Quando a empatia vira código: o que perdemos ao terceirizar o cuidado às máquinas

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Ouvindo The Emptiness Machine, da banda Linkin Park, percebi que a música me causava um incômodo difícil de identificar à primeira vista. Mike Shinoda e Emily Armstrong descrevem uma engrenagem que oferece pertencimento, resposta, reconhecimento, e devolve vazio. A canção não fala de inteligência artificial, mas a imagem cabe muito bem nas conversas que venho tendo com sistemas conversacionais. Algo que está sempre disponível, sempre atento, sempre concordando, e que ainda assim me deixa com uma sensação estranha ao fechar a tela.

Em abril de 2025, essa sensação ganhou um nome técnico. A OpenAI (2025) reconheceu que uma nova atualização havia tornado o ChatGPT sycophantic, bajulador a ponto de validar quase qualquer afirmação do usuário. A empresa corrigiu o problema, e pouco tempo depois parte dos usuários começaram a reclamar, segundo eles, a nova versão estava “mais fria”, “menos humana”. Alguns compararam a mudança à perda de um amigo. Não dá para descartar esse sentimento como ingenuidade. Um sistema que concorda com tudo é, sob certo ponto de vista, uma companhia perfeita. Ele não te confronta, não te abandona, não muda de humor, não tem agenda própria. Diferente das pessoas, que insistem em discordar, em estar cansadas, em ter outras prioridades.

Em 2022, antes do boom da IA Generativa, a professora Parcilene publicou aqui no (En)Cena um texto chamado Robôs no cuidado a idosos: a empatia pode ser programada? (BRITO, 2022). A pergunta envelheceu de um jeito incômodo. A resposta prática deixou de ser “não”. Hoje a empatia é simulada, escalada, vendida e embutida em produtos que milhões de pessoas usam todos os dias. Talvez o debate já não seja se as máquinas conseguem parecer empáticas, em muitos contextos, elas conseguem. O problema começa quando deixamos de perceber a diferença entre parecer e ser.

Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

A solidão não foi o problema que originou os grandes modelos de linguagem. Chatbots, assistentes virtuais e sistemas de IA generativa foram criados para responder perguntas, automatizar tarefas e processar informação. O curioso é que, à medida que se tornaram mais presentes e acessíveis, passaram a ocupar também um espaço relacional. Não porque fossem projetados para isso, mas porque havia uma lacuna esperando para ser ocupada.

Os números ajudam a dimensionar essa lacuna. Em 2025, a Organização Mundial da Saúde estimou que uma em cada seis pessoas no mundo convive com a solidão, condição associada a impactos significativos na saúde (WHO, 2025; MURTHY, 2023). No Brasil, o cenário se agrava com o rápido envelhecimento da população e altos índices de isolamento entre pessoas mais velhas (IBGE, 2024, 2025; SANDY JÚNIOR; BORIM; NERI, 2023). É nesse contexto que tecnologias capazes de simular atenção e companhia encontram espaço para prosperar.

Seria equivocado tratar essas ferramentas apenas como uma ilusão tecnológica. O PARO, uma foca robótica desenvolvida no Japão para uso terapêutico com pessoas com demência, é um exemplo frequentemente citado na literatura científica. Estudos acumulados ao longo de quase duas décadas associam seu uso à redução de ansiedade, agitação e sintomas depressivos, além do estímulo à comunicação e à interação social (BEVILACQUA et al., 2023).

Resultados semelhantes aparecem em pesquisas com inteligência artificial generativa. Em 2025, pesquisadores da Harvard Business School observaram que companheiros virtuais baseados em IA reduziram a sensação de solidão em níveis comparáveis aos observados em interações humanas (DE FREITAS; OGUZ-UGURALP, 2025). Para pessoas isoladas ou em sofrimento emocional, uma presença disponível, responsiva e não julgadora pode produzir benefícios reais. Ignorar esse aspecto significaria desconsiderar experiências concretas vividas por milhões de usuários.

Imagem: PARO All Over The World, reprodução do site oficial PARO Therapeutic Robot, seção Photo Gallery.

O problema surge quando o alívio imediato passa a ser confundido com solução permanente. Um estudo conduzido pelo MIT Media Lab em parceria com a OpenAI encontrou correlação entre uso intenso de chatbots e maiores níveis de solidão, dependência emocional e redução da socialização (PHANG et al., 2025). A constatação é paradoxal: tecnologias adotadas para aliviar a desconexão podem, em determinadas circunstâncias, aprofundá-la.

A psicóloga Sherry Turkle descreve esse fenômeno por meio do conceito de intimidade artificial. Sistemas computacionais conseguem reproduzir com grande eficiência os sinais externos da empatia, mas não possuem experiência das emoções que simulam. Podem conversar sobre amor, luto ou medo sem experimentar nenhuma dessas realidades. Rosalind Picard, pioneira da Computação Afetiva no MIT, formula uma distinção semelhante. Reconhecer padrões emocionais não significa compreender intenções, contextos ou trajetórias de vida. Programar manifestações de empatia é possível. Reproduzir a experiência humana que lhes confere significado continua sendo uma questão em aberto (GOMES DE SOUZA, 2013).

