Como Treinar Seu Dragão? Uma visão sobre amizade, acolhimento e pertencimento

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Como Treinar o Seu Dragão é um filme que, à primeira vista, parece apenas mais uma história de fantasia com criaturas místicas, e eu, particularmente, tinha essa visão reducionista do filme até assistir pela primeira vez, com 22 anos de idade, e ficar completamente comovida. Mas, à medida que a narrativa se desenrola, percebemos que existe algo muito mais humano pulsando ali, algo que fala diretamente sobre amizade, acolhimento e a difícil arte de se conectar com o outro justamente por conta dos lugares em que somos mais frágeis. É curioso como a trama, que nasce em meio ao medo e aos preconceitos do povo viking, se transforma em uma lição sobre empatia e sobre a coragem necessária para romper com tudo aquilo que nos ensinaram a temer.

Soluço é apresentado como um jovem que nunca coube nas expectativas de sua própria comunidade. Tudo nele parece deslocado: seu corpo, suas ideias, seu jeito de observar o mundo. Ele vive em um constante conflito entre quem é e quem deveria ser, carregando a angústia silenciosa de não atender ao padrão de força, brutalidade e heroísmo que todos ao seu redor exaltam. Esse sentimento de inadequação cria nele uma solidão profunda, a sensação de que não existe espaço seguro onde possa existir sem ser julgado. E é justamente nessa solidão que ele se encontra com Banguela, um dragão que, apesar de ser visto como ameaça, também carrega suas próprias feridas, tanto físicas quanto emocionais.

Quando Soluço decide poupar a vida do dragão e, mais do que isso, se permitir aproximar dele, acontece algo fundamental: pela primeira vez, alguém enxerga Banguela além do medo e das histórias contadas sobre sua espécie. E, de forma muito semelhante, o dragão é o primeiro ser a enxergar Soluço sem as exigências e cobranças que os humanos colocam sobre ele. É nesse encontro silencioso entre duas criaturas quebradas, um garoto que não consegue ser o que esperam dele e um dragão que perdeu parte da cauda e não pode mais voar, que nasce uma amizade genuína, construída sem máscaras.

O mais bonito é que essa amizade não nasce de forças, mas de vulnerabilidades. Soluço acolhe Banguela no momento em que o dragão mais precisa, compreendendo que o ferimento na cauda o torna incapaz de sobreviver sozinho. E, ao mesmo tempo, é o próprio Soluço quem encontra no dragão o acolhimento que nunca recebeu do seu povo ou até mesmo do seu pai. Em Banguela, ele encontra um olhar que não o pressiona, que não exige que ele seja forte, corajoso ou perfeito. O dragão aceita o garoto exatamente como ele é. E essa aceitação, essa troca silenciosa, se transforma na força que permite que ambos cresçam.

A relação deles mostra que o amor e a amizade mais profundos surgem quando abrimos espaço para que o outro veja nossas falhas sem o medo de ser abandonado. Soluço não tenta esconder sua fragilidade; Banguela não tenta esconder sua limitação física. Pelo contrário, é a união dessas faltas que cria uma parceria única. O garoto constrói uma prótese para a cauda do dragão, mas, mais do que uma ferramenta mecânica, aquilo simboliza a forma como duas fragilidades podem se completar. Banguela só volta a voar plenamente quando Soluço está com ele, e Soluço só descobre seu próprio valor quando percebe que pode transformar cuidado em coragem.

E é nessa conexão que o filme traz uma reflexão poderosa: talvez a força verdadeira não esteja na capacidade de enfrentar o mundo sozinho, mas na disponibilidade de construir vínculos que nos sustentem quando não conseguimos mais carregar o peso da vida. Soluço e Banguela se tornam o que são não por serem perfeitos, mas justamente por admitirem que não são. A amizade deles nasce do que falta, e não do que sobra.

À medida que a história avança, vemos que essa relação transforma não apenas os dois, mas todo o ambiente ao redor. A vila de Berk, que vivia sob a lógica do medo, começa a ser desafiada pela coragem emocional de Soluço, que prova que a convivência é possível quando há abertura para conhecer o outro sem o filtro do preconceito. Banguela, antes visto como perigo, torna-se símbolo de uma nova forma de viver, onde a conexão substitui a hostilidade.

No fundo, Como Treinar o Seu Dragão fala sobre algo muito simples, embora profundamente difícil: deixar-se tocar. Permitir que alguém veja suas dores. Aceitar ajuda quando o orgulho, o medo ou a vergonha tentam nos isolar. O filme nos lembra que acolhimento é uma escolha diária, assim como a amizade — e que são justamente nossas fragilidades que nos aproximam, porque é nelas que encontramos humanidade, verdade e pertencimento.

Ficha Técnica: Como Treinar o Seu Dragão (Live Action, 2025)
Ano: 2025
Direção: Dean DeBlois
  Gênero: Aventura e Fantasia
Duração: 125 minutos
Classificação: 12 anos
Onde encontrar: Plataformas de aluguel/compra digital como Amazon Prime Video, Apple TV e Google Play.

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