Um limite entre nós: as cercas visíveis e invisíveis da família

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Existem cercas que construímos para proteger quem amamos e existem aquelas que erguemos para nos proteger do que tememos. Em Um Limite Entre Nós, a pungente obra de August Wilson adaptada ao cinema por Denzel Washington, a cerca que Troy Maxson (interpretado pelo próprio Washington) constrói lentamente no quintal de sua casa em Pittsburgh, nos anos 1950, é a metáfora perfeita para as fronteiras emocionais de uma família marcada por legados e silêncios. A trama nos convida a olhar para dentro do sistema familiar, onde cada tábua representa uma regra não dita, e cada prego uma dor transmitida através das gerações.

A narrativa concentra-se na família Maxson: Troy, o patriarca; Rose, sua esposa e o centro moral da casa; Cory, o filho adolescente que sonha com um futuro no futebol; Lyons, o filho músico de um relacionamento anterior de Troy; e Gabriel, o irmão de Troy, cuja lesão de guerra o deixou com uma placa de metal na cabeça e uma visão de mundo mística. À primeira vista, é um drama sobre conflitos raciais e de classe na América de meados do século, o que por si só já proporciona um gigantesco conteúdo a ser trabalhado e elaborado. Contudo, sob essa base, pulsa um material denso para uma leitura psicológica, especialmente através das lentes da terapia sistêmica e narrativa. O filme é um estudo profundo sobre como o passado não apenas informa, mas ativamente constrói a arquitetura do presente.

No coração da família Maxson, e do filme, está a figura trágica de Troy. Sua personalidade é forjada em uma história central, um “enredo dominante” que ele repete para si mesmo e para os outros como um evangelho pessoal. Troy foi um jogador de beisebol extraordinário na Liga dos Negros, mas foi impedido de chegar às ligas principais porque, quando finalmente quebraram a barreira da cor, ele já era considerado velho demais. Essa injustiça, alimentada pelo racismo sistêmico da época, torna-se o eixo em torno do qual sua identidade gira.

Essa não é apenas uma história que Troy conta; é a história que o conta. Na perspectiva da terapia narrativa, um enredo dominante funciona como um filtro para a experiência, selecionando quais eventos importam e qual significado eles têm. Para Troy, tudo é interpretado através dessa lente: o mundo é um lugar fundamentalmente injusto que lhe deve algo. Seu talento foi roubado, e essa dívida nunca foi paga. Esse enredo funciona, simultaneamente, como um escudo e uma arma. Como escudo, ele o protege da vergonha avassaladora de ser “apenas” um coletor de lixo, de não ter alcançado a grandeza que seu talento prometia. Como arma, ele a utiliza para justificar sua rigidez, seu controle sobre a família e, tragicamente, sua sabotagem ao futuro do filho.

Esse enredo, contudo, não nasceu no vácuo. Ele está enraizado em uma dor ainda mais antiga, um legado que nos remete diretamente ao conceito de transmissão multigeracional. Esse conceito, central para a terapia familiar, sugere que padrões emocionais, traumas e crenças são passados de geração em geração, muitas vezes de forma inconsciente. Troy descreve seu próprio pai como um homem brutal e sem afeto, um meeiro cuja única expressão de “cuidado” era a provisão material e a disciplina violenta. O pai de Troy lhe deu a vida, mas também lhe ensinou que o amor era sinônimo de dever, e que o dever era uma forma de controle.

Quando Troy se torna pai, ele repete esse padrão. Ele ama Cory, mas não sabe como expressar esse amor a não ser através da “responsabilidade”. Em uma das cenas mais devastadoras do filme, Cory pergunta por que Troy nunca gostou dele. Troy explode, respondendo que “gostar” não faz parte do acordo. Seu trabalho é prover um teto, comida e roupas, e exigir que Cory aprenda um ofício. “Eu não tenho que gostar de você”, ele diz, “eu cuido de você porque é meu dever”.

Aqui, a transmissão transgeracional é explícita. Troy herdou um modelo de masculinidade e paternidade baseado no medo e na privação. A vergonha de seu próprio passado e o medo do mundo racista lá fora o tornam incapaz de ver o sonho de Cory no futebol como uma oportunidade. Ele o vê como a mesma armadilha que o destruiu. Aos seus olhos, o homem branco “não vai deixar Cory chegar a lugar nenhum”. Ao proibir Cory de jogar, Troy acredita genuinamente que está protegendo o filho da desilusão que definiu sua própria vida. Ele está, na verdade, tornando-se o próprio agente da injustiça que tanto amaldiçoa. Ele se torna o pai que ele mesmo temia, aquele que “come os próprios filhos”. A narrativa dominante de injustiça racial o cega para a injustiça que ele mesmo está cometendo dentro de casa.

