É paradoxal a existência de uma sociedade contemporânea marcada por tanta exaustão e por uma vulnerabilidade psicológica latente, mesmo em meio ao advento de tecnologias que permitem desenvolver, criar, executar e produzir de forma rápida, eficiente e otimizada.
A ascensão da Inteligência Artificial (IA) acontece justamente nesse cenário. Embora quase sempre seja apresentada como uma revolução tecnológica, sua popularização revela algo profundamente humano: a tentativa de encontrar apoio para limitações que a própria sociedade contemporânea ajudou a criar.
Em um mundo acelerado, hiperconectado e orientado pela produtividade, a IA assume o papel de uma prótese cognitiva e emocional, um espelho artificial da psique humana. Ela organiza informações, sintetiza conteúdos, auxilia na tomada de decisões, produz textos, responde dúvidas e, em alguns casos, oferece uma forma simulada de acolhimento, sempre de modo rápido e estruturado. Mas a mesma sociedade que deposita tantas esperanças nessas ferramentas também exige delas uma perfeição inalcançável.
A busca por uma IA inquestionável talvez diga menos sobre as máquinas e mais sobre nós mesmos. Afinal, se ela é construída a partir de dados, conhecimentos, comportamentos e linguagens produzidos por seres humanos, seria realmente prudente esperar que consiga se livrar das imperfeições de seus criadores?
A sociedade do desempenho e o esgotamento humano

Figura 1: Espelhos artificiais referência ao espelho da rainha má. Fonte: Gemini (2026), criado a partir de comando textual.
A história da humanidade é marcada por diferentes formas de organização social. Durante grande parte da modernidade, o controle dos indivíduos esteve associado a instituições externas, como escolas, fábricas, quartéis e prisões. Esse modelo foi descrito por Michel Foucault como uma sociedade disciplinar, na qual o poder era exercido por meio da vigilância e da normatização dos comportamentos. Entretanto, segundo o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han (2017), a contemporaneidade é marcada pela chamada Sociedade do Cansaço, caracterizada pela substituição da coerção externa pela autoexploração. Nesse contexto, o indivíduo torna-se simultaneamente explorador e explorado de si mesmo, impulsionado por ideais de desempenho, produtividade e constante aperfeiçoamento.
Nesse cenário, a humanidade vive cercada por uma constante cobrança que exige um estado quase maquinal, no qual o indivíduo precisa aprender, responder, entregar e demonstrar resultados em níveis superiores às capacidades humanas. Assim, as limitações inerentes à condição biológica da espécie passam a ser percebidas como um fracasso pessoal.
Os impactos dessa sobrecarga aparecem em diversas pesquisas internacionais. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 970 milhões de pessoas viviam com algum transtorno mental antes da pandemia, conforme as estimativas consolidadas no World Mental Health Report (OMS, 2022b), baseadas no Global Burden of Disease Study 2019. Em março de 2022, a própria OMS publicou um Scientific Brief (OMS, 2022a) que apontava um aumento global de cerca de 25% nos casos de ansiedade e depressão durante o primeiro ano da pandemia de COVID-19.
Durante quase toda a história evolutiva, vivemos em pequenos grupos, decidimos com certa lentidão e processamos volumes limitados de informação. Em poucas décadas, passamos a lidar diariamente com milhares de estímulos digitais, múltiplos canais de comunicação simultaneamente, jornadas extensas e uma disponibilidade quase permanente. Diante desse cenário complexo, a IA deixa de ser apenas uma inovação tecnológica e se torna um instrumento importante para atender às necessidades práticas de quem tenta sobreviver em um ambiente cada vez mais cansativo, acelerado e insalubre.
E o resumo de todo esse contexto é apenas um: “Somos seres de carne, obrigados a viver como se fôssemos de ferro.”
A Inteligência Artificial como extensão da mente humana: adaptação ou dependência?