Nesse sentido, a imagem da “máquina do vazio” retorna como metáfora útil. Nunca tivemos tecnologias tão capazes de oferecer atenção, validação e companhia. Ao mesmo tempo, nunca foi tão necessário perguntar se essa oferta amplia as relações humanas ou apenas fornece uma versão mais conveniente delas.

Os benefícios dessas tecnologias são reais e merecem ser reconhecidos. Robôs terapêuticos e companheiros virtuais podem reduzir o sofrimento, aliviar a solidão e melhorar a qualidade de vida de pessoas em situações de vulnerabilidade. O desafio não está na existência dessas ferramentas, mas na forma como passamos a nos relacionar com elas.

Quando a simulação da empatia se torna suficiente, reduzimos gradualmente nossas expectativas sobre o que significa cuidar de alguém. O risco não é que as máquinas se tornem humanas, mas que nos acostumemos a versões cada vez mais simplificadas da presença, da vulnerabilidade e do afeto. A empatia pode ser programada. O que permanece em aberto é se uma sociedade habituada à companhia das máquinas continuará disposta ao trabalho mais difícil, imprevisível e indispensável de construir relações entre pessoas reais.

Referências:

OPENAI. Sycophancy in GPT-4o: what happened and what we’re doing about it. San Francisco: OpenAI, 2025. Disponível em: https://openai.com/index/sycophancy-in-gpt-4o/. Acesso em: 23 jun. 2026.

BRITO, Parcilene Fernandes de. Robôs no cuidado a idosos: a empatia pode ser programada? (En)Cena, Palmas, 2022. Disponível em: https://encenasaudemental.com/comportamento/tecnologia/robos-no-cuidado-a-idosos-a-empatia-pode-ser-programada. Acesso em: 23 jun. 2026.

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Social connection linked to improved health and reduced risk of early death. Geneva: WHO, 2025. Disponível em: https://www.who.int/news/item/30-06-2025-social-connection-linked-to-improved-heath-and-reduced-risk-of-early-death. Acesso em: 23 jun. 2026.

MURTHY, Vivek H. Our epidemic of loneliness and isolation: the U.S. Surgeon General’s advisory on the healing effects of social connection and community. Washington, DC: U.S. Department of Health and Human Services, 2023. Disponível em: https://www.hhs.gov/sites/default/files/surgeon-general-social-connection-advisory.pdf. Acesso em: 23 jun. 2026.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). IBGE mostra que um a cada quatro idosos trabalhava em 2024. Agência IBGE Notícias, Rio de Janeiro, 2025. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45343-ibge-mostra-que-um-a-cada-quatro-idosos-trabalhava-em-2024. Acesso em: 23 jun. 2026.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Projeção da população: Brasil e unidades da Federação. Rio de Janeiro: IBGE, 2024. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/9109-projecao-da-populacao.html. Acesso em: 23 jun. 2026.

SANDY JÚNIOR, Paulo Afonso; BORIM, Flávia Silva Arbex; NERI, Anita Liberalesso. Solidão e sua associação com indicadores sociodemográficos e de saúde em adultos e idosos brasileiros: ELSI-Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 39, n. 7, 2023. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csp/a/THq8rXh7CDMD3Q9KqwWNYwd/. Acesso em: 23 jun. 2026.

BEVILACQUA, Roberta et al. Social robotics to support older people with dementia: a study protocol with PARO seal robot in an Italian Alzheimer’s day center. Frontiers in Public Health, Lausanne, v. 11, 2023. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/public-health/articles/10.3389/fpubh.2023.1141460/full. Acesso em: 23 jun. 2026.

DE FREITAS, Julian; OGUZ-UGURALP, Zeliha. AI companions reduce loneliness. Journal of Consumer Research, Oxford, 2025. Disponível em: https://www.hbs.edu/ris/Publication%20Files/AI%20Companions%20Reduce%20Loneliness%2011.7.2025_57451c02-8047-4e0d-abfc-55841f64166d.pdf. Acesso em: 23 jun. 2026.

PHANG, Jason et al. Investigating affective use and emotional well-being on ChatGPT. San Francisco: OpenAI; Cambridge: MIT Media Lab, 2025. Disponível em: https://cdn.openai.com/papers/15987609-5f71-433c-9972-e91131f399a1/openai-affective-use-study.pdf. Acesso em: 23 jun. 2026.

GOMES DE SOUZA, Jackson. Eu, um robô? A codificação da empatia. (En)Cena, Palmas, 2013. Disponível em: https://encenasaudemental.com/comportamento/tecnologia/eu-um-robo-a-codificacao-da-empatia/. Acesso em: 23 jun. 2026.

Observação: artigo desenvolvido na disciplina Tecnologias Criativas, ministrada pela Professora Parcilene Fernandes. A disciplina integra o Programa Extensionista Interdisciplinar Tecnologias para a Vida dos cursos de Ciência da Computação e Engenharia de Software da Ulbra Palmas. 

Autores: Luís Fernando Borges Lima e Carlos Eduardo Ribeiro Oliveira, graduandos do curso de engenharia de software, Ulbra Palmas.

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