A cerca que Troy constrói é a manifestação física da psicologia da família Maxson. Do ponto de vista da terapia sistêmica estrutural, desenvolvida por Salvador Minuchin, uma família é um sistema que opera através de fronteiras, hierarquias e subsistemas. As fronteiras definem quem participa de qual interação e como. A cerca de Rose é um pedido por uma fronteira clara e protetora, um espaço seguro para manter a família dentro, unida contra as adversidades do mundo. Para Troy, no entanto, a cerca parece ter outra função: manter o mundo fora. Ele trava uma batalha filosófica constante com a “Morte”, que ele personifica como um adversário do beisebol. A cerca é sua tentativa de criar uma barricada contra a finitude, contra a mudança e contra suas próprias falhas.

Dentro dessas muralhas, Troy impõe uma hierarquia rígida. Ele é o patriarca indiscutível, e suas regras são lei. Essa estrutura rígida existe para manter a homeostase do sistema, ou seja, seu equilíbrio. Contudo, como Minuchin aponta, um sistema pode ser homeostático e, ainda assim, profundamente disfuncional. A estabilidade da família Maxson depende da supressão dos sonhos de Cory, da paciência infinita de Rose e da distância de Lyons. Qualquer tentativa de mudança, como a bolsa de estudos de Cory, é vista por Troy não como uma oportunidade, mas como uma ameaça existencial a esse equilíbrio precário. Ele precisa que o mundo permaneça injusto para que sua narrativa dominante permaneça verdadeira.

Essa rigidez força a comunicação a se organizar em triângulos. Um triângulo emocional ocorre quando uma tensão entre duas pessoas é aliviada trazendo uma terceira. Na família Maxson, o triângulo central é Troy-Rose-Cory. Cory não pode se relacionar diretamente com o pai; a tensão é muito grande. Rose se torna a mediadora constante, tentando traduzir o “amor” rígido de Troy para Cory e os sonhos de Cory para Troy. Ela vive no epicentro da tensão, absorvendo o conflito para manter o sistema de pé. Vemos outro triângulo na amizade de Troy com Bono, onde Bono serve como uma espécie de consciência externa, o único que pode nomear as contradições de Troy, especialmente quando a infidelidade de Troy com Alberta começa.

O sistema, construído com tanto esforço por Troy, não suporta a verdade. A revelação da infidelidade e a gravidez de Alberta são a crise que derruba a cerca. A velha homeostase é destruída. A hierarquia se inverte quando Rose, em um momento de dor e fúria, finalmente confronta Troy, não como sua subordinada, mas como sua igual: “Eu também tenho uma vida. […] Eu enterrei partes de mim mesma em você”. O sistema familiar precisa ser inteiramente reorganizado. A morte de Alberta no parto e a chegada da bebê Raynell não é apenas um evento; é o catalisador para a reestruturação total da família.

Se Troy é prisioneiro de sua narrativa, Rose é quem demonstra a capacidade de “reescritura” (re-authoring), um conceito chave da terapia narrativa. Quando Troy traz a bebê Raynell para casa, ele apela para Rose, dizendo: “Esta criança tem uma mãe, mas a mãe dela morreu”. Rose, devastada pela traição, enfrenta uma escolha que define o futuro intergeracional da família. Ela poderia rejeitar a criança, um símbolo vivo da quebra de seu casamento, e perpetuar um ciclo de abandono.

Em vez disso, em um dos gestos mais poderosos do filme, Rose toma a criança nos braços. Ela diz a Troy: “Eu vou ser a mãe dela. Mas você não tem mais uma mulher”. Este é um ato radical de agência. Rose se separa de seu papel no subsistema conjugal disfuncional, mas expande seu papel no subsistema parental. Ela efetivamente diz: “Sua história de traição não será a história desta menina”. Ela interrompe o padrão transgeracional de crianças sem mãe (como o próprio Troy, em certo sentido) e re-autora o futuro da família. Ela escolhe o cuidado em vez da vingança.

