O mito da “Mulher Maravilha”: a romantização da tripla jornada

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A figura da “Mulher Maravilha”, imortalizada na cultura pop como um ícone de força e invencibilidade, transbordou os limites da ficção para se converter em um perigoso mito contemporâneo. Na realidade social, esse arquétipo tem sido utilizado para romantizar a exaustão feminina, validando a sobrecarga daquelas que acumulam as responsabilidades do trabalho remunerado, das tarefas domésticas e do cuidado familiar. Longe de ser um elogio, a exaltação da mulher que “dá conta de tudo” funciona como um mecanismo de dominação que invisibiliza as desigualdades estruturais de gênero e adoece física e mentalmente as mulheres.

A divisão sexual do trabalho é a raiz histórica e sociológica dessa desigualdade. Como apontam Hirata e Kergoat (2007), a divisão sexual do trabalho fundamenta-se em dois princípios organizadores: o princípio da separação (existem trabalhos de homens e trabalhos de mulheres) e o princípio hierárquico (o trabalho masculino vale mais do que o feminino). Nesse sistema, as atividades reprodutivas e de cuidado, restritas ao espaço privado, foram naturalizadas como inerentes à “essência feminina”, enquanto o espaço público e produtivo foi destinado aos homens.

A entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho remunerado não significou uma redistribuição igualitária das tarefas domésticas. Em vez disso, gerou o fenômeno que Hochschild (2012) conceituou como a “segunda jornada” (second shift). Mais recentemente, a literatura sociológica avançou para o conceito de “tripla jornada” (triple shift), cunhado por Duncombe e Marsden (1995), que engloba o trabalho remunerado, o trabalho doméstico físico e o chamado “trabalho emocional” — a responsabilidade invisível de gerenciar as emoções, mediar conflitos e garantir o bem-estar psicológico da família.

No Brasil, os dados estatísticos evidenciam a materialidade dessa sobrecarga. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2023), em 2022, as mulheres dedicaram, em média, 21,6 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, o que representa quase o dobro do tempo despendido pelos homens (aproximadamente 12 horas). A disparidade é ainda mais profunda quando analisada sob uma lente interseccional: as mulheres pretas ou pardas dedicam 1,6 hora a mais por semana a essas tarefas em comparação às mulheres brancas.

Apesar da dureza desses números, a sociedade capitalista e patriarcal tem encontrado formas de atenuar a percepção dessa exploração através da romantização. A teórica Silvia Federici (2019) argumenta de forma contundente que o capitalismo necessita do trabalho reprodutivo não remunerado das mulheres para conter o custo da força de trabalho. Para garantir que esse trabalho seja realizado sem remuneração, o sistema o revestiu com a aura do “amor” e do “instinto materno”. Nas palavras de Federici, “o que eles chamam de amor, nós chamamos de trabalho não remunerado”.

Essa romantização atinge seu ápice na figura da mãe e profissional “guerreira” ou “multitarefa”. Vieira e Amaral (2013), ao estudarem mulheres que conciliam trabalho, família e educação continuada, observaram que essas mulheres abdicam de seu tempo de lazer não como um sacrifício imposto, mas ressignificando-o. As autoras utilizam a metáfora do beija-flor: espera-se que a mulher conjugue suas múltiplas jornadas com rapidez, mas também com “graça e leveza”, ocultando o esforço hercúleo por trás dessa performance.

O sociólogo Pierre Bourdieu (2012), em sua obra A dominação masculina, explica esse fenômeno através do conceito de violência simbólica. A dominação de gênero não se dá apenas pela coerção física, mas pela introjeção de disposições (o habitus) que fazem com que os próprios dominados percebam a ordem social como natural e legítima. Quando uma mulher se orgulha de ser uma “guerreira” que dorme poucas horas por noite para dar conta da casa, dos filhos e do trabalho, ela está, muitas vezes, reproduzindo a violência simbólica que a oprime.

As consequências dessa estrutura para a saúde da mulher são devastadoras. A cobrança social para atingir o padrão inatingível da “Mulher Maravilha” gera um processo de culpabilização constante. Como destacam Bernardes, Loures e Andrade (2019), a mulher sente-se cronicamente dividida e em débito, seja com sua profissão, seja com sua família. A romantização do cuidado atua como uma cortina de fumaça que encobre a urgência de políticas públicas e de uma real divisão de responsabilidades.

Estudos epidemiológicos confirmam o impacto dessa dinâmica na saúde mental. A pesquisa de Pinto et al. (2012) demonstrou uma associação direta entre a sobrecarga doméstica e a ocorrência de Transtornos Mentais Comuns (TMC) em mulheres. O estudo revelou que mulheres submetidas a uma alta sobrecarga doméstica apresentaram uma prevalência de TMC significativamente mais elevada (45,6%) do que aquelas com baixa sobrecarga (36,2%). O esgotamento físico e mental, muitas vezes diagnosticado como Síndrome de Burnout, tem se tornado uma epidemia silenciosa entre as mulheres contemporâneas (SQUILASSI, 2024).

Em suma, o mito da “Mulher Maravilha” é uma armadilha retórica. Ao aplaudir a capacidade feminina de suportar o insuportável, a sociedade se exime da responsabilidade de promover a igualdade de gênero. Desconstruir essa romantização é o primeiro passo para reconhecer que o trabalho de cuidado é uma responsabilidade social e coletiva, e não um fardo individual travestido de superpoder. As mulheres não precisam de capas ou títulos de heroínas; precisam de políticas públicas de cuidado, de divisão equitativa do trabalho doméstico e do direito fundamental ao descanso e à saúde.

 

Referências

BERNARDES, Ruane; LOURES, Amanda Freitas; ANDRADE, Barbara Batista Silveira. A romantização da maternidade e a culpabilização da mulher. Revista Mosaico, v. 10, n. 2, 2019.

 

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. 11. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.

 

DUNCOMBE, Jean; MARSDEN, Dennis. ‘Workaholics’ and ‘Whingeing Women’: Theorising Intimacy and Emotion Work — The Last Frontier of Gender Inequality? The Sociological Review, v. 43, n. 1, p. 150-169, 1995.

 

FEDERICI, Silvia. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista. São Paulo: Elefante, 2019.

 

HIRATA, Helena; KERGOAT, Danièle. Novas configurações da divisão sexual do trabalho. Cadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, p. 595-609, 2007.

 

HOCHSCHILD, Arlie Russell. The Second Shift: Working Families and the Revolution at Home. New York: Penguin Books, 2012.

 

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Em 2022, mulheres dedicaram 9,6 horas por semana a mais do que os homens aos afazeres domésticos ou ao cuidado de pessoas. Agência IBGE Notícias, 11 ago. 2023.

 

PINTO, Paloma de Sousa et al. Associação entre sobrecarga doméstica e transtornos mentais comuns em mulheres. Revista Brasileira de Epidemiologia, v. 15, n. 3, p. 560-572, 2012.

 

SQUILASSI, Isabela Borges. Compreendendo os imbricamentos da Tripla Jornada de Trabalho Feminina e o Burnout em mulheres empreendedoras. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Uberlândia, 2024.

 

VIEIRA, Adriane; AMARAL, Graziele Alves. A arte de ser Beija-Flor na tripla jornada de trabalho da mulher. Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 22, n. 2, p. 431-443, 2013.

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