Uma experiência marcante numa comunidade Xerente

No dia 11 de maio ocorreu uma visita a tribo indígena Xerente, localizada na cidade de Tocantínia na região central do Tocantins, pelos alunos do Estágio Básico I, e o grupo do programa de extensão do site (EN)cena Saúde Mental em Movimento. Os respectivos alunos da instituição de ensino CEULP/ULBRA tiveram anteriormente uma aula para entenderem teoricamente a forma de organização desse povo, e suas visões de mundo como seres culturais.

As ideias apresentadas foram ministradas pelo psicólogo Dr. Rogério Marquezan, baseando-se na sua pesquisa de campo que abarca profundamente a estrutura Xerente, que se agrupa por ter o mesmo tronco linguístico Macro-jê, subdividindo-se em diferentes clãs em uma mesma tribo, sendo este, um mapeamento extenso e bastante complexo, entretanto, visto de forma simplista para nossa compreensão prévia, com objetivo primordial de quebrar estigmas relacionados à visão eurocêntrica sobre os indígenas, conjuntamente ao entendimento de que nossa profissão ainda não se encontra sendo valorizada, pois ainda se restringe a ideia biológica dentro da equipe multidisciplinar com foco em promover saúde dentro das tribos.

Entretanto, o “auxílio” da psicologia nesse âmbito multiprofissional é garantir que os costumes da aldeia não sejam alterados pela tentativa falha de promoção da saúde física, pois por vezes o profissional não se inteira ou não tem molejo para lidar com culturas que irão interferir diretamente no modo de atuação, afinal a forma de entendimento de gravidade, necessidade, e saúde são diferenciadas, e são influenciados pela sua religiosidade e costumes.

Fonte: Arquivo Pessoal

 

No ambiente indígena o psicólogo acaba se “infiltrando”, tornando-se necessário nesse espaço, uma ferramenta cujo papel é ajudar a promover o que necessita ser feito para promover saúde, com a sensibilidade de se misturar, compreendendo de forma ampla o contexto da tribo. Só assim é possível encontrar maneiras de ter acesso a essas pessoas, em busca de adesão, diálogo e acordos. O grande ponto é que, enquanto os profissionais estiverem com o posicionamento de detentores do saber, e impondo a esses o que aprenderam na academia, não estarão preparados para atuar com pessoas, muito menos com pessoas com culturas divergentes.

As relações de poder interferem todos os contextos, como psicólogos em formação fomos esclarecidos sobre a necessidade de saber nosso local de fala, compreendendo os fatores históricos dos motivos dessa população se encontrarem hoje, em maior parte, nas regiões do norte, sendo essencialmente pela peregrinação que ocorreu com o passar do tempo, por suas sobrevivências, pelas suas vidas; grande parte já havia sido dizimada ou pelas doenças que o branco trouxe, ou em decorrência da ideia eurocêntrica, sobre a necessidade civilizatória e impositiva do “ideal”.

O descaso que essa população vive não vem de agora, foram empurrados aos cantos do Brasil no entendimento que seriam extintos assim como os animais, enquanto a exploração de recursos reinava, e ainda reina. O psicólogo tem um papel extremamente importante de manter a integridade dessas pessoas, se comprometendo para que todos tenham acesso a saúde, mas que para isso, sua cultura não seja corrompida mais uma vez por  nós, brancos, a mercê do que é o “certo”; temos que ocupar espaços a fim de garantir que o respeito seja antemão das atuações.

Fonte: Arquivo Pessoal

A visita

Às 07 horas da manhã, os alunos da Ulbra saíram de Palmas e pegaram estrada em direção Tocantínia. Eu nunca tive contato com tribos anteriormente, foi minha primeira experiência nesse espaço, mas que me despertou muita curiosidade e admiração. Estavam todos reunidos quando chegamos, pois sabiam sobre nossa visita, o Cacique da tribo se apresentou e nos falou que também era professor, nos deixou claro que estavam abertos para encontros como aquele, que era focado aos estudos e pesquisas.

