Super Choque será novo ícone das discussões raciais no cinema?

Filme do herói poderá abordar pautas necessárias como as da série animada na década de 2000.

No final do mês de agosto, em um painel sobre a Milestone, divisão responsável por criar alguns dos super-heróis negros da gigante DC Comics, o cineasta Reginald Hudlin (Marshall: igualdade e justiça) e o ilustrador Denys Cowan anunciaram a produção de um filme live action do Super Choque. O herói se popularizou no Brasil com a série animada exibida na década de 2000 pelo canal de TV aberta SBT.

“Eu vou dar choque no seu sistema!”

A trilha sonora icônica e o bordão do personagem marcaram a geração que consumiu desenhos animados na TV aberta nos anos 2000. No horário do almoço muitos jovens assistiram às aventuras de Virgil Hawkins ao assumir a identidade de Super Choque para lidar com inimigos, preconceito e marginalização da população negra.

Para os jovens negros daquela época, o desenho era único no âmbito da representatividade, além de tocar fortemente e ao mesmo tempo com destreza nas pautas raciais. A representatividade trazida em “O Príncipe Dragão” e “She-Ra e as Princesas do Poder” elogiados nos dias atuais, foi explorada sem medo em “Super Choque” (Static Shock) há mais de 15 anos. Sem dúvidas, um pioneiro.

No entanto, a história de Virgil foi traçada muito antes de 2004 com o lançamento da animação. Foram Dwayne McDuffie, John Paul Leon e Denys Cowan que criaram os primeiros quadrinhos do herói em 1993 pela Milestone Comics. Devido ao licenciamento de publicação desde a criação do herói e à compra de parte dos direitos, em 2008, Super Choque foi adicionado ao universo DC, o que lhe rendeu participações em diversos quadrinhos da editora, e mais tarde em animação, no icônico desenho “Liga da Justiça: sem limites”.

Virgil Howkings

O nome do personagem foi dado em homenagem ao advogado negro estadunidense Virgil Darnell Howkings (1906-1988), pioneiro dos direitos civis, que lutou durante anos por sua admissão e de outros homens negros na faculdade de Direito da Universidade da Flórida, negada sucessivas vezes em razão apenas de sua cor. Após conseguir se graduar na Universidade de Boston, Howkings batalhou por anos para conseguir fazer o exame da Ordem dos Advogados da Flórida. Entre as tentativas de admissão e licença para atuar, foram cerca de 27 anos de luta por direitos (UNIVERSITY OF FLORIDA LEVIN COLLEGE OF LAW, 2020).

Fonte: encurtador.com.br/dlzP5

Virgil é originalmente um colegial pacífico de 15 anos que decide se vingar de um bully em uma briga de gangues, no entanto, uma intervenção policial com um gás tóxico provoca mutações e superpoderes em diversos jovens que estavam na briga. O evento é chamado de Big Bang e os jovens tornam-se os meta-humanos. Após desenvolver o poder de produzir e controlar a eletricidade, Virgil assume o manto de Super Choque (Static) para lidar com os outros meta-humanos que se envolveram no mundo ilegal.

Na série animada, Virgil vive com seu pai Robert, que trabalha em um centro comunitário, e sua irmã Sharon. Na maioria dos materiais produzidos sobre heróis, a função da família frequentemente é de pivô para arcos sobre a incapacidade do herói em protegê-los, ou motivação pelo luto em perdê-los. Em “Super Choque”, diferentemente, a família Howkings atua em diversos arcos sobre união, luto, necessidade de proteção e amor.

Após perder sua mãe, paramédica, por conta de incêndios em uma manifestação violenta na cidade quando ainda era bebê, Virgil vive a ausência e saudade da mãe constantemente. Robert precisa ser um pai solo rígido e ao mesmo tempo amoroso ao criar seus filhos; já Sharon tem de ser sua própria referência de responsabilidade constantemente. Esses elementos fazem o espectador se engajar de forma orgânica nas tramas e motivações de cada personagem.

Além disso, o melhor amigo de Virgil, “Richie”, participa de quase todos os seus episódios e possui seus próprios desafios. Richie é um garoto super inteligente e que mesmo sem ter sido exposto ao Big Bang, desenvolve seus próprios equipamentos tecnológicos e armas, se tornando o Gear, parceiro de atuação de Super Choque. A trama de Richie na série também traz à tona o racismo praticado por seu pai contra Virgil. Nas HQs da Milestone, Richie é abertamente gay e sofre com a homofobia.

Tocando nas feridas

Recentemente, a morte do ator Chadwick Boseman, interprete do Rei T’Challa de Wakanda e do Pantera Negra, demonstrou o impacto social da produção de 2018. Pantera Negra é um filme carregado de ancestralidade, poder e representatividade. Não foram poucas as imagens e relatos de adultos e crianças enlutados com a morte do ator. Chadwick doou sua imagem para a representação de um rei negro, líder de uma sociedade altamente desenvolvida, com um senso de justiça ímpar, na produção com mais atores negros da história do cinema mundial.

Esse tipo de representação nunca havia sido levada tão a sério. E é exatamente nisso que reside a responsabilidade de um live action do Super Choque. Aos produtores originais nunca faltou coragem de tocar nas escaras sociais, nesse sentido, o filme não deve voltar atrás. Aos fãs da DC e do herói resta torcer para que a Warner não use seu dedo podre como fez em Liga da Justiça. Super Choque precisa levar sua essência: falar de violência policial, de racismo e dos riscos do armamento da população para os jovens.