A popularização da IA evidencia uma mudança importante na forma como utilizamos nossas capacidades cognitivas. O que antes era desempenhado por livros, agendas, bibliotecas e computadores passa, agora, a ser ampliado pela inteligência artificial, que assume funções de memória, organização, síntese e produção de conhecimento.
Isso ajuda a explicar por que a IA se tornou tão rapidamente indispensável para milhões de pessoas. Nesse ponto, dialogando com o que foi discutido no tópico anterior, em um contexto de sobrecarga informacional, delegar tarefas intelectuais tornou-se uma estratégia de adaptação.
Uma pesquisa recente, conduzida por Gerlich (2025), sugere que esse processo pode estar se intensificando com a IA generativa. O estudo, realizado com 666 participantes, encontrou associação negativa entre o uso frequente de ferramentas de IA e indicadores de pensamento crítico, além de evidências de transferência de processos mentais para sistemas externos.
Essa delegação crescente de processos cognitivos também conversa com Brito (2013b), em Tecnologia, Humanidade e (R)Evoluções, ao observar que no longo da história, as ferramentas foram assumindo funções antes exclusivas da memória humana. Se antes decorávamos dados e informações do dia a dia, hoje dependemos de dispositivos externos para acessar boa parte disso. A IA é um novo estágio desse processo, responsável por ampliar a terceirização de inúmeros processos significativos da cognição humana.
Isso não quer dizer que a IA torne as pessoas menos inteligentes. Mas sugere que a dependência excessiva pode mudar a forma como exercitamos capacidades essenciais para a autonomia intelectual. Ao entregar memória, análise, síntese e julgamento às máquinas, que habilidades continuarão sendo de fato humanas?
Espelhos artificiais: projeção e a ilusão da empatia
Figura 2: Narciso – Michelangelo Caravaggio
A tendência de atribuir características humanas a sistemas artificiais não surge do acaso. Desde os primeiros vínculos de cuidado, aprendemos a interpretar o mundo social a partir de modelos internos de segurança, confiança e pertencimento (Bowlby, 1969; Ainsworth, 1978).
Discorrer sobre relacionamentos familiares exige a citação de Freud (1996), mais especificamente de seu conceito de projeção, mecanismo pelo qual conteúdos internos são atribuídos a elementos externos. Ainda que a leitura atual do fenômeno tenha ido além da psicanálise clássica, a ideia central continua relevante no contexto que queremos refletir: interpretamos o mundo o tempo todo a partir das nossas próprias necessidades, expectativas, medos e desejos. Essa lógica se aproxima da ideia de que aquilo que nos incomoda no outro frequentemente revela aspectos da nossa própria experiência.
De acordo com Brito (2013a), ao discutir pesquisas baseadas no modelo dos Cinco Grandes Fatores de Personalidade (Big Five), algoritmos conseguem inferir características psicológicas a partir de publicações em redes sociais, revelando aspectos que muitas vezes escapam à percepção dos envolvidos. Podemos fazer um paralelo com a ideia de que rastros digitais, que são produzidos pelos próprios usuários, confeccionam a base para que a IA funcione como um espelho artificial capaz de refletir padrões de comportamento, preferências e traços psicológicos.
É nesse cenário que podemos ver o surgimento da chamada empatia artificial. Embora sistemas de IA sejam capazes de reconhecer padrões emocionais na linguagem e produzir respostas compatíveis com determinadas situações afetivas, isso não significa que possuam experiências emocionais genuínas. De forma semelhante ao argumento do Quarto Chinês, formulado por Searle (1980), que questiona a ideia de que manipular símbolos seja equivalente a compreender significados, podemos inferir que produzir respostas empáticas não implica sentir empatia.
Ainda assim, os efeitos dessa simulação podem ser reais. Um estudo publicado na JAMA Internal Medicine mostrou que respostas produzidas pelo ChatGPT foram consideradas mais empáticas do que respostas de médicos em cerca de 79% das avaliações realizadas por participantes (Ayers et al., 2023).
