Indomável Sonhadora: um poema sobre a infância

Com quatro indicações ao Oscar:

Filme, Diretor (Benh Zeitlin), Atriz (Quvenzhané Wallis), Roteiro Adaptado (Lucy Alibar e Benh Zeitlin)

“Sempre, em todo lugar, todos os corações batem e bombeiam.
E conversam de forma que não entendo.”

“Beasts of the Southern Wild” é um poema sobre a infância, com versos crus e estrofes que terminam bruscamente, sem as amarras do politicamente correto ou dos limites da nova ordem mundial a respeito do que é ser saudável e humano. O filme é narrado por Hushpuppy, uma menina de seis anos, inteligente, observadora, forte e com um grau de imaginação que somente se alcança na infância, quando a percepção ainda não foi totalmente domesticada.

“Os animais fortes sabem quando estão com o coração fraco.”

Hushpuppy vive com o pai em um lugar fictício chamado “Banheira”, nos arreadores da cidade americana New Orleans. As pessoas que vivem nesse lugar parecem formar uma espécie de comunidade primitiva, em negação ao progresso e as inventividades do homem moderno. Sabem que a Banheira brevemente será inundada e pouco ou nada restará do seu lar, mas parecem preferir viver o presente e aceitar o futuro sem luta, mas, também, sem fuga.

A menina cria um universo dentro do seu mundo e nele, às vezes, animais pré-históricos a perseguem. Isso acontece quando algo a faz sofrer ou perturba a lógica do seu cotidiano, é uma forma indireta de reação àquilo que não compreende, ou compreende quando devia não compreender. Assim, se o pai some por dias, os animais começam a persegui-la. Se o pai sente dor ou a afasta para que ela não o veja morrer, novamente eles se fazem presente. É uma forma lírica de lidar com o sofrimento, talvez seja a única maneira possível.

“Posso contar com dois dedos as vezes que me carregaram.”

Quvenzhané Wallis, a pessoa mais jovem a concorrer a um Oscar de Melhor Atriz (na época das gravações do filme ela nem tinha completado seis anos), vive cada cena de forma tão intensa que impressiona e comove. Ela consegue mostrar todo o universo da Hushpuppy, desde sua solidão, expressa em seus diálogos imaginários com a roupa da mãe, até na sua capacidade de sobreviver às tormentas (não somente as literais). A menina é uma força da natureza: persistente, otimista e com um entendimento tão profundo do seu mundo que foi capaz de fazer amizade até com os monstros criados em sua mente, pois, afinal, entendeu que eles também são parte dela.

Para os animais sem pais que os coloquem num barco, o fim do mundo chegou.

No mundo de Hushpuppy, duas coisas são relevantes: seu pai e seu lar. O pai, mesmo sem uma educação formal ou aquilo que definimos como “bons modos”, tenta lhe ensinar a única coisa que sabe: sobreviver. E a menina compreende que o pai está partindo, por isso o desespero em entender porque os corações batem, mais especificamente porque param de bater. Em uma das cenas do filme, quando a comunidade, logo depois de um grande temporal, é resgatada por um grupo da cidade, e vão todos para um hospital, Hushpuppy tem o primeiro vislumbre do que é viver em um mundo moderno. Então, quando ela percebe que parte das pessoas que vive ali está presa a tubos, diz: “aqui, quando um animal fica doente, eles o ligam na parede.”. O pai foi trazido ao hospital para ser um daqueles animais ligados à parede, ela sabe disso, assim, entende (em algum nível) que ele brevemente vai morrer.

“Quando tudo fica quieto atrás dos meus olhos, vejo cada coisa que me fez voar por lugares invisíveis. Se me esforço em distingui-los, desaparecem. Mas quando tudo se aquieta, vejo que estão aqui. Vejo que sou uma pequena peça de um grande universo. Então sinto que assim deve ser. Quando eu morrer, os cientistas do futuro vão encontrar tudo isto. Vão saber que uma vez existiu uma Hushpuppy que viveu com seu pai na Banheira.”

A saga de Hushpuppy e seu pai é uma história sobre amor, devoção, força e esperança. Muitas vezes, em meio à velocidade de uma época em que quase tudo é breve, frágil e mutável, esquecemos que algumas coisas, para existirem, precisam de tempo e espaço. Um tempo cada vez mais escasso para ser usado livremente no exercício da imaginação. Talvez estejamos em um contexto em que cobrir o que já vem pontilhado seja o máximo de diversão possível, assim quem sai do círculo que molda a forma pode ganhar, como prêmio, uma categorização no extenso manual que define o que não é saudável e bom.

 

FICHA TÉCNICA

INDOMÁVEL SONHADORA

Título Original: Beasts of the Southern Wild
Direção: Benh Zeitlin
Roteiro: Lucy Alibar e Benh Zeitlin
Elenco principal: Quvenzhané Wallis, Dwight Henry.

Alguns Prêmios:
AFI Awards – Filme do Ano
Austin Film Critics Association – Filme e Artista Revelação (Quvenzhané Wallis)
Broadcast Film Critics Association Awards – Melhor Atriz/Ator Jovem (Quvenzhané Wallis)
Cannes Film Festival – Caméra D’Or (trófeu dedicado aos estreantes em longa metragem)
Hollywood Film Festival – Atriz (Quvenzhané Wallis)
Sundance Film Festival Grand Jury Prize

Doutora em Psicologia (PUC/GO). Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Ciência da Computação pela UFSC, especialista em Informática Para Aplicações Empresariais pela ULBRA. Graduada em Processamento de Dados pela Universidade do Tocantins. Bacharel em Psicologia pelo CEULP/ULBRA. Coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do CEULP/ULBRA.