Recentemente ouvi uma frase atribuída a Fiódor Dostoiévski: “Duas pessoas inteligentes não podem se apaixonar; o verdadeiro amor precisa de um idiota”.
E quero contrapor essa ideia ao afirmar que o amor está intimamente afastado de qualquer tipo de inteligência, precisando não de um, mas de dois idiotas.
Precisa de duas pessoas dispostas a abandonar, por um instante, a fortaleza segura da razão. Duas pessoas dispostas a trocar a lógica pelo salto. A certeza pelo risco. O cálculo pela vertigem.
A inteligência nos protege até certo ponto. O amor nos expõe e abre a porta para caminhos que ultrapassam qualquer bom senso. Amar é uma forma rara de loucura consentida.
E ao dizer isso quero contrapor a lógica do interesse, pois não necessariamente ligo isso ao amor. Não falo aqui dos laços que construímos porque a vida é difícil demais para ser atravessada sozinho, nem das parcerias sustentadas pela conveniência, pelo conforto, pelo medo da solidão ou pela necessidade de dividir contas, responsabilidades e silêncios. Tudo isso tem seu valor e sua importância, mas me parece pertencer a uma outra linguagem. O amor de que falo nasce quando alguém deixa de ser apenas útil à nossa existência e passa a ser desejado nela. Quando a presença do outro não é uma solução para um problema, mas uma alegria gratuita. Quando escolhemos alguém não pelo que ele pode nos oferecer, mas pela simples e inexplicável felicidade de vê-lo existir no mundo.
E, contrapondo a lógica do interesse, é preciso ser um pouco idiota para dizer “eu gosto de você” antes de saber se será correspondido. Para escrever mensagens que poderiam ficar apenas nos rascunhos. Para fazer promessas cafonas, para guardar fotografias bobas, para sorrir sozinho ao lembrar de alguém enquanto espera o ônibus ou lava a louça.
É preciso ser idiota para abrir o peito.
Para contar sobre a infância. Sobre os medos que ainda sobrevivem escondidos nos cantos da alma. Sobre os sonhos tão íntimos que parecem frágeis demais para suportar a luz do dia. Sobre as manias estranhas, os desejos secretos, os momentos vergonhosos que gostaríamos de apagar da memória. Mostrar suas esquisitices encantadoras, rasgar e derramar suas subjetividades e poder ser você, completamente despido, aos olhos de outra pessoa.
É preciso ser idiota para amar.
Idiota o suficiente para trocar a armadura pela pele.
Para olhar alguém nos olhos e dizer as frases mais clichês já inventadas pela humanidade como se fossem inéditas. Para escrever cartas românticas confessionais. Para decorar datas sem importância. Para guardar bilhetes, recados, flores secas entre as páginas de um livro.
Amar é oferecer a própria humanidade como quem oferece uma casa e diz: entre, veja a bagunça, sente-se onde quiser.
Por isso não acho que o amar combine muito com a inteligência. Porque amar exige vulnerabilidade, e vulnerabilidade exige uma dose generosa de imprudência.
Desta forma, postulo que uma idiotice ainda maior seja permitir-se apaixonar. Também é preciso ser um idiota para se permitir sentir amor. Digo isso porque a fisgada inicial, o frio no estômago, a eletricidade que percorre o corpo quando alguém nos atravessa o caminho – nada disso está sob nosso controle. Mas existe um momento posterior, mais silencioso, em que escolhemos o que fazer com esse sentimento. Podemos sufocá-lo, ignorá-lo, mantê-lo à distância. Ou podemos alimentá-lo. Podemos nos aproximar. Podemos abrir a porta. Permanecer é uma escolha.
Permitir-se apaixonar é passar a ver outro pelo que ele é. É deixar que atravesse a soleira dos nossos dias. É permitir que essa pessoa apareça nos pensamentos mais distraídos, nos sorrisos involuntários, nos planos para o futuro. É abrir espaço para que ela faça morada.
E fazer morada em alguém é um ato absurdamente imprudente.
E nada disso faz muito sentido. Porque amar é pegar o próprio coração (esse órgão frágil, teimoso e facilmente quebrável) e colocá-lo nas mãos de outra pessoa. Não por ignorar o risco. Mas justamente conhecendo-o.
É justamente aí que mora a beleza e a poesia do amor: no fato de que ele jamais será um investimento seguro.
Amar é dedicar o próprio coração. É conhecer o tamanho do risco e, ainda assim, dar um passo à frente. Não porque faça sentido. Não porque seja racional. Mas porque algumas das coisas mais valiosas da vida acontecem exatamente fora do território da lógica.
Amar é aceitar a vulnerabilidade de existir diante de outra pessoa sem esconder muita coisa. É abandonar a segurança das fortalezas para dividir uma casa. É trocar o controle pela confiança.
É correr em direção ao precipício sabendo exatamente onde ele está. E ainda assim saltar. Porque algumas coisas belas demais simplesmente não cabem dentro do explicável.
E, como diria o poeta: Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?