Nesse sentido, a busca por empatia artificial revela menos sobre os avanços da tecnologia e mais sobre nossas próprias carências, expectativas e necessidades emocionais.
O paradoxo da perfeição: por que exigimos da IA aquilo que não exigimos de nós mesmos?
Poucas tecnologias foram cobradas com tanto rigor quanto a IA. Essa cobrança revela algo psicológico mais profundo do que uma simples avaliação técnica. Projetamos nas máquinas um ideal de perfeição que nunca alcançamos como espécie.
O cérebro humano foi moldado para detectar agentes, intenções e estados mentais à sua volta. Essa habilidade foi vantajosa para a sobrevivência, mas tem um efeito colateral: muitas vezes enxergamos humanidade onde ela não existe.
As chamadas “alucinações” dos modelos de linguagem ilustram essa contradição. Claro que esses sistemas não compreendem o mundo como nós e não têm experiências reais: apenas identificam padrões estatísticos nos dados com que foram treinados através de operações matemáticas, o que é fascinante, mas não 100% assertivo.
Assim, quando uma IA inventa uma informação ou apresenta um dado errado com aparente confiança, não está mentindo no sentido humano. Está reproduzindo limitações estruturais do próprio jeito como aprende.
Ainda assim, muitos lemos essas falhas como traços humanos. Diz-se que a IA mente, engana, esconde ou manipula. A própria linguagem com que descrevemos seus erros mostra o quanto tendemos a antropomorfizar tecnologias complexas.
Talvez isso aconteça porque a IA funciona como um espelho. E esse espelho reflete não só a nossa inteligência, mas também os nossos vieses, contradições, preconceitos e limites.

Figura 3: Expectativas inalcançáveis, referência ao monstro de Frankenstein. Fonte: Gemini (2026), criado a partir de comando textual.
Onde tudo se encaixa, considerações finais: o espelho revela mais sobre nós do que sobre as máquinas
Talvez fosse de interesse coletivo refletir sobre os problemas decorrentes do uso excessivo da IA. Mas, particularmente, consideramos mais interessante refletir sobre nossa própria fragilidade e contradição enquanto espécie e, principalmente, enquanto sociedade. Portanto, nossas considerações finais se concentram em aprofundar essa autocrítica.
A IA não é a superação definitiva das limitações humanas. Em muitos aspectos, é uma tentativa de compensá-las. Sua popularidade cresce na mesma medida em que aumentam a sobrecarga mental, a ansiedade, a insegurança e a sensação de insuficiência produzidas pela sociedade contemporânea.
O problema é que, além de transferirmos para a IA a responsabilidade por tarefas cognitivas básicas, também estamos delegando parte das nossas próprias capacidades cognitivas. O que é compreensível diante das fragilidades e pressões impostas pelo contexto social em que vivemos.
Essa dinâmica não é nova. Em Frankenstein (1818), Mary Shelley já explorava uma inquietação semelhante ao narrar uma criação humana concebida para ultrapassar limites naturais. A obra também pode ser interpretada como uma reflexão sobre as expectativas, os medos e as responsabilidades que projetamos sobre aquilo que criamos. De certo modo, a IA atualiza esse antigo dilema. Estamos tentando construir sistemas cada vez mais sofisticados não apenas para ampliar capacidades técnicas, mas também para dar forma a ideais de perfeição, controle e superação que dificilmente alcançamos em nós mesmos.
Quando buscamos acolhimento em sistemas artificiais, repetimos mecanismos psicológicos presentes desde os primeiros vínculos da nossa existência. Ao atribuir intenções, emoções e traços humanos às máquinas, acionamos processos cognitivos e neurais desenvolvidos para compreender outras pessoas. E, ao transformar a tecnologia em um suporte indispensável para a vida cotidiana, deixamos à mostra a dificuldade de acompanhar o ritmo de um mundo que nós mesmos construímos.