As manifestações gigantescas nos Estados Unidos disparadas a partir do assassinato de George Floyd pela polícia, bem como as ocorridas em razão das mortes de jovens negros pela polícia no Brasil, podem ser um indicativo de que já passou da hora do gênero de heróis parar de ignorar o que acontece na sociedade atualmente. E os heróis de rua como Super Choque, são, a meu ver, os que possuem mais potencial de exploração desses temas.

Fonte: encurtador.com.br/eqsx7

No Brasil o cenário muda? Não mesmo. Nos Estados Unidos, negros correm 2,9 vezes mais risco de serem mortos pela polícia do que brancos. No Brasil, o risco é 2,3 vezes maior (CORREIO BRASILIENSE, 2020). Douglas Martins Rodrigues, Claudia Silva Ferreira, Eduardo de Jesus Ferreira, Roberto de Souza Penha, Carlos Eduardo Silva de Souza, Cleiton Corrêa de Souza, Wilton Esteves Domingos Júnior, Wesley Castro Rodrigues, Evaldo Rosa dos Santos, Luciano Macedo; algumas das vidas negras tiradas pela atuação policial truculenta no Brasil nos últimos anos, e na maioria dos casos os responsáveis nunca foram penalizados devidamente (BBC BRASIL, 2020).

João Pedro Matos Pinto, 14 anos, morto com um tiro de fuzil enquanto brincava em casa. Fonte: encurtador.com.br/kGJV3

A violência contra os jovens e crianças negras carrega raízes estruturais desde o sistema escravagista, já no ventre os brasileiros negros iniciavam uma vida de opressão. Atualmente, de forma tristemente similar, os índices de mortalidade na faixa etária que compreende a adolescência são constituídos majoritariamente por jovens negros (CAMARGO; ALVES; QUIRINO, 2005; GOMES; SILVA, 2017).

No entanto, ainda que existam espacialidades “permitam” a violência homicida por intermédio da suspensão nas regulações que sustentam a cidadania (como as periferias brasileiras, ou as americanas retratadas em Super Choque), essa “permissão” é incorporada pelo discurso em formas de vida específicas (GOMES; SILVA, 2017).  Nesse sentido, os assassinatos de vidas negras nas periferias e a violência contra essa população continuam impunes em razão da paralisia e cegueira social incorporada intersubjetivamente pelo racismo estrutural. Nesse âmbito, todos nós somos responsáveis.

As narrativas cinematográficas possuem grande potencial no auxílio da assimilação e conhecimento de realidades, por passarem a sensação de que a vida está na tela (BERNADET, 2017). Além das dinâmicas cognitivas e sentimentais envolvidas, deve-se considerar a linguagem cinematográfica como um recurso para o desenvolvimento de novos conhecimentos (MASTELLA et al., 2017). Para tanto, a produção de um filme sobre um ícone pop referência na infância e adolescência de uma geração têm responsabilidades não apenas com o entretenimento, mas com o cenário sociocultural no qual está imerso.

REFERÊNCIAS:

BBC BRASIL (Brasil). O desfecho de cinco casos emblemáticos de morte de negros pela polícia no Brasil. 2020. Disponível em: https://noticias.r7.com/brasil/o-desfecho-de-cinco-casos-emblematicos-de-morte-de-negros-pela-policia-no-brasil-10062020. Acesso em: 04 set. 2020.

BERNARDET, Jean-Claude. O que é cinema. Brasiliense, 2017. Disponível em: < https://bit.ly/2RZ41Uz >. Acesso em: 06 fev. 2019.

CAMARGO, Climene Laura de; ALVES, Eloina Santana; QUIRINO, Marinalva Dias. Violência contra crianças e adolescentes negros: uma abordagem histórica. Texto & Contexto-Enfermagem, v. 14, n. 4, p. 608-615, 2005.

CORREIO BRASILIENSE (Brasília). No Brasil e nos EUA, negros correm mais risco de ser mortos pela polícia. Agência Estado. 2020. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/mundo/2020/06/14/interna_mundo,863640/brasil-e-eua-negros-correm-mais-risco-de-ser-mortos-pela-policia.shtml. Acesso em: 04 set. 2020.

GOMES, Fernando Bertani; SILVA, Joseli Maria. Necropolíticas espaciais e juventude masculina: a relação entre a violência homicida e a vitimização de jovens negros pobres do sexo masculino. GEOUSP Espaço E Tempo (Online), v. 21, n. 3, p. 703-717, 2017.

MASTELLA, Veronice et al. O CINEMA COMO UMA PRÁTICA DE ENSINO-APRENDIZAGEM. REVISTA INTERDISCIPLINAR DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO, v. 4, n. 1, 2017. Disponível em: < https://bit.ly/2E9RYjz >. Acesso em: 06 fev. 2019.

UNIVERSITY OF FLORIDA LEVIN COLLEGE OF LAW (Gainesville). VIRGIL D. HAWKINS STORY. 2020. Disponível em: https://www.law.ufl.edu/areas-of-study/experiential-learning/clinics/virgil-d-hawkins-story. Acesso em: 04 set. 2020.

Isaura Rossatto
Acadêmica de psicologia no CEULP/ULBRA e colaboradora no portal (En)Cena.