Essa decisão é o ponto de virada terapêutico da trama. A intergeracionalidade não é apenas sobre o trauma que é passado para baixo; é também sobre os recursos, a resiliência e as decisões éticas que são passadas para cima e para frente. O ato de Rose de criar Raynell redefine o que significa ser mãe e mulher naquele sistema. Ela cria uma nova regra moral, uma nova narrativa centrada no cuidado e na continuidade da vida, que se contrapõe diretamente à narrativa de Troy, centrada na estagnação e na morte (seu “jogo empatado” com o Diabo).

O filme termina anos depois, no dia do funeral de Troy. Cory, agora um fuzileiro naval, retorna para casa, mas se recusa a ir ao enterro, afirmando que precisa dizer “não” ao pai para finalmente se libertar. É Rose quem oferece a perspectiva final. Ela o lembra que o “não” que ele está dando é o mesmo que Troy deu ao seu próprio pai. Ele não está se libertando do pai; ele está se tornando ele. A verdadeira libertação, ela sugere, não é apagar o passado, mas compreendê-lo e carregá-lo de uma nova maneira.

A resolução vem através de Raynell, a criança que Rose salvou. Ela e Cory cantam juntos a velha canção de blues de Troy, “Old Blue”. Naquele momento, Cory não é mais apenas o filho oprimido, nem Troy é apenas o pai opressor. A música, o legado de Troy, torna-se um ponto de conexão, um recurso intergeracional. Cory finalmente consegue carregar seu pai: não o monstro que o bloqueou, mas o homem complexo e ferido que, apesar de tudo, fazia parte dele. A cena final, com Gabriel abrindo os portões do céu, é a última catarse. O sistema familiar, quebrado e refeito, encontra uma nova forma de paz.

Um Limite Entre Nós serve como um material clínico e pedagógico de valor inestimável. Poderíamos usar um “genograma”, o mapa visual das relações e padrões familiares, para traçar o fluxo da vergonha, do medo e da rigidez desde o pai de Troy até as escolhas de Cory. Veríamos como a decisão de Rose de adotar Raynell cria um novo ramo no mapa, um que oferece uma possibilidade de futuro diferente. A obra dramatiza mecanismos reais pelos quais os enredos familiares nos aprisionam e, mais importante, como atos simbólicos de coragem podem reescrever esses mesmos enredos.

O filme não é apenas sobre a família Maxson em Pittsburgh dos anos 1950. É um espelho para as cercas que todos nós construímos e herdamos. Somos feitos das histórias que nossos pais nos contaram, e das histórias que os pais deles lhes contaram. Carregamos legados transgeracionais em nossas escolhas, em nossos medos e na forma como amamos. A jornada de Troy Maxson é um aviso trágico sobre o que acontece quando nos fundimos com nossa dor, quando deixamos que uma única narrativa de injustiça defina a totalidade de quem somos. A jornada de Rose é um testemunho da resiliência humana, da capacidade de encontrar agência mesmo em meio à traição, e de re-autorar o futuro.

A verdadeira questão que Um Limite Entre Nós nos deixa não é sobre as cercas que separam nossos quintais, mas sobre quais narrativas escolhemos cultivar dentro de nossos muros. Quais histórias contamos a nós mesmos sobre quem somos? Quais legados repetimos cegamente, e quais temos a coragem de interromper? As cercas que herdamos não são nosso destino, mas elas são, inegavelmente, o nosso trabalho.

Ficha técnica completa

Título Fences (Original)
Ano produção 2016
Dirigido por Denzel Washington
Estreia 2 de Março de 2017 ( Brasil )
Duração 138 minutos
Classificação  12 – Não recomendado para menores de 12 anos
Gênero Drama
Países de Origem Estados Unidos da América

Sinopse

Baseado na aclamada e premiada peça teatral homônima, um jogador de beisebol aposentado (Denzel Washington), que sonhava em se tornar um grande jogador durante sua infância, agora trabalha como coletor de lixo para sobreviver. Ele terá de navegar pelas complicadas águas de seu relacionamento com a esposa (Viola Davis), o filho e os amigos.

Referências

BOWEN CENTER FOR THE STUDY OF THE FAMILY. Multigenerational transmission process. Disponível em: https://www.thebowencenter.org. Acesso em: 24 out. 2025.

FENCES. Direção: Denzel Washington. Estados Unidos: Paramount Pictures, 2016. Filme.

MINUCHIN, Salvador. Families and family therapy. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1974.

WHITE, Michael; EPSTON, David. Narrative means to therapeutic ends. Adelaide: Dulwich Centre, 1990.

WILSON, August. Fences. Nova Iorque: Theatre Communications Group, 1987. Peça de teatro.

 

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