enquanto caminha em um parque ao ar livre.

Fonte: Imagem criada por Inteligência Artificial (ChatGPT/OpenAI), 2026.
Em vez de focar apenas em proibições rígidas, especialistas em saúde mental sugerem uma mudança ativa na forma de consumo (MOTTA; LOBO; NEUFELD, 2025). Isso envolve priorizar interações no mundo real, limitar o acesso a conteúdos que estimulem a comparação social depreciativa e exercer maior intencionalidade ao abrir um aplicativo, evitando navegar no modo automático (MACKENZIE, 2024; MOTTA; LOBO; NEUFELD, 2025).
No fim das contas, o grande desafio contemporâneo é olhar para a tela e responder honestamente: quem está ditando as regras da sua rotina, você ou o sistema projetado para mapear cada segundo do seu dia? Reconhecer essa provocação já é um excelente ponto de partida.
Referências
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE HOSPITAIS PRIVADOS (ANAHP). Por que as redes sociais viciam? Entenda como elas prendem sua atenção e afetam a saúde mental. São Paulo: ANAHP, dez. 2025. Disponível em: https://www.anahp.com.br/saude-da-saude/por-que-as-redes-sociais-viciam-entenda-como-elas-prendem-sua-atencao-e-afetam-a-saude-mental/. Acesso em: 22 jun. 2026.
BURNELL, Kaitlyn et al. U.S. Adolescents’ daily social media use and well-being: Exploring the role of addiction-like social media use. Journal of Children and Media, [S. l.], v. 18, n. 1, p. 1-19, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1080/17482798.2024.2402272. Acesso em: 22 jun. 2026.
G1. ‘Facebook papers’: quais são as acusações contra a gigante da tecnologia. Portal G1, Rio de Janeiro, 2 nov. 2021. Disponível em: https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2021/11/02/facebook-papers-meta-nome-acusacoes-vazamento.ghtml. Acesso em: 23 jun. 2026.
HAIDT, J. A Geração Ansiosa: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.
KEMP, Simon. Digital 2025 Global Overview Report. [S. l.]: DataReportal, fev. 2025. Disponível em: https://datareportal.com/reports/digital-2025-global-overview-report. Acesso em: 22 jun. 2026.
LEMBKE, A. Nação Dopamina: por que o excesso de prazer está nos deixando infelizes e o que podemos fazer para mudar. São Paulo: Vestígio, 2022.
MACKENZIE, Universidade Presbiteriana. Impactos do excesso do uso das redes sociais na saúde mental e na produtividade. [S. l.], jul. 2024. Disponível em: https://mackenzie.br. Acesso em: 22 jun. 2026.
MOTTA, H. A.; LOBO, B. O. M.; NEUFELD, C. B. Redes sociais e saúde mental: impacto e como trabalhar na prática clínica. Blog Artmed, jun. 2025.
PARISER, Eli. O filtro invisível: o que a internet está escondendo de você. Rio de Janeiro: Zahar, 2012. Disponível em: https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788537808030/o-filtro-invisivel. Acesso em: 22 jun. 2026.
PORVIR. A Geração Ansiosa: livro culpa smartphones pela crise de saúde mental. Seriam as únicas razões? [S. l.], mar. 2026. Disponível em: https://porvir.org. Acesso em: 22 jun. 2026.
SALCEDO, Bernardo. Como redes sociais hackeiam sua mente. Revista Arco (UFSM), Santa Maria, 28 jan. 2021. Disponível em: https://www.ufsm.br/midias/arco/como-redes-sociais-hackeiam-sua-mente. Acesso em: 22 jun. 2026.
VOSOUGHI, Soroush; ROY, Deb; ARAL, Sinan. The spread of true and false news online. Science, [S. l.], v. 359, n. 6380, p. 1146-1151, 2018. Disponível em: https://www.science.org/doi/full/10.1126/science.aap9559. Acesso em: 22 jun. 2026.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Teens, screens and mental health. Regional Office for Europe: WHO, set. 2024.
Observação: artigo desenvolvido na disciplina Tecnologias Criativas, ministrada pela Professora Parcilene Fernandes. A disciplina integra o Programa Extensionista Interdisciplinar Tecnologias para a Vida dos cursos de Ciência da Computação e Engenharia de Software da Ulbra Palmas.
