Ao lermos Madame Bovary, de Gustave Flaubert (resenha do livro), é comum focarmos nas traições e na ruína financeira da protagonista Emma Bovary. Contudo, há uma camada perturbadora na obra: o autor Flaubert, filho de um renomado cirurgião, descreve com precisão médica a degradação mental e física de uma mulher que adoece ao perceber-se presa em amarras sociais das quais não pode se libertar.
Filha de um fazendeiro, a personagem principal Emma Bovary passou a juventude estudando em um convento, onde se tornou uma leitora voraz de romances, alimentando a ilusão de que a vida real espelharia a ficção. Ao retornar a morar na Fazenda conhece Charles Bovary, quando o médico vai à fazenda tratar de uma enfermidade de seu pai, encontro que culmina em um enlace matrimonial.
Após o casamento, os episódios de adoecimento de Emma não são apenas uma metáfora romântica, mas uma manifestação somática do seu confinamento. Em uma sociedade que não permitia à mulher ter conta bancária, profissão ou autonomia legal, o corpo de Emma torna-se o único palco possível para a sua rebelião e para o seu colapso. Então, o objetivo desse texto é mapear essa sintomática em três fases cruciais de sua vida.
Na primeira parte do romance, Emma confronta a discrepância entre a vida idealizada nos livros e a monotonia sufocante de seu casamento com Charles. A constatação de que o marido é medíocre e de que não há nada pelo que esperar do futuro desencadeia o seu primeiro quadro de adoecimento.O tédio, vivido pela personagem, não é um mero capricho, mas um sintoma físico de que a psiquê não aceita a realidade. Sem perspectiva de escape (o divórcio era impensável e a mulher não tinha poder de escolha sobre o próprio destino), Emma desenvolveu o que a medicina da época chamaria de “nervos” ou melancolia.
Nessa primeira fase, o adoecimento de Emma manifesta-se sob a forma daquilo que Rüdiger Dahlke (1992), em A Doença como Linguagem da Alma, define como a “sombra” que não encontra espaço na vida consciente, ou seja, cada sintoma é a expressão de um anseio ou padrão que, por ser repelido pela consciência, acaba por afundar-se no corpo. Dessa feita, ao perder o apetite, sofrer de palpitações, tosse nervosa e febres inexplicáveis, deixar de fazer atividades prazerosas (tocar piano, de desenhar e de cuidar da casa),há uma corporificação daquilo que ela resiste aceitar, por meio do sintoma. O tédio sufocante do seu casamento com Charles transcende a mera insatisfação emocional e é uma resposta depressiva clássica diante da impotência. A “doença de Tostes” (a cidade onde moravam) torna-se tão grave física e mentalmente que Charles decide mudar de cidade, acreditando que a mudança de ares a curaria, sem perceber que a verdadeira doença de Emma era a sua própria vida.
A segunda fase do adoecimento ocorre após a sua primeira grande tentativa de fuga através do adultério. Rodolphe, o primeiro amante da personagem Emma, representa para ela a liberdade, a paixão e a quebra das correntes burguesas. O planejamento da fuga é o ápice do seu delírio: ela entra em um estado quase maníaco de euforia e preparativos, então, quando Rodolphe recua e a abandona por meio de uma carta fria escondida no fundo de uma cesta de damascos, Emma sofre um trauma violento: a queda abrupta da ilusão de que haveria escape para sua realidade.
Na segunda fase, marcada pela entrega ao amante e ao consumo compulsivo, a sintomatologia de Emma evolui para o que Bessel van der Kolk (2020) descreve em O Corpo Guarda as Marcas. A busca incessante por êxtases românticos é uma tentativa desesperada de autorregulação emocional, que busca nos picos de adrenalina das traições um alívio para a “dor psíquica”. Após o abandono de Rodophe esse alívio é retirado de forma abrupta e a reação imediata é a ideação suicida (ela quase se atira da janela do sótão). Logo em seguida, ela entra em um colapso agudo que Flaubert descreve como uma “febre cerebral”. Durante mais de um mês, Emma ficou entre a vida e a morte, delirando, prostrada e sem reconhecer as pessoas. A libido, incapaz de ser integrada de forma saudável, transforma-se em desespero e ela substitui a obsessão amorosa por uma devoção religiosa extrema e caricata, comportando-se como uma santa mártir. É a tentativa desesperada da psique de encontrar um novo objeto de adoração para preencher o vazio existencial.
