É natural nos compararmos uns com os outros, seja por admiração ou inspiração. No entanto, como tudo tem um limite, a comparação excessiva pode trazer sérios riscos à saúde mental. Na última década, observou-se um aumento expressivo no uso das redes sociais. Atualmente, essa tecnologia influencia não apenas o surgimento de tendências, mas também a nossa visão de mundo e a nossa autopercepção.
Segundo a The Jed Foundation [2], a tendência de nos compararmos aos outros é natural, mas o ambiente digital distorce essa dinâmica. Nas redes sociais, a inclinação para notar pessoas que julgamos (subconscientemente ou inconscientemente) como sendo melhores do que nós em aspectos importantes costuma ter um impacto negativo profundo na saúde mental e emocional.
Não se trata de um simples paralelo entre indivíduos, mas de um fator com potencial para aumentar a ansiedade, a depressão e a baixa autoestima, sendo esse impacto ainda mais devastador para pessoas que já possuem predisposição a esses transtornos ou fragilidades emocionais. A partir disso, a pergunta que fica é: será que os algoritmos trabalham para que esse cenário se agrave, manipulando de forma silenciosa a percepção que temos de nós mesmos?
Figura 1 – Mãos segurando smartphone

Fonte: Foto de Atahan Demir no Pexels [5]
Ao navegar pelo feed ou Reels do Instagram, por exemplo, o algoritmo começa a sugerir textos autorreflexivos ou fotos de pessoas consideradas esteticamente perfeitas. Quando nos damos conta, todo o nosso espaço virtual está recheado apenas por esse tipo de conteúdo. E isso acontece muitas vezes só por pararmos para ler uma postagem, sem precisarmos sequer interagir diretamente com curtidas ou comentários.
O algoritmo não faz isso por acaso, pois o seu grande objetivo é reter a atenção do usuário pelo maior tempo possível. O grande perigo é que isso acaba prendendo o usuário em uma bolha algorítmica, que não afeta apenas a forma como olhamos para o espelho, mas também a maneira como projetamos expectativas nas pessoas e nos relacionamentos ao nosso redor.
Para entender essa lógica, basta observar como a tecnologia opera nos bastidores:
“A IA observa cada clique, like e tempo gasto em um post. Com essas informações, ela cria um perfil único para cada usuário. Assim, o feed é personalizado para mostrar conteúdos que têm maior probabilidade de engajamento” [3].
Ou seja, a Inteligência Artificial não analisa a vulnerabilidade psicológica ou o estado sentimental de cada um. Sua única métrica de sucesso é o engajamento, retendo os usuários a qualquer custo, mesmo que o preço pago seja a nossa própria saúde mental.
Figura 2 – Pessoa visualizando a selfie no tablet

Fonte: Foto de Vitaly Gariev no Pexels [6]
Logo, quando paramos para pensar, fica claro que o algoritmo, mesmo que de forma indireta, tem o poder de manipular a nossa visão de mundo, a maneira como olhamos para nós mesmos e até a forma como tratamos as pessoas ao nosso redor. Segundo Parcilene Fernandes [1]:
“Houve um tempo em que tentávamos entender quem somos a partir de um olhar profundo sobre nós mesmos, ou em virtude do que algumas pessoas pensavam de nós, ou, ainda, por meio de anos e anos de terapia, ou, simplesmente, diante de certas circunstâncias da vida. Agora que somos, em grande parte, humanos demasiado tecnológicos parece que cada vez mais algoritmos computacionais tendem a nos decifrar e apresentar aspectos da nossa personalidade em forma de gráficos”.
Esse trecho nos faz refletir: se antes trabalhávamos arduamente para nos encontrar e nos entender, hoje, quem faz isso por nós, de alguma maneira, são os algoritmos.
Outro ponto importante é o poder que o algoritmo tem de manipular nossos relacionamentos interpessoais, desde a família até os amigos. Imagine a seguinte situação: você está triste ou frustrado com alguém e, de repente, o feed sugere uma frase motivacional ou um conselho sobre como agir. Ao ler aquilo, é comum projetar a mensagem na vida real, passando a acreditar que a pessoa com quem você se desentendeu está agindo exatamente como o post genérico sugeriu. Uma reportagem da revista Trip [4] resume essa dinâmica: “E aos poucos, sem perceber, a gente começa a olhar para as próprias relações pela lente do algoritmo e pela interpretação pronta que recebemos todos os dias. E não pela experiência real, pela construção cotidiana”.
Mas, ao mesmo tempo, é preciso cautela para não transformarmos o algoritmo no único vilão da história e esquecer a nossa própria responsabilidade. A tecnologia pode até explorar nossas vulnerabilidades, mas a decisão final de interagir, questionar e absorver esse conteúdo ainda passa por nós. Então, a reflexão que quero deixar para encerrar este texto é: se não tomarmos controle de nossos próprios pensamentos, decisões e convicções, será que, em algum futuro distópico, nossas emoções, conflitos e sentimentos mais íntimos serão decididos estritamente pelos algoritmos?
Referências:
[1] FERNANDES, Parcilene. O que você escreve no Twitter define quem você é? EnCena Saúde Mental, 2022. Disponível em: https://encenasaudemental.com/comportamento/tecnologia/o-que-voce-escreve-no-twitter-define-quem-voce-e/.
[2] THE JED FOUNDATION. Understanding Social Comparison on Social Media. Disponível em: https://jedfoundation.org/resource/understanding-social-comparison-on-social-media/.
[3] SEBRAE MINAS. Algoritmos das redes sociais: tudo o que você precisa saber. Inovação Sebrae, 2023. Disponível em: https://www.inovacaosebraeminas.com.br/artigo/algoritmos-das-redes-sociais-tudo-o-que-voce-precisa-saber.
[4] REVISTA TRIP. Algoritmo e relacionamentos nas redes sociais. Revista Tpm, 2023. Disponível em: https://revistatrip.uol.com.br/tpm/algoritmo-e-relacionamentos-redes-sociais.
[5] DEMIR, Atahan. Mãos segurando smartphone. Pexels, 2022. Disponível em: https://www.pexels.com/pt-br/foto/maos-smartphone-menina-garota-14697011/.
[6] GARIEV, Vitaly. Pessoa visualizando selfie em grupo no tablet em casa. Pexels, 2022. Disponível em:
https://www.pexels.com/pt-br/foto/pessoa-visualizando-selfie-em-grupo-no-tablet-em-casa-36730160/
Observação: artigo desenvolvido na disciplina Tecnologias Criativas, ministrada pela Professora Parcilene Fernandes. A disciplina integra o Programa Extensionista Interdisciplinar Tecnologias para a Vida dos cursos de Ciência da Computação e Engenharia de Software da Ulbra Palmas.