Os traços marcantes da tribo, a cor, os cabelos, suas características tão próximas eram evidentes. Após as breves apresentações do Dr. Rogério que já era conhecido e batizado pela tribo, tivemos de sair, nos dispersamos para outros ambientes pois eles estavam em reunião, conversando sobre alguma divergência entre os clãs. Durante esse espaço de tempo olhamos o ambiente, algumas casas eram feitas de madeira, outras de barro, outras de tijolo, havia um espaço livre com um campo de futebol, pois é costume que aconteça jogos ali.

As crianças estavam correndo e sempre brincando, ou nos observando; é cultural que elas saibam primeiramente a língua Macro-jê, e depois, aprendam o português. Não conversavam diretamente conosco por conta disso, mas muitos brincaram e interagiram com os alunos.

Fonte: Arquivo Pessoal

Conversamos diretamente com Maria Helena que cantou para nós música para o dia das mães na língua vigente da tribo (acompanhada do instrumento maracá de coité), falou um pouco de suas vivências, nos mostrou sua visão sobre nossa presença, que vê como importante os estudos de seu povo, para que sua cultura seja preservada, conhecida e respeitada pelos outros. Ela é uma mulher indígena que teve de passar por diversas dificuldades para conseguir se graduar, barreiras essas que foram superadas, também com ajuda da Funai, que segundo ela possibilitou que tivesse realizado seus desejos.

Pudemos nos banhar no mesmo rio em que eles tomam banho, foi um dia de aproximação, que me trouxe também muitas inquietações e medos, pois conhecendo a dívida histórica que temos, era delicado ter no braço a marca de um clã de uma tribo, assim como registrar esse momento, ou pagar pelos artesanatos, pois essa troca é algo extremamente arraigado que ultrapassou os tempos na época da colonização.

Além disso, ter de ver a realidade, de que eles precisam vender artesanatos, abrir suas portas, porque suas vozes por si só não são respeitadas, e o solo apenas não os sustentam é algo que me traz muito incômodo, eles estão presos na sociedade capitalista mesmo não tendo optado por isso. A troca é uma forma de sobreviver ao contexto, assim como fizeram por toda a história. A terra que eles têm por direito, é a forma mais concreta de ter autonomia, de ter poder sobre suas escolhas; quanto mais se afastam de seu terreno, mais estariam fadados a ter que ceder a uma cultura que não os compete. Não ter respeito em todos os âmbitos é uma das marcas sociais da visão branca, etnocêntrica.

Fonte: Arquivo Pessoal

A vivência me despertou sobre qual seria o papel do psicólogo, como seria a inserção assídua e com visibilidade e respeito ao nosso trabalho de mediação na atuação multi. E o mais importante, como chegaríamos a ir além das relações biológicas e medicamentosas e trabalhar com a ideias do âmbito psicológico nesse contexto? São questões que evidentemente não há respostas breves, pois cada tribo é um mundo, é um contexto único, e nos traz à tona a necessidade de sempre estarmos completamente ligados na desconstrução muito mais que na construção, pois poderíamos cair sobre a errônea ideia do “branco salvador”, ou conhecedor. Para conseguir evoluir e obter resoluções, teríamos de nos desprender de nossos óculos, e assumir que nossa ciência é útil, entretanto não é a única resposta para soluções.

Pude me visualizar nessa atuação, com certeza poder experimentar das fontes me traz a oportunidade e ampliação do meu futuro profissional, além de viabilizar esse ser humano em construção com menos achismos e preconceitos, afinal, estou inserida em um mundo assim, e é importante que eu tome consciência destes fatos, vislumbrando realidades divergentes, e percebendo minha pequenez diante de tantas formas de se viver.

Maria Eduarda Oliveira
Acadêmica de Psicologia na instituição de ensino CEULP/ULBRA, bolsista no programa de extensão (EN)cena - Saúde Mental em Movimento. Equipe de produção textual.