Na reta final, as amarras que prendem Emma deixam de ser apenas morais ou conjugais e tornam-se legais e financeiras. O comerciante Lheureux fecha a armadilha do endividamento, e Emma recebe a ordem de penhora de todos os seus bens. Sem direito a trabalhar e sem recursos próprios, a realidade a leva ao desespero.Neste estágio, o adoecimento mental de Emma chega ao estágio psicótico. A iminência da humilhação pública e da miséria a empurra para fora de qualquer racionalidade.
Na fase final, o adoecimento atinge seu ápice na “consagração maior do desespero”, como menciona Bottura Junior em Psicossomática e suas Interfaces. O suicídio por arsênico não é apenas uma escolha trágica, mas a materialização final de um processo de “autodestruição silenciosa” que vinha ocorrendo há anos. Ao ingerir o veneno, a agonia física provocada ( os vômitos, os tremores, o gosto de tinta na boca, as convulsões) contrasta brutalmente com as mortes poéticas que ela lia nos romances. A realidade a castiga fisicamente até o último suspiro e literaliza a toxicidade das amarras financeiras e sociais que a asfixiavam. De acordo com a visão de Rubens em Psicossomática: de Hipócrates à Psicanálise(2022), ocorre uma desintegração total entre o psíquico e o somático: a dor corporal do arsênico espelha a agonia de uma alma que não encontrou “linguagem” para existir fora da fantasia. O colapso físico de Emma é o veredito final de um corpo que, exausto de ter desejos silenciados e dívidas impagáveis, sucumbe à realidade da morte do corpo.
Um olhar contemporâneo para a personagem Emma Bovary
Mais de um século e meio após a publicação da obra, não podemos olhar para o trágico destino de Emma Bovary apenas como o retrato de uma época superada, pois é notório que a essência de seu adoecimento (ilusão, amarras sociais) dialoga de forma cortante com a contemporaneidade.
Apesar dos inegáveis avanços nos direitos das mulheres e da conquista de espaços no mercado de trabalho, a estrutura social ainda sustenta, seja de forma velada ou explícita, a mentalidade de que o casamento e a família nuclear são as principais métricas de sucesso feminino. A pressão social de que um relacionamento deve ser mantido “a todo custo”, em prol dos filhos, da estabilidade ou das aparências, continua adoecendo e silenciando milhares de mulheres em casamentos tão ou mais asfixiantes que o de Emma.
Além disso, as amarras de hoje apenas mudaram de roupagem, pois se na época de Emma, as mulheres não tinham o direito legal ao dinheiro, hoje muitas mulheres ainda são reféns da violência patrimonial e da total dependência financeira de seus parceiros. E quando rompem esse ciclo, o ex-parceiro a pune, se afastando dos filhos e minguando a sua vida financeira e a sociedade não apresenta suporte à maternidade solitária.
Quero trazer luz para as “Emmas contemporâneas” que são mães solo sobrecarregadas e que frequentemente adoecem por estarem presas nas amarras financeiras e pelo desamparo da falta de uma rede de apoio social.
O Bovarismo de Emma e toda a sintomatologia psicossomática analisada, foi, antes de tudo, a sua tentativa trágica de sobrevivência psíquica, haja vista que o romance expõe que a falta de independência e uma vida silenciada pelas expectativas sociais trazem um sofrimento físico.
Percebemos que tanto ontem como hoje, a sociedade exige sacrifício e o conformismo; e o corpo feminino continua sendo o palco de somatização, onde a exaustão, o silenciamento, a desigualdade e a dor cobram um preço tão alto que pode custar a própria vida.
________________________________________________
Referências:
ANGERAMI-CAMON, Valdemar Augusto (Org.). Psicossomática e suas interfaces: o processo silencioso do adoecimento. São Paulo: Cengage Learning, 2011.
BÉJAR, Victoria Regina (Org.). Dor psíquica, dor corporal: uma abordagem multidisciplinar. São Paulo: Blucher, 2017.
DAHLKE, Rüdiger. A doença como linguagem da alma: os sintomas como oportunidades de desenvolvimento. Tradução de Dante Pignatari. São Paulo: Cultrix, 1992.
FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary. Tradução de Mario Laranjeira. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011.
VAN DER KOLK, Bessel. O corpo guarda as marcas: cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Tradução de Donaldson M. Garschagen. Rio de Janeiro: Sextante, 2020.
VOLICH, Rubens M. Psicossomática: de Hipócrates à psicanálise. 8. ed. São Paulo: Blucher, 2022.