Se a IA é um espelho, sua maior contribuição talvez não seja mostrar o futuro das máquinas, mas revelar as contradições de uma humanidade que, ao perseguir incessantemente a eficiência e o progresso, acabou criando um ambiente cada vez menos compatível com a própria condição biológica.
Os textos da série Humano Demasiado Tecnológico convergem para essa mesma inquietação. Seja nos robôs de cuidado analisados por Brito (2022), nos algoritmos capazes de interpretar traços de personalidade a partir de publicações digitais (Brito, 2013a) ou nas reflexões sobre memória e dependência tecnológica (Brito, 2013b), a questão central permanece a mesma: à medida que transferimos funções humanas para sistemas artificiais, somos desafiados a redefinir aquilo que entendemos por humanidade.
Seja por sedentarismo ou por necessidade, tendo em vista o atual cenário em que o desempenho é sempre valorizado, o descanso vira sinônimo de improdutividade. O resultado é que as reflexões profundas perdem espaço para respostas rápidas. E a disponibilidade permanente vira expectativa social.
Seria uma ironia questionar essa estratégia humana de adaptação. Sob uma perspectiva darwiniana, a capacidade de adaptação está diretamente relacionada à sobrevivência diante das transformações do ambiente (Darwin, 1859). Lógico que o problema não está na adaptação em si, mas na dependência crescente e nas expectativas que ela produz: a crença de que as máquinas devem ser mais confiáveis, mais eficientes e menos falíveis do que nós. Mas, por que construímos uma sociedade que torna essas próteses cognitivas cada vez mais indispensáveis?
De todo modo, a busca por uma IA perfeita parece ser a continuação da busca humana pela perfeição de si mesma. A diferença é que, desta vez, construímos um espelho capaz de responder. E, ao ouvir suas respostas, descobrimos que ele revela muito mais sobre nós do que sobre si próprio. Ao nosso ver, o aspecto mais inquietante da inteligência artificial não é o fato de ela se aproximar da humanidade, mas perceber que tudo o que discutimos sobre ela inevitavelmente nos conduz de volta a nós mesmos.
Referências
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BOWLBY, John. Attachment and Loss. Vol. 1: Attachment. New York: Basic Books, 1969.
EPLEY, Nicholas; WAYTZ, Adam; CACIOPPO, John T. On Seeing Human: A Three-Factor Theory of Anthropomorphism. Psychological Review, v. 114, n. 4, p. 864–886, 2007.
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BRITO, Parcilene Fernandes de. Robôs no Cuidado a Idosos: a empatia pode ser programada? (En)Cena – A Saúde Mental em Movimento, 7 mar. 2022. Disponível em: https://encenasaudemental.com/comportamento/tecnologia/robos-no-cuidado-a-idosos-a-empatia-pode-ser-programada/. Acesso em: 14 jun. 2026.
FREUD, Sigmund. Totem e Tabu e Outros Trabalhos (1913-1914). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
GERLICH, Michael. AI Tools in Society: Impacts on Cognitive Offloading and the Future of Critical Thinking. Societies, v. 15, n. 1, art. 6, 2025. DOI: 10.3390/soc15010006.
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SHELLEY, Mary. Frankenstein; or, The Modern Prometheus. London: Lackington, Hughes, Harding, Mavor & Jones, 1818.
Observação: artigo desenvolvido na disciplina Tecnologias Criativas, ministrada pela Professora Parcilene Fernandes. A disciplina integra o Programa Extensionista Interdisciplinar Tecnologias para a Vida dos cursos de Ciência da Computação e Engenharia de Software da Ulbra Palmas.
Autores:
Geisbelly Victória Feitosa Moraes Domiciano – Acadêmica do curso de Ciência da Computação da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA Palmas), Palmas–TO, Brasil. E-mail: geisbelly@rede.ulbra.br.
Guilherme Domiciano Silva – Acadêmico do curso de Engenharia de Software da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA Palmas), Palmas–TO, Brasil. E-mail: guilhermedomiciano@rede.ulbra.br.

